domingo, 18 de maio de 2014

O Discurso de Gabourey Sidibe - sobre gordofobia e autoestima


"" O nome pode parecer estranho pra você, mas com certeza você a conhece. Gabourey Sidibe é a protagonista de Preciosa (Precious), um dos filmes mais tristes do mundo. Ela também participou lindamente de The Big C, série maravilhosa com a Laura Linney.
Mas, convenhamos, seja honesta, você provavelmente lembra dela como “aquela negra gorda, imensa, baleia”. E foi sobre isso, sobre os estereótipos, sobre a maldade humana, que Gabourey falou em seu discurso na festa da Ms. Foundation, onde também se comemorou o aniversário de 80 anos de Gloria Steinem, feminista histórica.
A minha querida amiga e aniversariante do mês Mariana Laudeauser (@mlaudeauser) traduziu o discurso. Aí vai:
"



"Estou muito feliz de estar aqui. Muito, muito feliz. Bom, vamos lá. Oi. Uma das primeiras coisas que as pessoas geralmente me perguntam é: “Gabourey, como você é tão confiante?”. Odeio isso. Sempre me perguntei se é a primeira coisa que perguntam pra Rihanna quando encontram com ela. “RiRi! Como você é tão confiante?” Não. Não, não. Mas comigo? Todas as vezes me perguntam com aquela mesma incredulidade. “Você parece tão confiante! Como é isso?”

Quando eu tinha 10 anos, na quinta série, minha professora, Srta. Lowe, anunciou que minha turma teria uma festinha de fim de ano, pouco antes do feriado de Natal. Ela pediu que todos trouxessem lanches ou bebidas para a festa da turma. Ela também disse que poderíamos cozinhar algo, se quiséssemos. Eu fiquei tão feliz.

Imediatamente decidi que faria biscoitos de gengibre e todos iriam adorar. Contei para minha mãe e pedi dinheiro para comprar os ingredientes. Ela achava que eu deveria comprar biscoitos prontos na loja, mas eu disse a ela “Esses biscoitos não tem amor suficiente neles!”. Eu tinha que fazer esses biscoitos.

Então comprei a massa e forminhas em forma de árvores de Natal e sinos, e fiz uma fornada para treinar, e deu muito errado. Ainda bem que era pra praticar. Estavam horríveis. E na noite antes da festa, fiz outra fornada de biscoitos. E estavam horríveis também, mas tinham aparência bem melhor. Guardei cuidadosamente em saquinhos plásticos para levar para a escola no dia seguinte.

Quando cheguei na escola naquela manhã, mal podia esperar pela festa. Estava tão orgulhosa daqueles biscoitos e todo o esforço que fiz para prepará-los; comecei a pensar que talvez não fosse ser a primeira mulher negra presidente – talvez também fosse uma chef celebridade! Quer dizer, por que me limitar?

A festa estava marcada para acontecer uma hora antes das aulas terminarem e eu esperei ansiosamente durante o dia todo. Finalmente, era hora da festa. A professora perguntou o que todos trouxeram e eu orgulhosamente anunciei que tinha feito os biscoitos para a turma. Acho que senti mais orgulho ainda sabendo que todos os outros só compraram as coisas. Eu fui a única que fez algo, porque obviamente, eu era um pouco mais esperta do que os outros.

Então, quando a festa começou, andei pela sala, oferecendo biscoitos para todo mundo. Ninguém aceitou. Ninguém. Ninguém exceto Nicholas, que foi o primeiro pra quem eu ofereci. Mas depois que outros colegas endireitaram ele, ele veio atrás de mim e me devolveu o biscoito. Andei por toda a sala oferecendo os biscoitos para os colegas até que voltei para a minha carteira com a mesma quantidade de biscoitos. Sentei sozinha, comendo aqueles biscoitos nojentos que levei horas pra fazer, sem ajuda de ninguém. Coloquei pedacinhos de chocolate neles, por isso estavam nojentos. Não estava surpresa.

Só esqueci por um momento que a turma toda me odiava. Eu tive zero amigos da quarta até a sexta série. Pra quem diabos eu estava fazendo aqueles biscoitos? Eu fiquei tão empolgada para cozinhar que esqueci que todos me odiavam. Por que não gostavam de mim? Eu era gorda, sim. Eu tinha pele escura e cabelo esquisito, sim. Mas a verdade é que, isso não é uma história sobre bullying, ou cor, ou peso. Eles me odiavam porque… Eu era uma babaca.

Sim. Eu era mandona, uma babaca mandona. Veja, lembra quando eu falei que pensava que era mais esperta que todo mundo? Bom, eu pensava mesmo! E falava para eles, todo santo dia! Aquelas crianças não podiam pensar em falar algo sem que eu cortasse lembrando que era mais esperta, engraçada e inteligente do que eles. Sempre fui sarcástica – chamava de defeito de nascença. E vamos ser sinceros, crianças não entendem sarcasmo. Elas não gostam. Elas nunca sabiam do que eu estava falando. E quando eles diziam “Espera… hã?”, eu respondia “Meu Deus, Alicia, vai ler um livro!”. Eu sei.

Meus colegas sempre me perguntavam se eu era adotada por gente branca. Eu dizia. “Não, meus pais fizeram faculdade”. Eu sei que era rude, mas eu ainda tenho muito orgulho disso. Para ser sincera, na minha vizinhança, nem todos os pais tiveram oportunidade de fazer faculdade. A maioria dos pais dos meus colegas os tiveram quando eram adolescentes. Meus pais me tiveram aos 30 anos. Meu pai nasceu no Senegal. O pai dele foi prefeito da capital, Dakar, e meu pai frequentemente levava eu e meu irmão com ele para visitar a África, enquanto a maioria dos meus colegas nunca foi além do Lower East Side.

Minha mãe era professora de ensino médio, por isso estudava lá, mas minha mãe também tinha uma voz linda, então quando eu tinha nove anos ela pediu demissão e foi cantar no metrô. Ela ganhou mais dinheiro cantando por gorjetas do que como professora! E rapidamente ela se tornava a versão underground de Whitney Houston. Ela era a pessoa mais forte, inteligente e talentosa que eu já tinha conhecido. Até hoje, eu quero ser igual a ela mais do que qualquer outra pessoa.

A questão é, eu era esnobe. Eu achava que era melhor que os outros na minha turma e deixava isso bem claro. Por isso eles não gostavam de mim. Eu acho que o motivo pra eu pensar tão bem de mim mesma o tempo todo era por ninguém mais achar. Eu percebi que era inteligente porque minha mãe gritava com meu irmão mais velho, “sua irmã vai te passar na escola. Você vai ficar para trás e ela se vai formar primeiro que você”. Mas ela nunca me disse “você é inteligente”. O que ela me dizia era, “você é muito gorda”.

Eu recebia a mensagem que não era bonita e, provavelmente, não era normal, mas eu era inteligente! Por que não diziam logo isso? “Você é inteligente”. Não é tão difícil assim. Meu pai gritava com meu irmão “Gabourey faz o dever de casa sozinha! Por que você não consegue?”, mas ele nunca me disse “Parabéns”. O que ele dizia era: “Você precisa perder peso para eu sentir orgulho de você”. Eu sei.

Então faziam piada de mim na escola, e em casa também, meu irmão mais velho me odiava, meu pai não me entendia, e minha mãe, que também foi gorda na minha idade, me entendia perfeitamente… mas ela me traía porque ela tinha muito medo do que ela sabia que estava por vir. Então eu nunca me senti segura quando estava em casa. E minha resposta a isso era sempre comer mais, porque nada diz “você me magoou. Foda-se” como comer um biscoito delicioso. Biscoitos nunca me magoaram.

“Gabourey, como você é tão confiante?” Não é fácil. É difícil se arrumar para premiações e tapetes vermelhos quando eu sei que vão fazer piada comigo por causa do meu peso. Há sempre uma grande chance se eu usar roxo, de ser comparada ao Barney. Se usar branco, um peru congelado. E se usar vermelho, pareço uma jarra de suco de morango. O Twitter vai explodir com comentários maldosos sobre como o último terremoto foi causado por mim correndo atrás de um carrinho de cachorro quente ou algo assim. E “Dieta ou Morte?” (ela mostra o dedo do meio). É com isso que eu lido toda vez que coloco um vestido. É com isso que eu lido toda vez que alguém tira uma foto minha. Às vezes, quando sou entrevistada por uma repórter de moda, eu consigo ver nos olhos dela “Como ela consegue ser assim? Por que ela é tão confiante? Como ela lida com aquele corpo? Ai meu deus, vou pegar gordura!”.

O que eu diria é, minha mãe mudou comigo e meu irmão para a casa da minha tia. O nome dela é Dorothy Pitman Hughes, ela é feminista, ativista, e amiga de longa data da Gloria Steinem. Todo dia, eu tinha que levantar e ir para a escola onde todos faziam piada de mim, e tinha que ir pra casa onde todos faziam piada de mim.

Todos os dias era difícil continuar, não importa em que direção eu fosse. E na saída de casa, eu achava força. De manhã, saindo para o mundo, eu passava por um retrato da minha tia e Gloria juntas. Estavam lado a lado, uma com lindo cabelo comprido e a outra com o cabelo afro mais lindo e redondo que já tinha visto, ambas com os punhos para o alto. Poderosas. Confiantes.

E todos os dias eu saía de casa e levantava o punho para a foto também. E marchava para a batalha (ela começa a chorar). Na época, eu não sabia que estava sendo inspirada. Na volta para casa, subindo as escadas, eu levantava o punho de novo e continuava a marchar para mais batalhas. (ela tira um lenço do decote e limpa os olhos). É para isso que peitos servem! Não sabia que estava sendo inspirada, mas estava. Se elas se sentiam daquele jeito, talvez eu pudesse também! Eu só queria ser legal daquele jeito. Isso me deu forças.

Então, tudo bem, estamos de volta na quinta série, e eu tinha acabado de ser rejeitada por 28 crianças de uma vez só. E estava sentada sozinha na minha carteira, com um saquinho vazio, migalhas no meu colo, e estava nessa festa ótima que tinha esperado a semana inteira. Esperei a semana toda por uma festa que nem tinha sido convidada. E por algum motivo eu levantei, sentei na carteira e festejei até não poder mais. Eu ria alto quando algo engraçado acontecia. E quando a srta. Lowe colocava música, eu era a primeira a levantar e dançar. Eu dancei, comi salgadinhos, bebi refrigerante e me diverti, embora ninguém me quisesse lá.

E sabe por quê? Eu te disse – eu era uma babaca! Eu queria aquela festa! E o que eu quero ganha do que 28 pessoas querem que eu faça, especialmente quando eles querem que vá embora. Eu me diverti muito. De verdade. E se de alguma forma estraguei a festa dos meus colegas, isso é problema deles.

“Como você é tão confiante?” “Eu sou uma babaca!” Certo? É minha diversão, minha vida, apesar do que pensem de mim. Eu vivo minha vida porque eu me atrevo. Eu me atrevo a aparecer quando todos os outros podem esconder a cara e os corpos com vergonha. Eu apareço porque sou babaca e quero me divertir. E minha mãe e meu pai me amam. Eles querem a melhor vida para mim, mas não sabiam com verbalizar. E eu entendo, de verdade. Eles foram melhores pais pra mim do que eles mesmos tiveram.

Sou grata a eles e a minha turma da quinta série, pois se eles não tivessem me feito chorar, eu não estaria chorando agora. (enxuga lágrimas) Se não tivessem me dito que eu era lixo, eu não aprenderia a mostrar para as pessoas que eu sou talentosa. E se todos tivessem sempre rido das minhas piadas, eu não teria aprendido a ser tão engraçada. Se não tivessem me dito que eu era feia, eu nunca teria procurado minha beleza. E se não tivessem tentado me quebrar, eu não saberia que sou inquebrável. Então quando me pergunta como eu sou tão confiante, eu sei o que realmente está me perguntando: como alguém como eu poderia ser confiante? Vai perguntar pra Rihanna, babaca!""

 
 
originalmente publicado em 7 de maio de 2014
copiado do site: http://www.cemhomens.com/2014/05/o-maravilhoso-discurso-de-gabourey-sidibe-sobre-gordofobia-e-autoestima/

quinta-feira, 24 de abril de 2014

outro texto maravilhoso da Joana de Vilhena Novaes - sobre tiranias e violências cotidianas que não sentimos/percebemos

SOBRE A TIRANIA DA BELEZA (1)

Como é se sentir invisível e desapercebido na sociedade do espetáculo? Que lugar tem a visibilidade nos dias atuais? E por que isto se constitui num problema para o sujeito contemporâneo?

O presente artigo visa abordar estas questões partindo da premissa que a gordura leva a uma exclusão socialmente validada, fazendo com que aqueles que a experienciam recorram a inúmeras práticas, saudáveis ou não, para fugir do preconceito, da intolerância e em última análise da invisibilidade social.

As recentes, sucessivas e dramáticas mortes de jovens com transtornos alimentares demandam de todos nós uma reflexão mais profunda acerca do que significa a ditadura estética a qual uma parcela significativa de jovens mulheres parece estar submetida. Vale lembrar que, a prevenção destes quadros clínicos é dificultada, sobretudo nos extratos menos favorecidos da população, na medida em que não são entendidos como uma doença, mas como um estilo de vida, socialmente reforçado, como característico das pessoas de sucesso - traduzido muitas vezes no sonho de virar modelo e com isso conseguir: ascensão social, fama, sucesso, visibilidade e dinheiro.

Antes de qualquer análise mais acurada é preciso que fique claro que, óbvia e felizmente, nem todos estamos passivos e submetidos a esta ditadura, uma vez que, como sujeitos de desejo, a singularidade de cada um deve estar sempre presente ao analisarmos um fenômeno da cultura. Generalizações são sempre perigosas e a presente reflexão (até pela profissão da autora) não deixa de lado as saudáveis resistências e a não passividade de todos aos ditames impostos pela cultura do body fitness ou do body modification. Elegemos, também, por uma questão metodológica, uma análise pela via da cultura, enfatizando, contudo, que mecanismos psíquicos, altamente complexos e singulares estão em jogo -, apenas, não os abordaremos neste trabalho.

Não há como deixar de lado o aumento exponencial de casos de anorexia e bulimia (presentes desde a antiguidade) e tentar entender, também por este viés, como as representações da beleza foram mudando ao longo do tempo e seus efeitos no agenciamento da subjetividade.

De desígnio divino ou de limitações anatômicas, a beleza passou a ser um 'ato de vontade', 'de esforço' e um 'denotativo do caráter'. Como aponta Baudrillard, a sociedade de consumo traz a mensagem de que 'só é feio quem quer', "moralizando o corpo feminino" nas palavras do próprio autor. Processo semelhante ocorre com a medicina como veremos mais adiante. Se o corpo até a sociedade industrial era o corpo ferramenta, observamos agora que o mesmo passou a ser o principal objeto de consumo. Das academias de ginástica, dos anabolizantes, esteroides e anfetaminas que são consumidos como jujubas, das inúmeras e infindáveis técnicas de correção corporal, o corpo 'malhado' entrou em cena. Beleza é artigo de primeira necessidade. Mas por ela você pagará um alto preço!

E quais os padrões de beleza da contemporaneidade? Seco, sarado e, definitivamente, magro! Nas palavras de Carla Reston (modelo de 21 anos que faleceu em dezembro de 2006 de anorexia), "vovó eu prefiro morrer a ser gorda". Mas esta fala não é única: "eu sei que vou morrer, mas até lá eu vivo magra", "quando me olho no espelho, não saio de casa", são exemplos de discursos ouvidos ao longo de pesquisas por mim desenvolvidas, bem como em minha prática clínica (2).

Não à toa o termo empregado é 'malhar' - malha-se como se malha o ferro, marca-se o corpo numa busca que, muitas vezes, escapa dos limites do humano, ignora-se o biotipo brasileiro em busca de uma androginia que praticamente anula as características femininas. Também não é acidental que a gíria usada seja 'sarado' -, o que, em realidade quer dizer curado. Mas 'curado' de que? Curado de si mesmo pensamos ser a mensagem subjacente ou ainda, curado da grande fobia social - ser gordo numa cultura lipofóbica!

A medicina moderna, espelhando o imaginário social individualista, culpabiliza o doente pela grande maioria de suas doenças: se seu colesterol é alto, quem manda comer gorduras? Se você é diabético, a culpa é sua por não largar os doces. Está com hipertensão? Ora, mude seu ritmo de vida e leve uma vida menos estressante -, como se isto fosse possível!

Certamente se você for dotado de uma bela voz, pertencer ao mundo artístico e for abençoado com um talento especial talvez escape da discriminação. Contudo, de forma alguma isto invalida o argumento de que somos profundamente cruéis com aqueles que fogem dos padrões estéticos definidos como ideais.

Qualquer menina gordinha vai poder relatar as incríveis maldades que sofreu na escola,(o bullying está aí para nos provar a veracidade da afirmação), os apelidos horríveis que lhe foram dados e, frequentemente, como se sentiram excluídas. Mais grave ainda, somos absolutamente tolerantes com esta forma de discriminação. Como aponta Maisonauve (1981) em seu livro, a gordura é a forma mais socialmente validade de preconceito o que nos permitir criticar as pessoas gordas atribuindo-lhes a culpa por sua condição - , tema amplamente desenvolvido em meu livro.

Não se trata aqui de culpar esta ou aquela agência de modelos - ideal de tantas meninas, mas de refletir como o corpo tornou-se um objeto persecutório para grande parte das mulheres. Do sonho de Cinderela surge com freqüência a perseguição da Moura-Torta.(Novaes 2001)

Em um interessante trabalho intitulado O Belo e a Morte, Medeiros (2005) vai destacar o lugar do corpo na vida psíquica das mulheres, como algo, nada trivial. Segundo o autor:

"este é o palco e o cenário que descortina um drama tão antigo e arrebatador quanto as epopéias. Não por acaso foi a beleza de uma mulher, a causa da Ilíada, do destino dos Argonautas e do triunfo de Ulisses em sua Odisséia.
Mas se o corpo é o palco deste drama onde o sujeito feminino interpreta sua inquietação diante das vicissitudes da beleza, quem estaria na platéia? Para quem ele representaria sua dor? De quem ele teria prazer em ouvir aplausos? "(pg 167)

Se há, felizmente, as que escapam, não podemos negar que temos uma longa tradição de negar nossos preconceitos - construímos em nosso imaginário a idéia de que não somos violentos, não somos racistas e somos extremamente cordiais. Isto nos levou a esta profunda situação de desigualdade em que nos encontramos. Ao invés de enfrentarmos o que de preconceituoso existe em nós, afirmamos nossa individualidade dizendo tratar-se de casos isolados e que, em realidade, não existe o preconceito.

Ora, sabemos que existem concursos que já estão solicitando o IMC (índice de massa corporal) de seus candidatos e que inúmeras empresas não contratam pessoas gordas - certamente a alegação é outra, mas o raciocínio segue pela seguinte linha - como a gordura é apenas uma questão de 'força de vontade', deixando-se de lado todos os outros aspectos envolvidos - da genética ao psíquico -, atribui-se ao sujeito a impossibilidade de agenciar seu próprio corpo. Ora, se você não é capaz de gerir sua própria vida com competência, como o fará em seu trabalho? E se o leitor pensa que estamos tratando apenas dos casos de obesidade engana-se. Após 10 anos de pesquisa, tendo entrevistado em torno de 100 mulheres (tema de minha tese de mestrado e doutorado pela PUC-Rio), agora transformada em livro (Novaes 2006) e trabalhando em um serviço que trata, exatamente, de pessoas com distúrbios relativos à imagem corporal, não posso deixar de reafirmar a intolerância (real ou imaginária) que grande parte destas mulheres relata.

Não ter visibilidade social ou ser visto de forma negativa/pejorativa no imaginário social são os dois lados da mesma moeda, qual seja: retirar do sujeito uma das condições fundamentais para que o mesmo tenha garantida a sua cidadania, bem como sua saúde psíquica. Pois bem, é notória e consensual no campo das ciências humanas e sociais a afirmação sobre os riscos que corre o ser humano caso seja privado do contato e da interação com seus pares ou tenha a sua mobilidade nos espaços públicos e de sociabilidade limitada - todas experiências que conferem certa dose de reconhecimento da alteridade em relação ao sujeito.(Novaes e Vilhena,2003).

A situação fica ainda mais dramática numa cultura imagética como a nossa, onde, nos grandes centros urbanos, a visibilidade, reconhecidamente, assumiu um lugar de prestígio na obtenção do reconhecimento. Chegando ao ponto de podermos afirmar que este reconhecimento legitima/reitera para o sujeito a confirmação de sua existência, tirando-o, dessa forma, do anonimato da metrópole. A ausência do sentimento de pertencimento e a angústia da invisibilidade podem levar a uma experiência de aniquilamento da existência fazendo com que o sujeito se sinta excluído do todo social, como um pária que não participa das regras do jogo, cujo final, indubitavelmente, resulta numa experiência muito dolorosa para o sujeito. Existir é, antes de mais nada, apresentar a imagem para o Outro.

Mas retomemos os inúmeros distúrbios na imagem corporal - o crescente aumento da 'vigorexia' nos homens (situações onde jamais atingem o corpo ideal, percebendo-se sempre franzinos) apontam para a prevalência de uma estética 'apolínea' que em muito nos faz lembrar o filme de Leni Riffenstal Arquitetura da Destruição. Temos aqui, os ideais estéticos nazistas que apregoavam a perfeição dos deuses e a eliminação de tudo aquilo que era considerado 'imperfeito'. Sabemos aonde isto nos levou.

Quem define o 'imperfeito' - quem determina a estética? O mercado? O mercado não é uma entidade em si mesma - ele é construído e apoiado em todos nós. Estamos, pois, no terreno da ética.

Termo bastante complexo, no momento, vou tomá-lo pela via da tolerância. Tolerância não no sentido de suportar, mas de acolher o diferente, a diversidade e o respeito ao outro.

Nada trará de volta as jovens (e, infelizmente, as que mais virão!) nem eliminará o horrível sofrimento de suas famílias - por isto mesmo temos uma dívida com elas. Denunciar o preconceito e as inúmeras pressões a que tantas mulheres e jovens são submetidos; parar de banalizar Ana e Mia (anorexia e bulimia nas páginas do Orkut). Longe de amigas, Ana e Mia são presenças mortíferas na vida de tantas jovens; questionar a sociedade em que vivemos onde o consumo desenfreado leva-nos, frequentemente, a abdicar de valores que sempre sustentaram nossa integridade; gritar cada vez mais alto que cada um de nós é dono de seu corpo e que este foi feito para nos servir e não para nos aprisionar. Enfim, reconhecer na diferença do outro a sua riqueza e singularidade, uma vez que é esta diferença que enriquece nosso convívio em sociedade.



NOTAS:

(1) Texto apresentado no Debate sobre a Tirania da Beleza na Casa do Saber em Dezembro de 2006.

(2) Para a elaboração de minha dissertação de mestrado e tese de doutorado pesquisei cerca de 100 mulheres buscando investigar qual a importância dada à estética corporal e quais as técnica utilizadas em busca de um corpo considerado "adequado" aos parâmetros atuais de beleza. (Novaes 2000, 2004)


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BAUDRILLARD, J. A SOCIEDADE DE CONSUMO, Edições 70, SP, [1970] 1981.

DEBORD, G. A SOCIEDADE DO ESPETÁCULO. Rio de Janeiro: Contraponto,1997

MAISONNEUVE, J. MODÉLES DU CORPS ET PSYCOLOGIE ESTHÉTIQUE. Paris. Puf. 1981

MEDEIROS, S. O BELO E A MORTE.Tese de doutorado, Dept de Psicologia.Rio de Janeiro, PUC-Rio

NOVAES, J.V. PERDIDAS NO ESPELHO?SOBRE O CULTO AO CORPO NA SOCIEDADE DE CONSUMO. Dissertação de Mestrado. Dept de Psicologia. PUC-Rio. (2000)

NOVAES, J.V. Mulher e beleza: em busca do corpo perfeito. Práticas corporais e regulação social. In: TEMPO PSICANALÍTICO, Rio de Janeiro, SPID. 2001. n.33. pp:37-54.

NOVAES, J.V. (2003) Da cena do corpo ao corpo em cena.Estética feminina e cirurgia plástica. In CASTILHO, Katia; GALVÃO, Diana. (Org.). A MODA DO CORPO O CORPO DA MODA. São Paulo.

NOVAES, J.V. SOBRE O INTOLERÁVEL PESO DA FEIÚRA. CORPO, SOCIABILIDADE E REGULAÇÃO SOCIAL. Tese de Doutorado. Dept de Psicologia. PUC-Rio. (2004).

NOVAES, J.V. O INTOLERÁVEL PESO DA FEIÚRA. SOBRE AS MULHERES E SEUS CORPOS. Rio de Janeiro, Ed PUC/Garamond

NOVAES, J.V. & VILHENA, J.(2003) Las enfermedades de la belleza: acerca de lo intolerable de la fealdad. PSICOANÁLISIS Y EL HOSPITAL. Buenos Aires. Ed Psichos. v. 12, n. 24, pp. 38-43.  

retirado daqui
http://www.polemica.uerj.br/pol18/oficinas/lipis_4.htm

segunda-feira, 21 de abril de 2014

SOBRE A DOMESTICAÇÃO DA VIOLÊNCIA E A MANIPULAÇÃO DO ASSIM CHAMADO PADRÃO DE BELEZA, ou O USO DOS CORPOS COMO FERRAMENTA PARA MOLDAR INDIVÍDUOS NÃO PENSANTES - I

quase dois meses sem postar, meio desanimada, vendo mais filmes que lendo, se bem que não deixo de ler nunca, meu vício e minha paixão... 
aí fico gripada no meio do feriado de Páscoa, e tchan, deixo de viajar na boa pra ler trocentas mil coisas acumuladas, tantas que o tempo é pouco pro muito e tanto que quero, e muito mais ainda que vai ficar na pilha dos "pra ler depois"... 
piora muito pq acabei de comprar mais 5 livros no estante virtual... qd me pedem livros emprestados, hj em dia, praticamente não tenho mais quase nada pra que não seja coisa que estudo, percebo que quase não leio mais romance, ficção, ainda um pouco de poesia, que é coisa nova pra mim, - fui mais afeita textos cursivos, densos, pra ser ler poesia há que ser outro tempo, que pra mim é novidade -, é tudo livro de Psicologia, Antropologia, Filosofia, Sociologia... - e não é todo mundo que gosta de leitura assim, tão específica, e rio pra mim mesma - que ponto chega o "#cerumano", assim caminha a humanidade, tempo de ócio criativo, sem silêncio a gente não pensa, não cria, não entende, não processa, não elabora... 
gosto das minhas solidões e dos meus silêncios...
eles não são vazios, muito pelo contrário, são ricos, profundos, visceralmente vividos e plenamente cheios...
como tudo que posto, vou montando minha colcha de retalhos que molda meu sentir e meu pensar, ajudando a construir quem eu sou.
=)

super curti e por isso compartilho aqui esse texto, de uma grande reflexão, grande autora! não conheço pessoalmente, só vi em entrevistas pela TV, mas gentem... escreve super bem, essa mulher têm DOIS PÓS DOCs, SABE LÁ O QUE É ISSO????
tem o meu respeito!!!!


BATEU, LEVOU! O QUE DIZEM OS LUTADORES DE MMA(1)


JOANA DE VILHENA NOVAES é Psicanalista. Pós-Doutora em Psicologia Médica (UERJ). Pós-doutora em Psicologia Social (UERJ). Doutora em Psicologia Clínica (PUC-Rio). Coordenadora do Núcleo de Doenças da Beleza do Laboratório Interdisciplinar de Pesquisa e Intervenção Social, LIPIS da PUC-Rio. Pesquisadora correspondente do Centre de Recherches Psychanalyse et Médecine - CRPM-Pandora. Université Denis-Diderot, Paris VII. Autora dos livros: O intolerável peso da feiúra. Sobre as mulheres e seus corpos. PUC/Garamond (2006). Com que corpo eu vou? Sociabilidade e usos do corpo nas mulheres das camadas altas e populares. Pallas/PUC (2010). Corpo pra que te quero? Usos, abusos, desusos. Em co-organização com Junia de Vilhena.  Appris/PUC (2012). www.joanadevilhenanovaes.com.br E-mail: joanavnovaes@gmail.com


Resumo: Partindo do recente fenômeno de popularização do vale-tudo no Brasil, o artigo tem  como objetivo investigar as representações sociais em torno dessa prática esportiva. Através da escuta de lutadores de MMA buscamos entender uma prática que, cada vez mais, ganha adeptos, admiradores bem como críticos ferrenhos.

Palavras-chave: corpo, disciplina, violência, visibilidade e identidade.

KNOCK OUT! WHAT DO THE MMA FIGHTERS SAYS
Abstract: The article aims to investigate the social representations of the practice of MMA in our society. By listening MMA fighters we seek to understand a sport that, increasingly, gains fans, admirers and critics of all kinds.
Keywords: body, discipline, violence, visibility and identity.

INTRODUÇÃO
Partindo do recente fenômeno de popularização do vale-tudo no Brasil, o artigo tem como objetivo investigar as representações sociais em torno dessa prática esportiva. Através da escuta de lutadores de MMA buscamos entender uma prática que, cada vez mais, ganha adeptos, admiradores bem como críticos ferrenhos. O que significa um corpo que não sabe o que é viver sem dor e no qual a disciplina é assimilada através da luta, foi algumas das indagações que nortearam esse estudo.
Parte de uma pesquisa mais extensa, buscamos, neste trabalho, apresentar de forma bastante resumida, alguns dos resultados que julgamos mais relevantes.
Conforme demonstraram nossos entrevistados, nesse universo o corpo é uma moeda de troca valiosa e devidamente adestrado através de um rígido controle de si, leva à ascensão social.
Além disso, verificou-se que essa prática corporal constitui um importante meio de sociabilidade, contribuindo para a formação de um universo bastante hierarquizado, no qual a transmissão da técnica corporal reforça a construção identitária masculina. Finalmente, desse estudo também derivou uma discussão, bastante polêmica, sobre o estatuto que as práticas de combate assumem no imaginário social: tratar-se-ia, pois, de uma violência gratuita espetacularizada ou destino biológico?

Chegando de mansinho: sobre o reconhecimento do território
O contato com uma academia de MMA (prática que condensa múltiplas artes marciais) é impactante sob vários aspectos: o primeiro é através do olfato, uma vez que a primeira impressão que toma literalmente, de assalto qualquer estrangeiro ao meio, é o forte odor de suor potencializado pela adesão à uma dieta rica em proteínas que muitos desses lutadores fazem uso antes das competições. Esses ambientes rescendem à testosterona, e é justamente ela que nos recepciona fazendo a devida introdução ao universo pesquisado! 
Embora a apresentação do ambiente não seja das mais convidativas, após um tempo no local, percebo que os lutadores constituem um grupo bastante coeso, algo da ordem de uma fratria, irmandade ou mesmo uma família-, ou seja, uma prática cuja disciplina promove o sentimento de pertencimento e que por isso faz com que o sujeito sinta-se acolhido. Pertencimento, aliás, é o sentimento que permeia as diferentes falas como veremos adiante.
Difícil não sentir alguma dose de desconforto em um campo impregnado de significantes tão fortes! Afinal, como nos lembra Bourdieu (1980), - transgressão tem a ver com domínio e sentir-se a vontade está diretamente relacionado a ter familiaridade com as regras do jogo.
Em uma perspectiva sociológica, o “outro” só passa a ser considerado objeto de aceitação ou negação a partir de determinado grau de conhecimento, formulado a priori e numa relação de proximidade (física, cognitiva e moral). O “estranho”, neste caso, é representado pelo “outro-diferente” e pela falta de conhecimento objetivo sobre ele. No entanto, o “estranho”, como já apontava Freud (1919), não é apenas uma representação daquilo que desconhecemos no outro, mas principalmente daquilo que desconhecemos em nós mesmos-, ou ainda, que não queremos reconhecer em nós mesmos. Na ausência de referências, qual seria então a moeda de troca?
Tanto na clínica quanto na prática de pesquisa, aprendi que uma escuta atenta, sensível e acurada pode nos servir de múltiplas formas. Oferecer uma escuta significa valorizar, conferir status ao sujeito e confirmar sua importância. Em um ambiente altamente hierarquizado, coeso e no qual submissão e respeito são palavras de ordem, lição depreendida em uma visita anterior ao universo do jiu-jítsu, esse conhecimento me foi útil para tentar adequar a minha aproximação naquilo que supus fosse, em princípio, um ambiente hostil. Nada mais respeitoso que dar a palavra a quem se dispõe a conosco conversar.
“O treino é duro, tem que ter disciplina até criar resistência, mas somos todos parceiros, temos cumplicidade e respeito, pois isso aqui acaba sendo uma grande família, vira tudo brother, a equipe serve para dar suporte e tem o mestre que nos transmite os seus ensinamentos a cada treino”. (B.6)

Trocando em miúdos: notas sobre o campo e seus personagens
Todo pesquisador tem uma dívida com seus entrevistados e com o conhecimento que produz. Penso ser esta uma prática bastante violenta. Contudo, apesar do preconceito, falta, antes de prosseguir, registrar o meu reconhecimento ao tempo despendido por todos os meus entrevistados nos inúmeros encontros que tivemos.
Ainda que não me tenha sido solicitado, optei por não identificar meus entrevistados à exceção de Giovanni Tonzano(2), dono da Academia Coach, em Copacabana e Claudio Coelho da Academia Nobre Arte, no morro do Cantagalo. Busquei, ainda, retirar qualquer coisa mais específica que pudesse identificar os sujeitos sem, entretanto, prejudicar a essência do que me estava sendo transmitido. Este cuidado, talvez excessivo para muitos, redunda não apenas de minha experiência clinica, como da preocupação em preservar a privacidade dos entrevistados-, sejam eles publicamente conhecidos ou não.

UM CORPO QUE DÓI: HABITUS, RESISTÊNCIA E ADESTRAMENTO
Conforme apontam White, Young & Mcteer (1995), é através dos treinos que o sujeito masculino vai sendo modelado. É também no treinamento que o corpo assimila a disciplina, dando ao atleta o controle de si como tão bem sinalizou Foucault (1985), ao discorrer sobre as tecnologias do eu, relações de controle e domínio em sua genealogia do poder.
Com as técnicas corporais incorporadas e o domínio do corpo, os lutadores adquirem uma valiosa estratégia/capital contra os seus oponentes. Aprendem a controlar a dor, superá-la, neutralizá-la e até mesmo dissimulá-la. Suportam e convivem com a mesma de forma tão intensa e constante que, na sua ausência, desconfiam não estar desempenhando o seu papel corretamente, como nos mostram as falas dos nossos entrevistados, sugerindo estranhamento ao treinar sem dor.
“Vivo com dor, assim é a vida de um atleta e quando não é assim até estranho e desconfio que não ando treinando direito (risos). Treino em média umas oito ou nove horas por dia e nas semanas que antecedem as competições uso o meu corpo até o limite, chego em casa, como, tomo banho, dou um beijo na minha mulher e desmaio exausto, as vezes chego e ela já tá até dormindo, mas é o meu instrumento de trabalho, meio de sustento e a razão de ter conquistado tudo na minha vida até agora. Tá vendo aqui (apontando para o bíceps) faço muita fisioterapia e treino com dor direto, por isso vim enfaixado e com a tipóia.( B.1,  33 anos, lutador de UFC – BTT).

VALE QUANTO PESA: CORPO, DISCIPLINA E CONTROLE DE SI
Das falas apresentadas estas talvez sejam as que mais guardem semelhanças com o campo das academias de ginástica freqüentadas por mulheres de classe média alta. Em estudos anteriores, (Novaes, 2001; 2006; 2007; 2011) ao falar sobre os usos do corpo na sociedade de consumo/cultura carioca, enfatizei a crescente relação persecutória com a balança que fazia, muitas vezes, da malhação o sintoma de uma profunda insatisfação com a própria aparência. Esse desconforto espelhava um agudo sofrimento psíquico que era potencializado pelo horror à gordura do qual somos todos testemunhas.
“O momento da pesagem é tenso, é a única hora em que não gosto e me arrependo de ser um lutador profissional. Chega umas três semanas antes da luta e o corte tem que ser muito radical, tipo assim porque você as vezes tem que perder doze quilos e senão perder é penalizado e não luta. Vai chegando perto da luta o treino intensifica e você vai ficando mais ansioso porque sabe que tem que perder.... é sinistro. Lembro uma vez em Brasília que simplesmente não conseguia enxugar o que precisava pra minha categoria, estagnei no peso, por causa do clima seco eu praticamente não suava nos treinos, por mais que me enchesse de roupa feito hoje   aqui, por exemplo, que estou usando duas camisetas, uma até de manga comprida, que é para aumentar o gasto calórico e eu poder comer algum carboidrato” (B.2)
“Pô essa parte da dieta antes da pesagem é f..... é muita restrição, uma semana antes da luta chego a sonhar com Mc Donald, rola uma fissura mesmo, porque chega assim uns dois, três dias antes da pesagem e é só dieta líquida, isso porque nessas semanas que antecedem você já é obrigado a ir cortando sal ,açúcar, leite e termina só na proteína mesmo. A dieta, antes do combate, talvez seja o que exija mais autocontrole, disciplina e privação do profissional”  (B.4)
Não pude deixar de recordar a fala de uma de minhas primeiras entrevistadas, na época com 16 anos e que me disse: “Não vejo a hora de ficar velha para poder comer uma macarronada sem culpa”. (Novaes 2001:43) Tantos anos se passaram, entrevisto agora pessoas tão diferentes e a sensação da balança perseguindo permanece a mesma!

CORPO: IDENTIDADE, INVESTIMENTO E CONSUMO
Segundo Rodrigues (1986), o corpo, em uma civilização de abundância industrial, tem uma nova tarefa. Ainda que não seja mais um corpo-ferramenta deverá ser um corpo consumidor, individualizado, livre e, sobretudo, cuidado.
Para Rodrigues (op.cit) é fundamental entendê-lo para podermos falar no corpo liberado. Inadequado para as fábricas, para que servirá este corpo moderno?
Não há como ignorar o vetor financeiro uma vez que a indústria da luta (Culto ao corpo, consumo de insumos esportivos + produção e veiculação de imagens violentas que geram altos índices de audiência) vem demonstrando ser bastante lucrativa, movimentando cifras bastante altas, agora disputadas pela grande mídia televisiva que busca deter os direitos de exclusividade de exibição dos combates de MMA. Dentre eles o UFC é o campeonato de maior prestígio, considerado a elite no universo das lutas.
Um capital, ou um tipo de capital, é aquilo que é eficaz em um determinado campo. É ao mesmo tempo a arma e o que se disputa, o que permite a seu detentor exercer poder, influência, e, portanto, existir em determinado campo, em vez de ser uma simples quantidade negligenciável. No trabalho empírico é uma só e mesma coisa determinar o que é campo, seus limites, os tipos de capital atuantes, qual alcance de seus efeitos, etc. Vemos que as noções de capital e de campo são estreitamente interdependentes.(Bourdieu,1980:4).
Trata-se, assim, do corpo como valor e moeda de troca –, capital.
“Se a luta não tivesse me dado a oportunidade de ganhar o mundo e ter mobilidade social talvez estivesse envolvido com o mundo do samba, da malandragem, porque eu ia sempre nos ensaios, meu pai, que é alfaiate, é um cara bem conhecido nesse meio, sei lá.... tenho muito orgulho da minha origem, mas sei que de onde eu vim é preciso ter sagacidade pra sobreviver e se dar bem e a luta me deu isso, viajei, comprei e conquistei coisas... nem sei onde eu estaria se não lutasse e  praticasse o bem.” (B.1)
“Foi com a luta que eu consegui a segurança que não tinha quando era mais novo, quando te disse que era um adolescente inseguro por conta dos meus pais serem separados. Acho que os treinos te dão isso, ele te exige persistência e obstinação para não desistir dos seus objetivos, te dá força, torna o cara resistente é o que eu sempre procuro passar para os meninos da minha equipe. A luta te prepara para ser um ganhador, te faz encarar melhor as revanches da vida, mas ao mesmo tempo te ensina, física e emocionalmente, a suportar melhor as derrotas.” (B1)
“A luta foi muito importante na minha formação, ela ajudou a formatar a minha personalidade e o meu caráter como homem, reforçando valores como a hombridade e o respeito. Além disso, me deu autonomia financeira, reconhecimento, notoriedade e visibilidade até eu poder criar a minha equipe e passar para eles a minha técnica” (B.6)
Nesse sentido, ao falar da formação identitária dentro de grupos sociais específicos, o pensamento de Cecchetto (2004) parece estar bem afinado com a fala do nosso entrevistado, no tocante ao fato dos esportes de combate potencializarem habilidades baseadas na resistência e na técnica. Esses atributos comparecem no discurso dos lutadores através da crença de que buscar a vitória nos combates, interfere na própria formação, fazendo com que o sujeito desenvolva características de personalidade, tais como a tenacidade e a obstinação.

DE VOLTA À ARENA ROMANA: VIOLÊNCIA GRATUITA OU DESTINO BIOLÓGICO?
Segundo Jurandir Freire Costa (1985), a violência pode ser definida pelo desejo de humilhar e degradar o outro. É porque o sujeito violentado (ou o observador externo) percebe no sujeito violentador o desejo de destruição (desejo de morte, de fazer sofrer) que a ação agressiva ganha o significado de ação violenta. Não existe violência sem desejo de destruição. A violência definida como agressividade e equiparada a um impulso instintivo e termina por ser trivializada.
Escolhemos a definição do autor para iniciar o que talvez seja a categoria de análise mais polêmica desse estudo, já que a não é mistério a crença de muitos e o discurso partilhado por outros tantos acerca das lutas como um exercício de violência gratuita e espetacularizada: a volta à arena romana.
Relendo o texto freudiano, ao mesmo tempo em que traz as concepções de Hanna Arendt sobre a relação da violência com o poder, Costa (op.cit) vai nos conduzindo ao caminho da violência como desejo, jamais como algo “irracional” ou da “natureza humana”.
Para o autor a banalização da violência é, talvez, um dos aliados mais fortes de sua perpetuação A resignação de que somos "instintivamente violentos" faz com que o homem se curve a uma inexorabilidade igual à da morte. Faz dela seu "destino biológico" ou o princípio e o fim de seu destino psíquico, social ou cultural. Não há, portanto, violência instintiva, porque falar de violência é falar de uma intenção de destruir.
Violência é, então, o emprego desejado da agressividade, com fins destrutivos. A irracionalidade do comportamento violento deve-se ao fato de que a razão desconhece os móveis verdadeiros de suas intenções e finalidades. Esta definição nos será útil ao interpretarmos as falas de nossos entrevistados.
Em suas falas percebemos como a “violência da luta” não é, de forma alguma, percebida como um ato violento - quando muito, trata-se de agressividade inerente a todo ser humano.
A argumentação é a da existência de inúmeras regras e normas que, caso não respeitadas, penalizam o lutador, impedindo/balizando os chamados impulsos violentos que possam, por ventura, partir deles. Ou seja, o argumento da “gratuidade, violência e barbárie” é combatido em face de existência de uma lei.
“A maioria das pessoas acusa o vale-tudo de ser um esporte violento, mas desde os gregos todo mundo adora ver porrada – foi e sempre será assim. É o institnto animal que todo homem tem. Não é violência é agressividade, luta pela sobrevivência, a parada é biológica – violência é estuprar, roubar, matar –  o MMA é um esporte, tem regras que se não forem respeitadas o combate é interrompido na hora visando preservar a integridade física dos atletas”. (Giovanni)
"Essa imagem que as pessoas têm do lutador porradeiro, marginal e bandido é que estigmatiza a gente! Você veio aqui entrevistar a gente com essa ideia também? Acha a mesma coisa que apareceu outro dia na matéria da Rede TV? Essa imagem tem a ver com aqueles pitboys de classe média, zona sul, na década de noventa que ficavam deslumbrados com as técnicas que aprendiam com o jiu-jitsu e saíam brigando em boite”.(B.1)
Outro argumento bastante utilizado nas respostas dos lutadores e treinadores entrevistados foi a menção à teoria Darwiniana na intenção de dar sentido à prática esportiva desses embates. A noção evolucionista de que somente o mais forte e apto deve sobreviver, parece pautar a lógica desse campo - a luta reproduziria, assim, o show da vida na sua luta pela sobrevivência: que vença o mais forte!
“Mas acho que na luta é como no reino animal, sobrevive o mais forte, o mais apto. Na verdade com a evolução da espécie humana também foi assim, não mesmo? Prevaleceu o mais resistente, o mais sagaz, o mais forte...."(B.3)
Para Hanna Arendt o argumento que faz da agressividade instintiva, do "componente animal no homem", a causa da violência, baseia-se numa redundância do tipo "o homem comporta-se como um animal porque é um animal". Segundo a autora:
Para saber que o povo lutará por sua pátria não precisamos descobrir instintos de territorialismo nas formigas, peixes e macacos; para aprender que a superpopulação resulta em irritação e agressividade, não temos que fazer experiências com ratos. Basta passar um dia nos cortiços das grandes cidades (1979:139).
Sobre o imaginário popular e as representações sociais das artes marciais nas classes populares nos fala Claudio Coelho, - dono da academia de boxe Nobre Arte e responsável por um projeto social (e de vida) que tem como objetivo ensinar essa prática esportiva aos jovens daquela comunidade. Com seu tom de voz quase sempre gritado, denotando aspereza e calejamento, o treinador combate a noção de violência gratuita que é atribuída ao esporte, revelando que a luta pode configurar uma das estratégias de sobrevivência em um território que não dá a todos as mesmas chances de competitividade e, portanto, possibilita aos jovens encontrar no esporte, muitas vezes, uma possibilidade de vencer as adversidades.
“As pessoas acusam a luta de ser um troço violento, achavam que era coisa de marginal. Violento é o mundo, isso aqui é a saída do inferno, que a vida por aqui pode se tornar para muitos desses meninos. Poderia te contar uma infinidade de histórias de meninos que a luta fez renascer. Vou lhe ensinar uma coisa, aqui funciona assim, minha querida: no asfalto, quando algo dá errado em casa, a meninada sai dando porrada na rua, aqui, dá em tiro mesmo, é pá, pum, vacilou dançou, não tem essa de trabalho comunitário não, é cadeia mesmo – é a lei do cão. É por essas e outras que a cada. menino que conseguia tirar do tráfico era uma vitória, um assalto ganho na luta. Vir aqui lutar para esses meninos não significa aprender a sair dando porrada a torto e a direito, significa passar a ter alguém que se preocupa e se interessa pela vida daquele moleque, que muitas vezes é caótica, sem perspectiva. É também e, acima de tudo, passar a ser enxergado, por isso que eu grito e cobro, dentro e fora do treino. É também obriga-los a frequentar a escola antes de treinar, eu tenho esse dever com a formação deles, muitas vezes eles chegam aqui meio gente, meio qualquer coisa e saem homens, esse é o meu maior orgulho!. O garoto passa a ter aqui, uma família estruturada e pai de verdade, que ama, cobra, grita e tem que ser duro, as vezes implacável e muito agressivo. Eu falo a língua deles porque vim do mesmo lugar e sei que mundo aqui em cima é mais duro, dói e cria feridas, para sobreviver tem que ser casca grossa! -  tenha sempre isso na cabeça quando for escrever essa sua pesquisa aí”. (Claudio Coelho)
Conforme pudemos observar, aqui o argumento da lei é novamente trazido à tona. Entretanto, ao invés de remeter às rígidas regras do universo esportivo, em função de demandas e carências inerentes ao meio, parece cristalizar-se na figura do treinador que assume uma função paterna organizadora. Nesse novo código interpretativo, o limite imposto pela disciplina é interpretado como um amor que retira crianças e adolescentes de um universo precário, muitas vezes de desamparo absoluto e no qual a estratégia de sobrevivência são as redes de solidariedade. Não à toa, uma das primeiras inscrições que é possível ler nas paredes da academia do Cantagalo, refere-se ao fato da solidariedade ser um esporte coletivo, - sentimento que posto em prática e vivenciado pelo sujeito, ameniza a dor de outro tipo de violência, bem como de toda sorte de privação, dessa vez não somente concretas, mas sobretudo, simbólicas!

Considerações finais
Ao final da pesquisa realizada não me tornei uma fã das lutas e, certamente, creio que há outras formas de inserção, reconhecimento, visibilidade e ascensão - poucas é verdade. Ainda vejo a luta como extremamente violenta e lamento que sua espetacularização reflita tanto os tempos em que vivemos.
Mas, se há algo que venho aprendendo nestes anos em pesquisas de campo é que se não tivermos uma escuta atenta e respeitosa perderemos o que há de singular e único em cada um de nossos entrevistados. Isto não significa deixar de ser crítica. A grande maioria de meus entrevistados, mesmo na brutalidade de seus ofícios como lutadores, sempre demonstrou uma imensa delicadeza e atenção para com todos no seu entorno (fora da luta - é obvio!) e um profundo respeito com as regras estabelecidas. Sejam elas as da luta sejam as de minhas entrevistas.
Não há dúvida que a luta, com tudo o que esta implica (grupo, regras, disciplina, valorização e recompensa) foi um fator redentor e/ou de mudança e/ou salvação para muitos destes homens; assim eles nos falam todo o tempo. Nesse sentido suas falas espelham o imaginário social sobre o “Lutador Ideal”, revelando elementos, aparentemente, consensuais sobre essa figura.
Os esportes de combate, com ou sem armas, evocam uma habilidade baseada na força e na técnica, atributos que seus praticantes acreditam que devem possuir e adquirir para construir socialmente sua masculinidade. Demonstrar tenacidade e determinação seriam os aspectos exigidos dos homens ao buscar a vitória no combate, valores também conhecidos como "garra" ou força de vontade para vencer (Cecchetto, 2004, p. 142).
Igualmente digno de nota é a importância do grupo e da relação coesa entre seus membros, na transmissão dessas representações. Os valores, as normas e a própria percepção do que significa ser um lutador é assimilada e reiterada, cotidianamente, na prática (treinos), através da introjeção e aceitação da hierarquia e a partir da transmissão dos ensinamentos por parte dos lutadores mais experientes em relação aos mais novos, conforme demonstra a fala de todos os entrevistados que afirmam o papel da luta na formação da personalidade, do caráter e da masculinidade.
Mas é a fala de Claudio Coelho(3) que me toca de forma muito singular. Isso aqui é a saída do inferno que a vida por aqui pode se tornar, para muitos desses meninos. Penso que não sem razão me lembrei das palavras de Simone Weil acerca do desenraizamento. Ser é pertencer e para pertencer é preciso acreditar que vale a pena criar raízes. Infelizmente, tal só é possível através da demonstração do interesse, por parte de alguém ou de um grupo, no estabelecimento e manutenção desses vínculos em relação ao sujeito. Nesse sentido, alguém que fale a mesma língua e use o mesmo código, converte-se em um solo fértil para que as raízes possam ser fincadas.
E aí permanece minha indagação: será apenas através da luta que a disciplina, o grupo, a visibilidade social, a ascensão e o pertencimento serão possíveis?

NOTAS:
(1) Trabalho apresentado no V  Congresso Internacional de Psicopatologia Fundamental, realizado em setembro de 2012. Fortaleza.
(2) Devo a Giovanni grande parte de minhas entrevistas e a inserção mais facilitada no mundo da luta.
(3) O boxe constitui uma das modalidades de luta presentes nos treinos de MMA. Para uma descrição mais detalhada do projeto e dos vários depoimentos, ver (Novaes, 2012).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BOURDIEU, P.(1980) A Crença e o Corpo.In: Le Sens Pratique, cap. 4, Paris, Minuit , (cópia traduzida e xerocada).
Ceccheto, F. R. (2004). Violência e estilos de masculinidade. Rio de Janeiro: FGV.
COSTA,J.F.(1985)  Violência e Psicanálise, Rio de Janeiro, Ed. Graal.
Foucault, M. (1985) A História da Sexualidade III. O cuidado de si. Rio de Janeiro, Graal.
Freud. S.[1919] O Estranho, InEdição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro, Imago. Vol..XVII. 2000.
Nascimento, A. R. A., Veloso, F. G. C., Almeida, A. C. C., Miranda, C. C. L. A., Fernandes, J. & Nunes, K. C. (2011). Virilidade e competição: masculinidades em perfis de lutadores das Revistas Tatame e Gracie. Memorandum, 21, 195-207.
Novaes, J.V (2001) Mulher e beleza: em busca do corpo perfeito. Práticas corporais e regulação social. In: Tempo Psicanalítico, Rio de Janeiro, SPID. n.33.  pp:37-54.
NOVAES, J.V. (2006) O intolerável peso da feiúra. Sobre as mulheres e seus corpos. Rio de Janeiro. Ed.PUC/Garamond
NOVAES, J.V.(2007) Sobre a tirania da beleza. Revista Polêmica, v. 18 http://www.polemica.uerj.br/pol18/oficinas/lipis_4.htm
Novaes, J.V.(2010) Com que corpo eu vou? Sociabilidade e usos do corpo nas mulheres das camadas altas e populares. Eds.  PUC/ Pallas.
NOVAES, J.V. (2011) Beleza e feiúra.sociabilidade e usos do corpo em mulheres das camadas altas e populares da zona sul carioca. In: Del Priore (org.) A história do Corpo no brasil. Ed. Unesp. Pp 477-506
Novaes, J.V.(2012) Corpo arma, corpo ferramenta ou corpo capital? Escutando lutadores de MMA. In: Vilhena & Novaes (orgs) Corpo para que te quero? Usos abusos e desusos.Rio de Janeiro. Eds. Appris/PUC.
RODRIGUES, J.C. (1986) O corpo liberado. In: Strozemberg, I. (org.) De Corpo e Alma. Rio de Janeiro, Ed. Contemporânea, p. 90-100
Vilhena, J (2002). A Arquitetura da violência. Reflexões acerca da violência e do poder na cultura. In: Cadernos de Psicanálise. Rio de Janeiro, SPCRJ. Vol.18. N.21. pp 181-200
Weil, S. (2001). O Enraizamento. São Paulo: Edusc.
White, P. G., Young, K & Mcteer, W. G. (1995). Sport, masculinity, and the injured body. Em D. Sabo & D. F. Gordon (Orgs.). Men’s health and illness: gender, power, and the body (pp. 158-204). London: Sage.

mantive a formatação científica
retirado daqui:
http://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/polemica/article/view/4325/3140
pesquisado pela internet


quarta-feira, 12 de março de 2014


Porca gorda
Por que as pessoas acima do peso nos incomodam tanto?
ELIANE BRUM

Assisti à “Gorda”, peça teatral em cartaz no Teatro Procópio Ferreira, em São Paulo. Ri muito. Em certo momento, meu riso ficou triste. Eu estava triste. Não pela gorda da peça, mas por me reconhecer no preconceito contra ela. No final, chorei.

Este é o enredo. Helena e Tony se conhecem num restaurante. Ela é gorda. Não gordinha. Gorda mesmo. Helena é vivida com muita competência pela atriz Fabiana Karla, de Zorra Total (TV Globo). Segundo a sinopse oficial, a personagem está 30 quilos acima do peso. Se compararmos com uma das modelos da moda, deve estar uns 50. Tony (o ótimo Michel Bercovitch) gosta dela. Ela é inteligente, divertida, sensual. Bonita. Helena gosta dele. Os dois se apaixonam. Mas, como um cara jovem, bem sucedido, MAGRO e disputado pelas mulheres MAGRAS pode escolher uma gorda, amar uma gorda, ser feliz com uma gorda?

A reação social diante da versão de amor impossível da nossa época é protagonizada por Caco (Mouhamed Harfouch), amigo e colega de trabalho de Tony, e por Joana (Flávia Rubim), sua ex gostosa, cujo maior temor da vida é engordar. São eles que representam, no enredo e no palco, pessoas como nós – sempre menos magras do que gostariam, magras o suficiente para não serem chamadas de gordas na rua.

O texto do americano Neil Labute é inteligente, rápido, fatal. Rimos muito. Primeiro, com ela. Helena é uma mulher bem-humorada. Como muitos gordos, defende-se fazendo piadas sobre seu tamanho. A velha regra: adiante-se, ria de si mesmo, antes que os outros o façam com a crueldade habitual. Se perder o timing, não acuse o golpe – ou nunca mais o deixarão em paz.

Aos poucos, começamos a rir muito dela (e não mais “com” ela), pelas piadas de Caco, ao descobrir que o amigo está namorando uma “porca gorda”. Fat Pig é o nome original da peça. Mas gostamos de Helena, testemunhamos o apaixonamento dos dois, sabemos que eles são felizes juntos. E passamos a nos sentir mal de rir, ainda que continuemos rindo. Não queremos ser como Caco – muito menos como Joana. Mas somos tão parecidos!

Nós – o senso-comum sentado na plateia – somos o mais próximo de um vilão que esta peça produz. O texto e os atores são competentes o suficiente para fazer com que a gente prefira não vencer. Torcemos para que Helena e Tony consigam ficar juntos, apesar de nós. Torcemos para que eles consigam vencer nosso preconceito e nos tornar melhores do que somos. Não sei se torceríamos assim num episódio da vida real. E esta é a questão que a peça também nos deixa.

O final é brilhante.

Acho que vale a pena pensar sobre as questões que esta peça provoca. Começando por: qual é o nosso problema com os gordos?

Sobre a transformação do padrão de beleza, das rechonchudas musas da Renascença às modelos esquálidas e/ou musculosas de hoje, já se escreveu bastante. A pergunta que me desperta maior interesse não se refere – apenas – ao fato de acharmos as gordas feias, de relacionarmos gordura com feiúra. A questão que mais me intriga é: por que muitos acham as gordas (e os gordos) repugnantes? Se você não disse ou pensou, já ouviu alguém dizer: “olha que gorda nojenta!”.

Horrível. Mas tão comum que nos obriga a ir em frente.

Com todas as diferenças que, para nossa sorte, garantem a diversidade do mundo, somos impelidos a ser politicamente corretos. Fazer piadas com aquelas que foram as vítimas de sempre até não muito tempo atrás, como negros, gays, deficientes etc, pega mal hoje em dia. Temos de ser politicamente corretos ou corremos o risco de ser processados – ou mesmo de acabar na cadeia. Por que o privilégio de não ser ridicularizado não foi estendido aos gordos? Sobre os gordos podem ser ditas as coisas mais cruéis. E ainda se manter do lado certo da força.

O que diz o senso comum sobre os gordos? Primeiro, que são feios. Em geral, o máximo de elogio que um gordo consegue arrancar é: “Que pena, tem um rosto tão bonito...”. Dizem que são preguiçosos. Se fizessem exercícios – e como ousar não se exercitar neste mundo? – perderiam aquela pança. Afirma-se também que são sem-vergonhas. Se tivessem vergonha na cara, respeito próprio, fechariam a boca e seriam magros. E, então, poderiam pertencer ao clube dos magros felizes (????!!!!).

Portanto, segundo o senso comum, além de feios e preguiçosos, gordos também teriam falhas de caráter. E, como tudo, para as mulheres acima do peso é ainda pior. Neste mundo em que se compram peitos, bocas e bundas no crediário, soa imperdoável não arrancar a gordura à faca. Já ouvi muitas vezes frases como estas, referindo-se a alguém com mais quilos do que o “permitido”: por que não faz logo uma cirurgia de redução de estômago? Seguida por uma cirurgia reparadora e uma lipoescultura? Simples assim.

Sobre o estado psíquico dos gordos, a percepção é confusa. Por um lado, persiste a ideia de que todo gordo é engraçado. É um pândego. Como bobo da corte ou comediante, ele pode ser aceito. Nós mesmos, só conhecíamos Fabiana Karla como atriz do Zorra Total. Ninguém imaginou que, ainda que fazendo o papel de “gorda”, ela pudesse ter outros recursos que não a graça. Que os gordos mostrem nuances que não virem piada nos surpreende. Que eles possam nos fazer pensar sobre outras dimensões da vida é inesperado. Que tenham questões existenciais que não girem em torno de uma balança é estarrecedor.

Por outro lado, o senso comum também diz que, se é gordo, só pode ser infeliz. A maioria de nós acredita e repete isso. Fulano come demais, é infeliz. Fulano não consegue fechar a boca, é infeliz. Fulano compensa a infelicidade comendo. Ora, desde quando magreza se tornou sinônimo de felicidade? Você, magro ou magra, é loucamente feliz? Está rolando de rir vida afora? Ops, magros não rolam.

O mais disfarçado dos preconceitos vem embalado pelo discurso da saúde. É verdade que a obesidade está crescendo no Brasil. E é verdade que isso é sério. E é legítimo e relevante pensar e discutir o fenômeno com responsabilidade.

Mas será que não há um exagero nisso? Ou pelo menos do uso preconceituoso que se faz de uma questão tão séria? Hoje, quando olham para um gordo, além de feio, preguiçoso e sem-vergonha, muitos enxergam também um doente. Gordura virou sinônimo de doença. E nossa sociedade, que morre de medo de morrer, foge da doença. E das pessoas doentes. Os gordos parecem ser os leprosos de nosso tempo. E esta seria minha primeira hipótese para a repugnância que as pessoas gordas parecem evocar.

Não se trata de afirmar que a gordura não está relacionada a doenças – ou que a obesidade não seja uma doença. A Organização Mundial da Saúde afirma que é, quem sou eu para discordar. Só tento mostrar que é preciso tomar cuidado para não cometermos as mesmas crueldades que nossos antepassados consumaram ao exorcizar epiléticos, isolar leprosos. Todas essas práticas sempre foram realizadas em nome do “bem”. Guardadas as proporções e o momento histórico, nossa sociedade pode estar transformando os gordos, com os instrumentos desta época, nos culpados pela nossa impotência diante da doença e da morte.

Hoje a vida tornou-se uma patologia. Difunde-se que muito do que sentimos não deveríamos sentir. O ideal seria só sentir alegria num corpo magro, musculoso e eterno. Para cada sentimento e estado que extrapole estes limites impossíveis há uma patologia e uma penca de remédios e procedimentos cirúrgicos para “curá-la”. Acredito que vale a pena ter um pouco de cautela, enfiar alguns pontos de interrogação na cabeça, antes de sairmos rotulando todos os gordos como doentes. E, pior, com uma doença que dependeria só de boa vontade individual para ser curada.

Eu sou mais ou menos magra. Longe, bem longe do peso de uma modelo, mas ninguém me chamaria de gorda na rua. A maior parte da minha família é magra. E todos nós temos doenças. Eu tenho quatro hérnias de disco. Meu pai, mesmo com um metabolismo fenomenal e índices de colesterol e triglicérides perfeitos, tem problemas cardíacos desde jovem. Meu irmão do meio não tem um grama de gordura a mais no corpo, come alimentos saudáveis e se exercita com método: a cada semana corre quatro dias, faz musculação e natação em outros dois. Ainda assim, é um pré-diabético.

Parece-me lógico que o envelhecimento traga doenças. A vida nos gasta. Nosso corpo também tem prazo de validade. Pela biologia, estamos prontos para morrer assim que alcançamos a idade reprodutiva, transmitimos nossos genes e criamos nossa prole. Conseguimos, à custa da Ciência (e ainda bem que conseguimos!) espichar nosso tempo de vida e até com qualidade crescente. Mas, infelizmente, não vamos nos livrar das doenças. Nem de morrer. É duro olhar para os limites. Mas não fazê-lo pode ser pior.

Os gordos podem ser vítimas de nosso medo de morrer. Pagam um preço alto pela nossa dificuldade de lidar com a desordem inerente à existência humana. Tornamos suas vidas insuportáveis – inclusive as lojas bacanas, que se recusam a oferecer números maiores que 42 – porque eles apontam em seus excessos aquilo que nos falta a todos: controle sobre a vida. Esta é uma hipótese, apenas. Acredito que existam muitas outras.

Acho importante tentar compreender porque insistimos em jogar os gordos na fogueira contemporânea. Por todas as razões que dizem respeito à vida de todos – e principalmente para não infligirmos sofrimento ao outro que nos ameaça com sua diferença. Só sei o óbvio: tanto medo, capaz de causar repugnância, revela mais sobre os magros do que sobre os gordos.

Talvez, num dia próximo, não seja preciso escrever em termos de “nós” – e “eles”. A vida é diversa. Sempre houve os magros, os gordos, os altos, os baixos, os de olhos azuis, os de pele escura. Esta riqueza é um patrimônio humano que fez muito bem à espécie. Ser capaz de reter gordura, aliás, garantiu nossa sobrevivência por milênios. Quando os gordos lutam para ser magros, estão brigando contra a biologia. Algo nada fácil de fazer. Muito menos de vencer.

Se engordamos – por herança genética ou outras razões –, não há um só caminho a seguir, uma única estrada para a luz. Pelo menos acredito que não. Emagrecer não é a única alternativa – seja para atender ao padrão de beleza vigente ou para responder ao modelo de saúde atual. A vida é um pouco mais complexa que isso. E há muitas maneiras de medir sua qualidade – assim como o significado de uma existência plena varia de uma pessoa para outra tanto quanto sua disposição genética para esta ou aquela doença.

Se um dia eu engordar muito e tiver problemas de saúde por causa do peso, possivelmente vou optar por continuar comendo minha feijoada semanal. Porque comer o que gosto é uma dimensão essencial da vida para mim – importante o suficiente para não abrir mão dela. Para outra pessoa, privar-se de seus pratos preferidos pode valer a pena em nome de uma vida mais longa ou de vestir um tamanho 38. Cada um tem suas prioridades. É bom lembrarmos que o pensamento dominante atual sobre a saúde não é apenas um produto do avanço da medicina, mas um produto da cultura. E do mercado.

A “gorda” da peça teatral não quer ser magra. Depois de um percurso sofrido na adolescência, ela gosta do que é. E nós, na plateia, também gostamos. Em determinado momento, percebemos que, se ela reduzir o estômago e fizer uma super dieta, algo essencial dela se perderá. Não é apenas uma questão de arrancar gordura do corpo. O que está em jogo é bem mais do que isso.

“Gorda” nos dá a oportunidade de enxergar mais que um acúmulo de células adiposas em outro ser humano. Ao olhar para Helena, a personagem da Fabiana Karla, nos deparamos também com o tamanho extra-large de nosso preconceito. Mesmo quando embalado em nossas melhores intenções

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sábado, 11 de janeiro de 2014

Você é o que ninguém vê

Você é os brinquedos que brincou, é os nervos a flor da pele, os segredos que guardou, você é sua praia preferida, aquele amor atordoado que viveu, a conversa séria que teve um dia com seu pai, você é o que você lembra...

Você é a saudade que sente da sua mãe, o sonho desfeito quase no altar, a infância que você recorda, a dor de não ter dado certo, de não ter falado na hora, você é aquilo que foi amputado no passado, a emoção de um trecho de livro, a cena de rua que lhe arrancou lágrimas, você é o que você chora...

Você é o abraço inesperado, a força dada para o amigo que precisa, você é o pêlo do braço que eriça, a sensibilidade que grita, o carinho que permuta, você é a palavra dita para ajudar, os gritos destrancados da garganta, os pedaços que junta, você é o orgasmo, a gargalhada, o beijo, você é o que você desnuda...

Você é a raiva de não ter alcançado, a impotência de não conseguir mudar, você é o desprezo pelo que os outros mentem, o desapontamento com o governo, o ódio que tudo isso dá, você é aquele que rema, que cansado não desiste, você é a indignação com o lixo jogado do carro, a ardência da revolta, você é o que você queima...

Você é aquilo que reivindica, o que consegue gerar através da sua verdade e da sua luta, você é os direitos que tem, os deveres que se obriga, você é a estrada por onde corre atrás, serpenteia, atalha, busca, você é o que você pleiteia...

Você não é só o que come e o que veste. Você é o que você requer, recruta, rabisca, traga, goza e lê.

Você é o que ninguém vê

Martha Medeiros

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

OS RICOS POBRES

Anos atrás escrevi sobre um apresentador de televisão que ganhava um milhão de reais por mês e que em entrevista vangloriava-se de nunca ter lido um livro na vida. Classifiquei-o imediatamente como um exemplo de pessoa pobre. Agora leio uma declaração do publicitário Washington Olivetto em que ele fala sobre isso de forma exemplar. Ele diz que há no mundo os ricos-ricos (que têm dinheiro e têm cultura); os pobres-ricos (que não têm dinheiro mas são agitadores intelectuais, possuem antenas que captam boas e novas idéias) e os ricos-pobres, que são a pior espécie: têm dinheiro mas não gastam um único tostão da sua fortuna em livrarias, shows ou galerias de arte, apenas torram em futilidades e propagam a ignorância e a grosseria.

Os ricos-ricos movimentam a economia gastando em cultura,  educação e viagens, e com  isso propagam o que conhecem e divulgam bons hábitos. Os pobres-ricos não têm saldo invejável no banco, mas são criativos, efervescentes, abertos. A riqueza desses dois grupos está na qualidade da informação que possuem, na sua curiosidade, na inteligência que cultivam e passam adiante. São esses dois grupos que fazem com que uma nação se desenvolva. Infelizmente, são os dois grupos menos representativos da sociedade brasileira.
O que temos aqui, em maior número, é um grupo que Olivetto nem mencionou, os pobres-pobres, que devido ao baixíssimo poder aquisitivo e quase inexistente acesso à cultura, infelizmente não ganham, não gastam, não aprendem e não ensinam: ficam à margem,
feito zumbis. E temos os ricos-pobres, que têm o bolso cheio e poderiam ajudar a fazer deste país um lugar que mereça ser chamado de civilizado, mas nada disso: eles só propagam atraso, só propagam arrogância, só propagam sua pobreza de espírito. Exemplos?  Vou começar por uma cena que testemunhei semana passada. Estava dirigindo quando o sinal fechou.  Parei atrás de um Audi do ano.  Carrão.  Dentro, um sujeito de terno e gravata que, cheio de si, não teve dúvida: abriu o vidro automático, amassou uma embalagem de cigarro vazia e a jogou pela janela no meio da rua, como se o asfalto fosse uma lixeira pública.  O Audi é só um disfarce que ele pôde comprar, no fundo é um pobretão que só tem a oferecer sua miséria existencial.  
Os ricos-pobres não têm verniz, não têm sensibilidade, não têm alcance para ir além do óbvio. Só têm dinheiro. Os ricos-pobres pedem no restaurante o vinho mais caro e tratam o garçom com desdém, vestem-se de Prada e sentam com as pernas abertas, viajam para Paris e não sabem quem foi Degas ou Monet, possuem tevês de plasma em todos os aposentos da casa e só assistem programas de auditório, mandam o filho pra Disney e nunca foram numa reunião da escola. E, claro, dirigem um Audi e jogam lixo pela janela. Uma esmolinha pra eles, pelo amor de Deus.  
O Brasil tem saída se deixar de ser preconceituoso com os ricosricos (que ganham dinheiro honestamente e sabem que ele serve não só para proporcionar conforto, mas também para promover o conhecimento) e se valorizar os pobres-ricos, que são aqueles inúmeros indivíduos que fazem malabarismo para sobreviver mas, por outro lado, são interessados em teatro, música, cinema, literatura, moda, esportes, gastronomia, tecnologia e, principalmente, interessados nos outros seres humanos, fazendo da sua cidade um lugar desafiante e empolgante.  É esse o luxo de que precisamos, porque luxo é ter recursos para melhorar o mundo que nos coube.  E recurso não é só money: é atitude e informação. 
25 de junho de 2006
 Martha Medeiros

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

A cozinha de Rubem Alves

Quando alguém como Rubem Alves deixa de escrever, todos nós empobrecemos um pouco. “Essa crônica é uma despedida”, escreveu ele em sua coluna de 1º de novembro passado (caderno Cotidiano, Folha de São Paulo). “A velhice é o tempo do cansaço de todas as coisas. Estou velho. Estou cansado. Já escrevi muito. E como acontece com as estrelas, há sempre a obrigação de brilhar.” Depois esclareceria que apenas deixou de escrever como um dever, todas as semanas. Ainda bem. E, como homenagem a esse grande escritor, reproduzo aqui trechos de “Cozinha” – um belo artigo seu publicado no Correio Popular (em 19 de março de 2000).
“Qual é o lugar mais importante da sua casa? Eu acho que essa é uma boa pergunta para início de uma sessão de psicanálise. Porque, quando a gente revela qual é o lugar mais importante da casa, a gente revela também o lugar preferido da alma. Nas Minas Gerais, onde nasci, o lugar mais importante era a cozinha. Não era o mais chique e nem o mais arrumado. Lugar chique e arrumado era a sala de visitas, com bibelôs, retratos ovais nas paredes, espelhos e tapetes no chão. Na sala de visitas as criança se comportavam bem, eram só sorrisos e todos usavam máscaras. Na cozinha era diferente: a gente era a gente mesmo, fogo, fome e alegria…
“A alma mineira vive de saudade. Tenho saudades do que já foi, as velhas cozinhas de Minas, com seus fogões de lenha, cascas de laranja secas, penduradas, para acender o fogo, bule de café sobre a chapa, lenha crepitando no fogo, o cheiro bom da fumaça, rostos vermelhos. Minha alma tem saudades dessas cozinhas antigas …
“Fogo de fogão de lenha é diferente de todos os demais fogos. Veja o fogo de uma vela acesa sobre uma mesa. É fogo fácil. Basta encostar um fósforo aceso no pavio da vela para que ela se acenda. Não é preciso nem arte nem ciência. Até uma criança sabe. Só precisa um cuidado: deixar fechadas as janelas para que um vento súbito não apague a chama. O fogo do fogão é outra coisa. Bachelard notou a diferença: “a vela queima só. Não precisa de auxílio. A chama solitária tem uma personalidade onírica diferente da do fogo na lareira. O homem, diante de um fogo prolixo pode ajudar a lenha a queimar, coloca uma acha suplementar no tempo devido. O homem que sabe se aquecer mantém uma atitude de Prometeu, Daí seu orgulho de atiçador perfeito… Fogo de lareira é igual ao fogo do fogão de lenha. Antigamente não havia lareiras em nossas casas. O que havia era o fogo do fogão de lenha que era, a um tempo, fogo de lareira e fogo de cozinhar…
“Já se disse que o homem surgiu quando a primeira canção foi cantada. Mas eu imagino que a primeira canção foi cantada ao redor do fogo, todos juntos se aquecendo do frio e se protegendo contra as feras. Antes da canção, o fogo. Um fogo aceso é um sacramento de comunhão solitária. Solitária porque a chama que crepita no fogão desperta sonhos que são só nossos. Mas os sonhos solitários se tornam comunhão quando se aquece e come…
“Nas casas de Minas a cozinha ficava no fim da casa. Ficava no fim não por ser menos importante mas para ser protegida da presença de intrusos. Cozinha era intimidade. E também para ficar mais próxima do outro lugar de sonhos, a horta-jardim. Pois os jardins ficavam atrás. Lá estavam os manacás, o jasmim do imperador, as jabuticabeiras, laranjeiras e hortaliças. Era fácil sair da cozinha pra colher chuchus, quiabo, abobrinhas, salsa, cebolinha, tomatinhos vermelhos, hortelã e, nas noites frias, folhas de laranjeira para fazer chá…
“Sinto-me feliz cozinhando. Não sou cozinheiro. Preparo pratos simples. Gosto de inventar. O que mais gosto de fazer são as sopas. Vaca atolada, sopa de fubá, sopa de abóbora com maracujá, sopa de berinjela, sopa de mandioquinha com manga, sopa de coentro… Você já ouviu falar em sopa de coentro? É sopa de portugueses pobres, deliciosa, com muito azeite e pão torrado. A sopa desce quente e, chegando no estômago, confirma … A culinária leva a gente bem próximo das feiticeiras. Como a Babette (“Festa de Babette”) e a Tita (“Como água para chocolate”)…”

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

A festa de Babette - Rubem Alves

Um dos meus prazeres é passear pela feira.  Vou para comprar.  Olhos compradores são olhos caçadores: vão em busca de caça, coisas específicas para o almoço e a janta. Procuram.   O que deve ser comprado está na listinha. Olhos caçadores não param sobre o que não está escrito nela.  Mas não vou só para comprar.  Alterno o olhar caçador com o olhar vagabundo.  O olhar vagabundo não procura nada.  Ele vai passeando sobre as coisas.  O olhar vagabundo tem prazer nas coisas que não vão ser compradas e não vão ser comidas.  O olhar caçador está a serviço da boca.  Olham para a boca comer.  Mas o olhar vagabundo, é ele que come. 
A gente fala: comer com os olhos. é verdade.  Os olhos vagabundos são aqueles que comem o que vêem.  E sentem prazer.  A Adélia diz que Deus a castiga de vez em quando, tirando-lhe a poesia.  Ela explica dizendo que fica sem poesia quando seus olhos, olhando para uma pedra, vêem uma pedra.  Na feira é possível ir com olhos poéticos e com olhos não poéticos.  Os olhos não poéticos vêem as coisas que serão comidas.  Olham para as cebolas e pensam em molhos.  Os olhos poéticos olham para as cebolas e pensam em outras coisas. Como o caso daquela paciente minha que, numa tarde igual a todas as outras, ao cortar uma cebola viu na cebola cortada coisas que nunca tinha visto.  A cebola cortada lhe apareceu, repentinamente, como o vitral redondo de catedral.  Pediu o meu auxílio.  Pensou que estava ficando louca.  Eu a tranqüilizei dizendo que o que ela pensava ser loucura nada mais era que um surto de poesia.  Para confirmar o meu diagnóstico lembrei-lhe o poema de Pablo Neruda "A Cebola", em que ele fala dela como "rosa d'água com escamas de cristal".  Depois de ler o poema do Neruda uma cebola nunca será a mesma coisa.  Ando assim pela feira poetizando, vendo nas coisas que estão expostas nas bancas realidades assombrosas, incompreensíveis, maravilhosas.  Pessoas há que, para terem experiências místicas, fazem longas peregrinações para lugares onde, segundo relatos de outros, algum anjo ou ser do outro mundo apareceu. Quando quero ter experiências místicas eu vou à feira. Cebolas, tomates, pimentões, uvas, caquis e bananas me assombram mais que anjos azuis e espíritos luminosos.  Entidades encantadas.  Seres de um outro mundo.  Interrompem a mesmice do meu cotidiano.

Pimentões, brilhantes, lisos, vermelhos, amarelos e verdes.  Ainda hei de decorar uma árvore de Natal com pimentões. Nabos brancos, redondos, outros obscenamente compridos.  Lembro-me de uma crônica da querida e inspirada Hilda Hilst que escandalizou os delicados: ela ia pela feira poetizando eroticamente sobre nabos e pepinos.  Escandalizou porque ela disse o que todo mundo pensa mas não tem coragem de dizer.  Roxas berinjelas, cenouras amarelas, tomates redondos e vermelhos, morangas gomosas, salsinhas repicadas a tesourinha, cebolinhas, canudos ocos, bananas compridas e amarelas, caquis redondos e carnudos (sobre eles o Heládio Brito escreveu um poema tão gostoso quanto eles mesmos), mamões, úteros grávidos por dentro, laranjas alaranjadas (um gomo de laranja é um assombro, o suco guardado em milhares de garrafinhas transparentes), cocos duros e sisudos, pêssegos, perfume de jasmim do imperador, cachos de uvas, delicadas obras de arte, morangos vermelhos, frutinhas que se comem à beira do abismo...  Minha caminhada me leva dos vegetais às carnes: lingüiças, costelas defumadas, carne de sol, galinhas, codornizes, bacalhau, peixes de todos os tipos, camarões, lagostas.  Os vegetarianos estremecem. Compreendo, porque na alma eu também sou vegetariano.  Fosse eu rei decretaria que no meu reino nenhum bicho seria morto para nosso prazer gastronômico.  Mas rei não sou.  Os bichos já foram mortos contra a minha vontade.  Nada posso fazer para trazê-los de volta à vida.  Assim, dou-lhes minha maior prova de amor: transformo-os em deleite culinário para que continuem a viver no meu corpo. 

De alguma maneira vivem em mim todas as coisas que comi.  Sobre isso sabia muito bem o genial pintor Giuseppe Arcimboldo (1527-1593), que pintava os rostos das pessoas com os legumes, frutas e animais que se encontram nas bancas da feira. (Dê-se o prazer de ver as telas de Arcimboldo. Nas livrarias, coleção Taschen, mais ou menos quinze reais).

Meus pensamentos começam a teologar.  Penso que Deus deve ter sido um artista brincalhão para inventar coisas tão incríveis para se comer.   Penso mais: que ele foi gracioso. Deu-nos as coisas incompletas, cruas.  Deixou-nos o prazer de inventar a culinária.

Comer é uma felicidade, se se tem fome. Todo mundo sabe disto. A té os ignorantes nenezinhos. Mas poucos são os que se dão conta de que felicidade maior que comer é cozinhar. Faz uns anos comecei a convidar alguns amigos para cozinharmos juntos, uma vez por semana. Eles chegavam lá pelas seis horas (acontecia na casa antiga onde hoje está o restaurante Dali). Cada noite um era o mestre cuca, escolhia o prato e dava as ordens. Os outros obedeciam alegremente. E aí começávamos a fazer as coisas comuns preliminares a cozinhar e comer: lavar, descascar, cortar — enquanto íamos ouvindo música, conversando, rindo, beliscando e bebericando. A comida ficava pronta lá pelas 11 da noite.

Ninguém tinha pressa. Não é por acaso que a palavra comer tenha sentido duplo. O prazer de comer, mesmo, não é muito demorado. Pode até ser muito rápido, como no McDonald's. O que é demorado são os prazeres preliminares, arrastados — quanto mais demora maior é a fome, maior a alegria no gozo final. Bom seria se cozinha e sala de comer fossem integradas — os arquitetos que cuidem disso — para que os que vão comer pudessem participar também dos prazeres do cozinhar. Sábios são os japoneses que descobriram um jeito de pôr a cozinha em cima da mesa onde se come, de modo que cozinhar e comer ficam sendo uma mesma coisa. Pois é precisamente isto que é o sukiyaki, que fica mais gostoso se se usa kimono de samurai.

Quem pensa que a comida só faz matar a fome está redondamente enganado. Comer é muito perigoso. Porque quem cozinha é parente próximo das bruxas e dos magos. Cozinhar é feitiçaria, alquimia. E comer é ser enfeitiçado. Sabia disso Babette, artista que conhecia os segredos de produzir alegria pela comida. Ela sabia que, depois de comer, as pessoas não permanecem as mesmas. Coisas mágicas acontecem. E desconfiavam disso os endurecidos moradores daquela aldeola, que tinham medo de comer do banquete que Babette lhes preparara. Achavam que ela era uma bruxa e que o banquete era um ritual de feitiçaria. No que eles estavam certos. Que era feitiçaria, era mesmo. Só que não do tipo que eles imaginavam. Achavam que Babette iria por suas almas a perder. Não iriam para o céu. De fato, a feitiçaria aconteceu: sopa de tartaruga, cailles au sarcophage, vinhos maravilhosos, o prazer amaciando os sentimentos e pensamentos, as durezas e rugas do corpo sendo alisadas pelo paladar, as máscaras caindo, os rostos endurecidos ficando bonitos pelo riso, in vino veritas... Está tudo no filme A Festa de Babette. Terminado o banquete, já na rua, eles se dão as mãos numa grande roda e cantam como crianças... Perceberam, de repente, que o céu não se encontra depois que se morre. Ele acontece em raros momentos de magia e encantamento, quando a máscara-armadura que cobre o nosso rosto cai e nos tornamos crianças de novo. Bom seria se a magia da Festa de Babette pudesse ser repetida...


O texto acima foi publicado no jornal "Correio Popular", Campinas(SP), com o qual o educador e escritor colabora.

Rubem Alves: sua vida e sua obra estão em "Biografias".

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Sobre a nossa relativa liberdade - Martha Medeiros



Nossa liberdade é parcial, todos sabem. Não me refiro ao país, e sim à nossa liberdade individual, minha e sua. Sempre que toco nesse assunto me vem à cabeça aquela frase que citei outras vezes: 'O máximo de liberdade que podemos almejar é escolher a prisão em que queremos viver.' É isso aí. E quais são essas prisões? Pode ser um casamento, ou, ao contrário, um compromisso com a solidão. Pode ser um emprego ou uma cidade que não conseguimos abandonar. Pode ser a maternidade. Pode ser a política. Pode ser o apego ao poder. Enfim, todas as nossas escolhas, incluindo as felizes, implicam algum confinamento, em alguma imobilidade, e não há nada de errado com isso, simplesmente assim é a vida, feita de opções que nos definem e nos enraizam.
Mas às vezes exageramos. Costumamos nos acorrentar também a algumas certezas e pensamentos como forma de dizer ao mundo quem somos. É como se redigíssemos uma constituição própria, para através dela apresentar à sociedade nossos alicerces: sou contra o voto obrigatório, sou a favor da descriminação das drogas, sou contra a pena de morte, sou a favor do controle de natalidade, sou contra a proibição do aborto, sou a favor das pesquisas com célula-tronco. Esse é apenas um exemplo de identidade que forjamos ao longo da vida. Você deve ter a sua, eu tenho a minha.
Dá uma segurança danada saber exatamente o que queremos e o que não queremos, no que cremos e no que desacreditamos. Mas onde é que está escrito, de fato, que temos que pensar sempre a mesma coisa, reagir sempre da mesma forma?
Ao trocar de opinião ou de hábitos, infringimos nossas próprias regras e passamos adiante uma imagem incômoda: a de que não somos seres confiáveis. As pessoas à nossa volta já haviam aprendido tudo sobre nós, sabiam lidar como nossos humores e nossos revezes, estava tudo dentro do programa e, de repente, ao mudarmos de idéia ou fazermos algo que nunca havíamos feito, subvertemos a ordem natural das coisas.
Quando visito algumas escolas, encontro estudantes um pouco assustados com as escolhas que farão e que lhe parecem definitivas. Tento aliviá-los: pensem, repensem, mudem quantas vezes vocês quiserem, é permitido voltar atrás. Digo isso porque eu mesma já reprimi muito meus movimentos, minhas alternâncias, numa época em que eu achava que uma pessoa séria tinha que morrer com suas escolhas. Ainda há quem considere leviana a pessoa que se questiona e se contradiz, mas já bastam as prisões necessárias - para que cultivar as desnecessárias?
Optei pelas medidas provisórias. Por isso, todos os anos eu faço uns picotes na minha constituição imaginária e jogo os pedacinhos de papel pela janela: é assim que comemoro o Dia da Independência. Da minha.
Martha Medeiros

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

depois deste interlúdio, nem sei porque

tanto tempo sem postar nada, eis que me deparo com esse texto belíssimo deste autor que costumava acompanhar sempre...


Perdoar (Artur da Távola)

"... Aprendi outro dia que perdoar é a junção de "per" com "doar".

Doar é mais do que dar.
Doar é a entrega total do outro.
O prefixo "per" que tem várias acepções,
indica movimento no sentido "de"
ou em "direção" a ou "através"
ou "para" etimologicamente falando,
portanto, perdoar, quer dizer doar ao
outro a possibilidade de que ele possa amar,
possa doar-se.
Não apenas quem perdoa que se
"doa através do outro".
Perdoar implica abrir possibilidades
de amor para quem foi perdoado,
através da doação oferecida
por quem foi agravado.
Perdoar é a única forma de facilitar
ao outro a própria salvação.

Doar é mais do que dar: é a entrega total...

Perdoar é doar o amor,
é permitir que a pessoa objeto do perdão
possa também devolver um amor que,
até então, só negara.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Facebook, o novo espelho de Narciso

As mulheres estão se tornando maioria nas redes interativas; a vaidade e a necessidade de afirmação da identidade podem explicar o interesse feminino por esse recurso tecnológico

março de 2011
Isabelle Anchieta
© phil mccarten/reuters/latinstock

As mulheres gastam mais do que o dobro do tempo dos homens no Facebook: três horas por dia, enquanto eles gastam uma hora, em média. Entrar na rede social é a primeira ação diária de muitas delas, antes mesmo de irem ao banheiro ou escovarem os dentes. Uma atividade cumprida como um ritual todos os dias – e noites. Em um estudo, 21% admitiram que se levantam durante a noite para verificar se receberam mensagens. Dependência? Cerca de 40% delas já se declaram, sim, dependentes da rede. Elas são a maioria não só no Facebook (onde representam 57% dos usuários); também têm mais contas do que os homens em 84% dos 19 principais sites de relacionamentos.

Essas são algumas revelações da pesquisa feita pelas empresas Oxygen Media e Lightspeed Research, que analisou os hábitos on-line de 1.605 adultos ao longo de 2010. Mas cabe ainda perguntar: que motivos levam as mulheres a ficar tanto tempo na frente do computador? Vaidade? Necessidade de reconhecimento? Seria esse fenômeno uma nova forma de autoafirmação? Uma maneira de desenvolver sua individualidade aliada ao reconhecimento do outro? Será essa uma nova forma de buscar sociabilização?

Mais do que procurar uma resposta fácil, cabe, antes, compreender por que a auto-representação é mais importante para as mulheres que para os homens. Historicamente as representações femininas foram fabricadas por motivações sociais diversas: míticas, religiosas, políticas, patriarcais, estéticas, sexuais e econômicas. E, há mais de vinte séculos, essa fabricação esteve sob o poder masculino. As mulheres não produziam suas próprias imagens, eram retratadas.

Em obras de arte célebres vemos inúmeras Vênus adormecidas, (como as de Giorgione, 1509; Ticiano, 1538 e Manet, 1863); Madonas castas (nas imagens religiosas das catedrais católicas como as pintadas por Giotto, no século13, e Botticelli, no 15) ou mulheres burguesas no espaço doméstico cuidando da cozinha e da educação dos filhos (como as pintadas por Rapin e Backer no século 19). Eram cenas “pedagógicas”, que ensinavam o valor da maternidade, da castidade, da beleza e da passividade.

vênus adormecida, óleo sobre tela, giorgione, 1508-10, galeria dos grandes mestres da pintura, dresden
A estética feminina foi estabelecida, durante muitos séculos, pelo olhar masculino; as obras de arte tinham cunho “pedagógico”, com a intenção de ensinar como as mulheres deveriam ser



A historiadora francesa Michelle Perrot chegou a afirmar que “a mulher é, antes de tudo, uma imagem”. Aqui sua ênfase é irônica. Refere-se a uma forma de retratar que associava os cuidados com o corpo, os adornos, as vestimentas e a beleza em geral à atividade, ou melhor, à ociosidade tipicamente feminina”, enquanto os homens deveriam se ocupar de tarefas consideradas sérias: política, economia e trabalho.


O que muda no século 21 para as mulheres que utilizam as redes sociais? Quanto à importância da imagem, nada. Ela -continua a ter papel central para a identidade social feminina, confundindo-se com ela. Por outro lado, vivemos, sim, uma revolução: pela primeira vez a mulher passa a se autorrepresentar, a produzir representações de si publicamente. Essa produção não está mais sob o domínio exclusivo dos homens, nem restrita a um grupo de mulheres como as artistas (atrizes, fotógrafas, cineastas, pintoras, escultoras etc.) ou as modelos. As mulheres comuns tornam-se protagonistas de sua vida. Chegam a dispensar a ajuda de outra pessoa para tirar a própria foto: estendem o braço e miram em sua própria direção. Algumas marcas de câmeras fotográficas desenvolveram inclusive um visor frontal para que a pessoa possa ajustar o foco caso use o equipamento para se fotografar.

A mulher “hipermoderna” reivindica algo novo: o seu protagonismo público e sua “autenticidade”. O que se soma, agora, à revolução tecnológica da sociedade capitalista. Com acesso facilitado a câmeras digitais, a telefones móveis que dispõem desse equipamento e à rede, além da existência de uma plataforma que dá suporte ao armazenamento e oferece possibilidades ao usuário para compartilhar essas imagens pela internet, a mulher passa a se autofotografar nas mais diversas ocasiões, de situações corriqueiras a viagens. Nas palavras do filósofo Gilles Lipovetsky: “O retrato do indivíduo hipermoderno não é construído sob uma visão excepcional. Ele afirma um estilo de vida cada vez mais comum, ‘com a compulsão de comunicação e conexão’, mas também como marketing em de si, cada um lutando para ganhar novos ‘amigos’ para destacar seu ‘perfil’ por meio de seus gostos, fotos e viagens. Uma espécie de autoestética, um espelho de Narciso na nova tela global”.

© wavebreakmedia ltd/shutterstock

DITADURA DA ESPONTANEIDADE

Nesse novo ambiente o artificialismo e a mistificação da imagem passam a ser “out”. Deusas etéreas cedem espaço a mulheres que querem ser vistas como “reais”: escovam os dentes, fazem caretas para a câmera, dirigem seu carro e não se importam em ser fotografadas em momentos que antes estariam à margem da esfera pública. Tanto que 42% das usuárias do Facebook admitem a publicação de fotos em que estejam embriagadas e 79% delas não veem problemas em expor fotos em que apareçam beijando outra pessoa. A regra é: quanto mais caseiro, “mais natural”; melhor. O que não significa que essa imagem seja, efetivamente, “natural”, mas que há agora um “gerenciamento da espontaneidade”.


O imperativo da representação feminina nas redes sociais é: “seja espontâneo”. Uma norma paradoxal, assim como a afirmação “seja desobediente, é uma ordem”, escreve o sociólogo Régis Debray. Ele faz uma interessante leitura do que poderíamos chamar de “ditadura da espontaneidade”. Segundo o autor, abandonamos o culto da morte, vivido pelas sociedades tradicionais e religiosas, para vivermos o “culto da vida pela vida” – uma espécie de “divinização do que é vivo” que se apoia no eterno presente e não mais em uma crença no além.

Vemos emergir mulheres que cultuam o que veem no espelho e postam, “religiosamente”, novas imagens de seu cotidiano – sem que tal culto resulte em algum tipo de censura externa ou de autocensura moral. Em outro contexto, como durante o período em que a religião católica era dominante, esse “culto de si” e ao corpo seria considerado um dos sete pecados: a vaidade. Esse imaginário, aliás, é muito bem representado por um quadro do séc. 15, de Hieronymus Bosch, no qual o demônio segura um espelho para que uma jovem se penteie.

Hoje o novo espelho global não é marcado pela vigilância moral. Ao contrário, há um contínuo incentivo da cultura para que as mulheres “se valorizem”, busquem sua singularidade e não se baseiem mais em modelos inalcançáveis (como as top models e outras famosas). E para que percebam em si mesmas uma possibilidade legítima e singular de ser no mundo.

A própria familiaridade e aproximação da mulher com o universo da produção de auto-representações pode levá-la a questioná-las. As mulheres já estão, como escreve Lipovetsky em seu livro A tela global, “cultivadas” pela mídia. Educadas em sua gramática, sabem que o photoshop, a produção e a edição das imagens criam uma mulher irreal e passam a ver essas representações “entre aspas”, distanciando-se criticamente delas. Elas aprendem com recursos autoexplicativos a modelar sua iconografia, a alterá-la, brincar com ela ou melhorá-la (possibilidades, antes, restritas aos profissionais).

Mas a consagração do “culto de si” não significou um isolamento da mulher. Os álbuns publicados nas redes sociais conciliam, contra todas as expectativas, o individualismo e as trocas. Um se alimenta do outro. Há um ciclo: exponho minha individualidade, acompanho a do outro e ele a minha e, assim, somos incentivados a produzir e expor, cada vez mais, as nossas imagens. Trata-se do nascimento de uma “identidade coletiva”, em que a individualidade não elimina a interação, mas é seu motor. Nesse sentido, a identidade coletiva não é produto apenas de uma adesão grupal e sim uma forma de negociação de posições subjetivas – esse é o paradoxo identitário a ser considerado.

Fotos pessoais e “amigos” virtuais (ou não) ditam o ritmo desse espaço interativo. Quanto mais caseiro, mais cotidiano, mais espontâneo, maior o número de relações entre as pessoas, que passam a valorizar a autenticidade e a vida de quem é “próximo”, “real”. Há, na base desse fenômeno, uma democratização dos desejos de expressão individual na medida em que as mulheres buscam conquistar espaços de autonomia pessoal – que traduzem a necessidade de escapar à simples condição de consumidoras daquilo que outros produzem. Elas querem colocar seu rosto no mundo. Aparecer ou não na “tela global” passa a ser uma questão de existência. Por essa razão, ter visibilidade e oferecer sua identidade publicamente é conferir importância à própria existência. O que é, também, uma forma de poder. Nesse ponto a mídia – como campo de visibilidade – passa a ter papel central para entendermos a luta simbólica pelo reconhecimento.

No entanto, essa “democratização” da auto-representação feminina não deve ser tomada como sinônimo do fim da competição estética e ética entre as mulheres. O que tudo indica, o que presenciamos não é a instauração de uma igualdade, mas a ampliação do número de mulheres na disputa por visibilidade e poder. Amplia-se, assim, a arena para buscar um poder que não está dado de antemão, mas que deve ser conquistado e manejado pela apresentação e representação de suas singularidades, de suas diferenças. Um agir que se manifesta na criação, no controle e no poder simbólico de sua própria imagem no espaço público, que só se realiza com o reconhecimento do outro nas interações sociais, associativas e na ampliação dos círculos de reconhecimento que estão dentro e fora do espaço de produção da imagem.

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