quinta-feira, 28 de outubro de 2010

OLHA O CÉU...


OLHA O CÉU CRIATURA,
NA NOITE CLARA E PURA,
FITA A LUA, OS SÓIS, ESTRELAS E PENSA,
NOS PLANETAS E COMETAS, TANTOS MUNDOS,
GIRANDO FIRMEMENTE,
NOS ESPAÇOS PROFUNDOS,
A EMOÇÃO TE INVADE A MENTE,
CRIATURA...

MUNDOS,
QUE PARECEM FIXOS, BELOS E ILUMINADOS
NA CELESTE AMPLIDÃO,
BEM DESTACADOS
MAS QUAL A FORÇA PRODIGIOSA,
FECUNDA E GENEROSA
QUE OS MANTÊM ASSIM NESTE MOVER SEM FIM
REFLETE CRIATURA
COM TERNURA
MENTALIZA DEUS
DEUS QUE TODO AMOR
AMOR QUE VENCE A DOR
QUE UNE FIRMEMENTE OS FILHOS SEUS

DEUS EXISTE!

CRIATURA GUARDA ESTA CERTEZA
NO INTIMO COM FIRMEZA
E REPETE COMOVIDAMENTE

DEUS... DEUS EXISTE,
DEUS....
 (letra de  Alexandre pela psicografia de D. Maria Isabel)

terça-feira, 26 de outubro de 2010

das coisas da vida


           Tenho consciência das benesses que recebo da vida, mas também sempre trabalhei muito por tudo que me cerca, desde os 10/11 anos aprendendo as responsabilidades de uma casa, meu pai trabalhava, minha mãe passou por muitos anos com um sério problema de saúde, por fases que fui aprendendo a cuidar de mim, da casa, do meu irmão menor, até dela...
sei que a vida não é nada justa, porque muitas outras pessoas ralam pacas e não chegam aonde eu cheguei, dos confortos que hoje  posso usufruir, e que nunca sonhei que seria possível, sei também que pessoas que nada fizeram tem muito mais do que isso que  considero até luxuoso e/ou supérfluo.  
          No nosso país colonizado, alguns códigos sociais, diria até burgueses, estão muito distante dos ideias da verdadeira igualdade social que eu acredito.  O serviço doméstico ainda é um atributo eminentemente feminino, e vejo amigas e outras pessoas das minhas relações tendo ajudantes do serviços domésticos sempre empregando o trabalho feminino, gerando essa submissão e sobrecarga da má-remuneração em cascata... 
        Nas praças de alimentação dos shoppings os consumidores não se acostumam a retirar suas bandejas, um reflexo provável do que vivem em sua vida privada, sempre vai ter alguém pra recolher seus restos, a toalha molhada no banheiro, a cama desfeita... alguém que se responsabilize por suas tarefas de auto-gestão.  Se queremos ser realmente um país de igualitários, até nesses micro aspectos da vida privada, teremos que mudar essa mentalidade... 
         E acima de tudo, aquilo que torna qualquer relação especial, é o que mais falta sinto, um carinho, um alento ao coração... sou guerreira, aprendi a não depender de nada nem de ninguém... por isso eu as vezes penso ou ouso sonhar.. será que a vida não tinha que dar um pouquinho, mas só um pouquinho, do fácil, do que não envolvesse tanto esforço e desgaste? algo que viesse assim... simplesmente... pra mim, e que eu pudesse descansar por alguns momentos, sabendo que seria cuidada, pra variar? isso, para mim, é um sonho
bom, ou quem sabe?, um delírio...

sábado, 16 de outubro de 2010

Morre em São Paulo o psiquiatra José Angelo Gaiarsa

Morreu neste sábado, em SP, o psiquiatra José Angelo Gaiarsa

tive a honra e a grande felicidade de ter sido sua aluna... foi uma das experiências que marcaram para sempre meu aprendizado para além do aspecto profissional, mas para toda uma nova perspectiva da minha vida!


16/10/2010 - 14h17
JAMES CIMINO
DE SÃO PAULO
Morreu neste sábado aos 90 anos o médico psiquiatra José Angelo Gaiarsa. Segundo sua neta Laura, Gaiarsa morreu em São Paulo por volta das 5h enquanto dormia. A família ainda não sabe a causa da morte.  O corpo será enterrado no cemitério da Assunção, em Santo André, onde o psiquiatra nasceu. José Gaiarsa era divorciado e deixa três filhos e oito netos.
Nascido em 19 de agosto de 1920, Gaiarsa sempre será lembrado como um iconoclasta, conforme disse seu filho Flávio à Folha.
Zeca, como era conhecido pelos amigos, falava muito contra a estrutura familiar clássica, segundo ele a maior geradora de neuroses nos indivíduos, e apoiava abertamente, em redes de rádio e TV, a liberdade feminina já na década de 1960.
Clinicou por mais de 50 anos, publicou 30 livros e por dez anos teve um quadro de televisão em que esclarecia dúvidas dos telespectadores.
Vindo de Santo André, de uma família de seis irmãos e irmãs, entrou na Faculdade de Medicina da USP em primeiro lugar, posição que manteve por toda a graduação.
Casou-se com Maria Luiza Martins Gaiarsa, cirurgiã e colega de turma, com quem teve quatro filhos homens: Flávio, Marcos (já morto), Paulo e Dácio. Separou-se em uma época em que o rompimento das relações matrimoniais era controverso.
Foi introdutor de Carl Gustave Jung e William Reich no Brasil, psicanalistas ideólogos da revolução sexual.
Seu primeiro livro, "A Juventude Diante do Sexo", veio a partir de um artigo de capa para a revista "Realidade" sobre o comportamento sexual da juventude que passava por profundas modificações.
Seu último livro publicado foi o "Meio século de Psicoterapia". Atualmente, estava revisando para reedição a obra "Respiração, Angústia e Renascimento".
Seu último prêmio foi do International Academy of Child Brain Development,do Institute for the Achievent of Human Potential, decorrente de um trabalho recém concluído sobre o desenvolvimento físico, cerebral e emocional das crianças. 

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/815615-morre-em-sao-paulo-o-psiquiatra-jose-angelo-gaiarsa.shtml

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

o e-mail da minha amiga


 

o fato de postar aqui, não quer dizer que estou concordando em tudo com minha amiga, mas adoro e admiro essa paixão de entender o mundo.
É uma das leituras possíveis, interessante é termos várias perspectivas e aprendermos a tomar nossas próprias decisões e posturas.
citando S. :  "Também procuro fazer sinceramente a minha parte na vida. Serra não me convence e Dilma ainda não... Minha escolha não foi de agora, vem de algum tempo e acho que a "onda verde" pode ser reacionária sim de um determinada ponto de vista, que pode estar certa:  eu não compartilho. E como todo movimento político essa onda serve aos dois lados..."

Para mim, isso é democracia.

from B.:
Meninas (também mando esta msg em outro mail para outras pessoas)

Estou extremamente preocupada com uma coisa. Faz parte de mim, não adianta... Passado o domingo das eleições, após tanta sacanagem da mídia, pensei, chega! Não quero saber de mais nada até 31 de outubro, ficarei esperando alienadamente (como se isso fosse possível pra mim), e torcendo para ver minha candidata (Dilma) como vencedora. Aquela coisa de ter que aguentar a enxurrada de manipulações e etc. É insuportável. No entanto, não dá pra dormir sossegada, impossível, pois há muito mais coisa entre o céu e a terra (literalmente) do que possamos imaginar. E é esta a razão que me faz escrever agora.
Acabada a "onda verde" e após a ressaca eleitoral, começam a aparecer de onde vieram os tantos votos da candidata Marina. A questão que levanto aqui não tem nada a ver com os votantes, digamos assim, não consigo pensar numa palavra, "originais", assumidos, da Marina. Cada um tem direito ao seu voto e vcs que me conhecem sabem que eu nem precisaria estar aqui explicando isso.
Marina Silva é uma mulher inteligente e política, sabe muito bem que o PSDB se apropriou de sua imagem e a mídia fez a festa criando uma suposta onda verde. Eles sabiam de antemão que Serra tem uma rejeição enorme (todo mundo que tem memória sabe o que foi o governo FHC e o que representou o psdb no poder. Eu particularmente fico arrepiada só de lembrar). A jogada era trazer votos pra Marina e tirar da Dilma, levando Serra ao segundo turno.
Atrás da "onda verde" criada para atrair votos, incluindo uns votos de "protesto"( que eu ainda me pergunto de que??) também estava uma onda muito maior, reacionária e conservadora, também induzida pelos tucanos, infiltrada nas igrejas, principalmente as evangélicas pentecostais.
Antes que me julguem em surto paranóide :-) digo que muita gente séria saiu a cata de saber de onde vieram os tantos votos da candidata Marina. Não que ela não os pudesse ter, mas em tão pouco tempo, o que teria acontecido? São fenômenos que precisam ser explicados, até para entender o perfil dos eleitores. E o que se vê hoje em massa na Internet? Nos blogs, no twitter, no you tube, etc... Pastores pedindo voto contra Dilma, em favor de Marina, dizendo ser a Dilma contra a vida, a favor do aborto. Satanizada. Que interessante ouvir esse termo hoje, século 21. Qualquer semelhança com a inquisição não é mera coincidência. Ainda podemos ser sim, muito conservadores e reacionários. E isso também veio da ala conservadora dos católicos. Poderia colocar aqui dezenas de links, desde blog de pastores à posições até de algumas regionais da cnbb em favor da "vida".
Tudo isso começou após um debate na Folha onde se discutiu a questão do aborto. A partir daí, Serra já estava cantando hino no púlpito de uma igreja evangélica, mostrando ele em família e sendo distribuídos panfletos que afirmavam uma plataforma "satanizada" sobre Dilma.
Paranóia??? The truth is out there!!!! Não é à toa que eu adorava The X FIles!!!
Agora, além da minha preocupação da possibilidade em ver o país retroceder com o psdb, ainda tenho uma preocupação ainda maior: para onde esse pêndulo vai apontar??? Já imaginaram a força do conservadorismo? Os católicos são mais independentes. Os que são conservadores são e pronto. O restante não acata se não quiser fazê-lo. Mas os pentecostais, nossa! São cordeiros mesmo! Tenho ouvido esses dias histórias de mudança de voto por pedido do pastor, etc. Porque o pastor falou que Dilma é satanizada, terrorista, mata criancinha. Isso é assustador!!!
É, os votos da Marina que levaram ao segundo turno não foram fruto de uma onda verde, mas de uma onda requintada de conservadorismo, misturada com manipulação política, troca de favores, etc para tentar eleger o candidato tucano.
E agora Marina? Perguntava um artigo muito bom que li. Com seu histórico e seu passado, não era para ela estar em cima do muro agora. Ao contrário. Marina teria praticamente obrigação de apoiar Dilma. Desfazer o uso que fazem de sua figura e respeitar sua trajetória de postura política social nascida no PT. É pensar qual direção melhor se aproxima de seu passado e dos seus interesses sociais.
E agora, nós também! De que maneira vamos segurar esse pêndulo? Para onde vamos soprá-lo? Com o que vamos compactuar? Onde temos mais chances de sermos progressistas e mantermos nossos ideais abertos a construção de uma nação livre?
Não foi à toa que estudei psicologia, não foi à toa que me dediquei a análise institucional, não foi à toa que me sensibilizei com tantos professores torturados, que me sensibilizo com o sofrimento fabricado pela produção social de subjetividades hegemônicas no meu trabalho.
Não vou permitir que isso se propague (pelo menos vou tentar). Não vou permitir que minha luta tenha sido em vão.
O meu pêndulo vai se dirigir para a liberdade, para a vida. Sim. Vida! Hoje, ainda mais do que ontem, voto na Dilma!
bjs B.


DOIS PESOS…

Maria Rita Kehl
no jornal O Estado de S.Paulo

Este jornal teve uma atitude que considero digna: explicitou aos leitores que apoia o candidato Serra na presente eleição. Fica assim mais honesta a discussão que se faz em suas páginas. O debate eleitoral que nos conduzirá às urnas amanhã está acirrado. Eleitores se declaram exaustos e desiludidos com o vale-tudo que marcou a disputa pela Presidência da República. As campanhas, transformadas em espetáculo televisivo, não convencem mais ninguém. Apesar disso, alguma coisa importante está em jogo este ano. Parece até que temos luta de classes no Brasil: esta que muitos acreditam ter sido soterrada pelos últimos tijolos do Muro de Berlim. Na TV a briga é maquiada, mas na internet o jogo é duro.


Se o povão das chamadas classes D e E – os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil – tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola.

Uma dessas correntes chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por “uma prima” do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família. Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente. Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo. R$ 200 é o valor máximo a que chega a soma de todos os benefícios do governo para quem tem mais de três filhos, com a condição de mantê-los na escola.

Outra denúncia indignada que corre pela internet é a de que na cidade do interior do Piauí onde vivem os parentes da empregada de algum paulistano, todos os moradores vivem do dinheiro dos programas do governo. Se for verdade, é estarrecedor imaginar do que viviam antes disso. Passava-se fome, na certa, como no assustador Garapa, filme de José Padilha. Passava-se fome todos os dias. Continuam pobres as famílias abaixo da classe C que hoje recebem a bolsa, somada ao dinheirinho de alguma aposentadoria. Só que agora comem. Alguns já conseguem até produzir e vender para outros que também começaram a comprar o que comer. O economista Paul Singer informa que, nas cidades pequenas, essa pouca entrada de dinheiro tem um efeito surpreendente sobre a economia local. A Bolsa-Família, acreditem se quiserem, proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos. O voto da turma da “esmolinha” é político e revela consciência de classe recém-adquirida.

O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contrário do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um salário mínimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consciência de seus direitos, hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições. Vale mais tentar a vida a partir da Bolsa-Família, que apesar de modesta, reduziu de 12% para 4,8% a faixa de população em estado de pobreza extrema. Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200? Quando o Estado começa a garantir alguns direitos mínimos à população, esta se politiza e passa a exigir que eles sejam cumpridos. Um amigo chamou esse efeito de “acumulação primitiva de democracia”.

Mas parece que o voto dessa gente ainda desperta o argumento de que os brasileiros, como na inesquecível observação de Pelé, não estão preparados para votar. Nem todos, é claro. Depois do segundo turno de 2006, o sociólogo Hélio Jaguaribe escreveu que os 60% de brasileiros que votaram em Lula teriam levado em conta apenas seus próprios interesses, enquanto os outros 40% de supostos eleitores instruídos pensavam nos interesses do País. Jaguaribe só não explicou como foi possível que o Brasil, dirigido pela elite instruída que se preocupava com os interesses de todos, tenha chegado ao terceiro milênio contando com 60% de sua população tão inculta a ponto de seu voto ser desqualificado como pouco republicano.

Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos.
 
 
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20101002/not_imp618576,0.php

QUESTIONAMENTOS

(...parte de uma conversa por e-mail com várias amigas/irmãs)
mas ainda tenho umas questões mal resolvidas com o PT atual, mesmo execrando com todo meu ser qualquer coisa relacionada as propostas políticas que venham do PFL (piadinha histórica)
o PT que eu amava tinha Frei Beto, Florestan Fernades, o próprio Plínio....
e não tinha Erenice, José Dirceu, Genoíno, coisas que a gente foi vendo acontecer ao longo desses oito anos...
espero poder ter outras interlocuções como essa que vc nos proporcionou, com amigos fraternos que confio e respeito a opinião, para pesar meu voto no dia das Bruxas, rsrs...
Fiquei feliz, pq votei no Chico Alencar e no Freixo, que deram uma lição pros políticos que usam a máquina perversa e ainda tem na militância consciente seu trabalho nas ruas... e tiveram tb votações históricas. 
Ao optar trabalhar na clínica, sempre tentei nortear minha prática para que tal não fosse um processo elitista, atendendo na medida do possível qualquer pessoa que batesse na minha porta, não associando preço de consulta com o ato terapêutico, por exemplo.
Minha luta foi numa outra instância, fortalecendo sempre a individuação, a cidadania, buscando tb um espaço onde a escuta de alguém que tivesse "oprimido" conseguisse desabrochar...
Sempre trabalhando tb em instituições sem fins lucrativos, trabalhos voluntários... não me fechar numa redoma...
como disse X, não é a toa que somos sisters...
como é bacana estarmos trocando isso aqui... mesmo sem termos todas as respostas...
bjs no seu lindo coração, força pra seu bom combate,
que a Força esteja com vc
servindo de inspiração e de certa forma guia pra gente,
Muss

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

A ética da alegria e o fim da tirania

Regina Schöpke

Quando o filósofo Clément Rosset afirma, a respeito de Nietzsche, que “a alegria é a força maior”, ele deseja mostrar que a alegria não é um sentimento dentre outros, mas a força motriz que nos impele à vida, uma espécie de grande “sim” à existência em todas as suas facetas. Afinal, este sentimento envolve todos os nossos sentidos e nos fortalece de tal maneira que, uma vez alegres, nada mais parece pesar em nós.

É que a alegria, quando vivida em profundidade, não deixa espaço para mais nada — razão pela qual Leibniz a definia como um sentimento totalizante que, estando presente, domina todos os demais. Totalizante ou apenas dominante, a alegria, para Nietzsche, é a força que nos coloca em movimento, é aquilo que nos faz agir, é o que nos faz querer viver.

É claro que nem todos entendem a alegria deste modo. Para muitos, ela é apenas um ímpeto passageiro, uma sensação fugaz de contentamento e júbilo, algo que apenas contrasta com a dor, geralmente considerada mais permanente e profunda.

Porém, para filósofos como Nietzsche e, sobretudo, Espinosa, ela é um sentimento vital, afirmativo, que se confunde com a própria potência de existir.

Neste caso, ela pode ser definida como uma disposição favorável com relação à vida. Eis porque o homem alegre é sempre alegre, mesmo quando está triste (ao contrário do homem angustiado, que sempre é angustiado mesmo quando tem motivos para estar alegre).

Em poucas palavras, é preciso que se entenda que sem alegrias o corpo vai adoecendo e a paralisia das ações torna-se inexorável.

É a ocasião certa para a angústia se instalar e afunilar nossa percepção da vida. Porque é isto exatamente a angústia: uma sensação ou sentimento de vazio, de incompletude, de insignificância, uma espécie de afunilamento, de perda de perspectiva, de indisposição com a vida. É quando o niilismo se instala no âmago do ser e a própria vida é vista como nada.

Espinosa usa o conceito de “conatus” para definir esta força de existir inerente a cada ser (que aumenta e diminui ao longo da existência em função dos encontros alegres ou tristes que fazemos). É por isso que Nietzsche afirma que os pessimistas e niilistas, ao julgarem a vida má e pesada, nada mais fazem do que revelar sua própria impotência e fraqueza diante dela.

Sem dúvida, é de grande valor para estas reflexões o conhecimento genealógico do conceito de alegria (que ora foi pensado como um movimento da alma, ora como paixão, afecção, pulsão, emoção fundamental ou simples prazer da mente). E, neste caso, o livro “A história da alegria — Da Bíblia ao Romantismo tardio”, de Adam Potkay (Editora Globo), é uma boa fonte de informação. Potkay, que deixa claro que sua intenção não é buscar uma definição para a alegria em si mesma, mas, sim, mostrar o aspecto cultural de um sentimento que é também um conceito e uma palavra, parte do pressuposto de que os cristãos protestantes, ao contrário dos católicos, teriam posto a alegria no centro de suas preocupações (provavelmente por se negarem a levar uma existência terrena só de privações e sofrimentos).

Potkay, no entanto, não se priva de dar sua própria interpretação da alegria e se alia àqueles que a vêem como um sentimento fugaz, que emerge como uma pausa na dor da existência.

Trata-se, para ele, de uma sensação passageira que inebria os sentidos e a mente.

Definição um tanto schopenhaueriana, sem dúvida: afinal, a alegria é vista mais como exceção do que regra numa vida pensada como dor e sofrimento.

Mas isto não é tudo. Potkay define a alegria como um “deleite da mente”, o que significa dizer que ele tende a racionalizá-la e, assim, sentir-se alegre é, sobretudo, saber-se alegre. De fato a leitura do livro nos mostra como o conceito vai assumindo variadas formas e nuances (na poesia, na literatura, na filosofia ou na religião).

É aqui que saímos do universo histórico de Potkay e mergulhamos de novo nas reflexões filosóficas de Espinosa e Nietzsche.

Afinal, é preciso compreender a alegria do ponto de vista de sua ontologia, de sua realidade, é preciso entendê-la como uma forma de resistência, de enfrentamento do mundo e de suas falsas promessas de felicidade.

É aí que a leitura da “Ética” de Espinosa torna-se essencial para nos fazer entender como a busca dos bons encontros é fundamental para nos tornar mais fortes e livres. Na verdade, a lógica da vida (ou da potência) é simples: a alegria aumenta nosso poder de existir, aumenta o nosso “conatus”, enquanto a tristeza diminui nossas forças, nosso poder de ação.

Não existe uma regra para o que nos fortalece: pode ser uma bela música, um grande amor, uma amizade profunda, a filosofia, um afeto animal e até mesmo os prazeres mais simples do corpo, que foi sempre tão violentamente esmagado por uma moral hipócrita que condena as alegrias físicas em nome das alegrias “metafísicas”. Seja como for, é preciso buscar o que nos potencializa, porque é a fraqueza que alimenta os tiranos, diz Espinosa.

Eis que estamos diante de uma questão política e existencial das mais profundas: a tirania domina pela força, e também pelas ideias, os que estão fracos e impossibilitados de lutar.

As religiões, por exemplo, dominam os homens infundindolhes o medo da morte e dos castigos eternos.

Em suma, falar em uma ética da alegria é falar em uma ética da potência, uma ética que busca produzir homens mais fortes e plenos para a vida, ou seja, homens verdadeiramente livres.


REGINA SCHÖPKE é filósofa, historiadora e autora dos livros “Por uma filosofia da diferença” e “Matéria em movimento”. Atualmente, dedicase ao estudo da alegria, definida, antes de tudo, como potência de vida e de enfrentamento do mundo
 
 

PROSA&VERSO - 04/09/2010

Altos e baixos  

Numa época de oscilações entre a euforia e a depressão, que sentido ainda pode ser tirado das ideias de tristeza e felicidade?

sábado, 25 de setembro de 2010

A melancolia epidêmica


Orlando Coser


O século XX assistiu à emergência de uma nova cultura no enfrentamento dos males da alma. Em parte ela se deve à criação dos medicamentos psicotrópicos, cujo primeiro representante entrou no mercado em 1952. Estava aberta a temporada dos psicofármacos, que modificariam completamente o tratamento dos distúrbios da alma. Aparecia uma nova classificação química, a dos antipsicóticos, usados inicialmente no tratamento da esquizofrenia ou estados de intensa agitação psicomotora.
Este primeiro medicamento e seus sucessores teriam, desde então, revolucionado a psiquiatria.

Esta, entretanto, é apenas a narrativa sancionada pela indústria e pelo discurso acadêmico dominante, e não a verdade última deste campo. Nesse novo universo da psicofarmacologia, a indústria se esmerou na produção de metáforas — os discursos científicos e mercadológicos criados especificamente para falar dos efeitos dos novos medicamentos e suas indicações.

Uma vez que os efeitos obtidos com os novos medicamentos inauguravam novidades para as quais não existiam nomes, era preciso inventar formas de designá-los. Da junção entre substância e metáfora, nascem os numerosos estabilizadores, tranquilizantes, antidepressivos, neuromoduladores, antagonistas da serotonina… A l é m d e sintetizar novas substâncias, testá-las, e p r o d u z i r medicament o s , t ê m s e que produzir metáforas conceituais, argumentos e hipóteses científicas para dar aval às novas drogas.

Assim, o primeiro antipsicótico foi chamado de “estabilizador neurovegetativo”; o primeiro “antidepressivo”, de “energizante psíquico”. Os aparentes exageros ficam quase camuflados no discurso intensivo dos departamentos de marketing da indústria. Um bom exemplo é a “descoberta”, recente, de uma doença que se convencionou chamar de fobia social.

“Imagine ser alérgico a gente”, provoca a campanha de divulgação desta inovação diagnóstica, feita sob medida para um medicamento.

Suas vendas saltaram de 2,1 para 3,31 bilhões de dólares, em um ano. O departamento de marketing do laboratório não se preocupou em camuflar intenções, na apresentação do novo produto: “Todo comerciante tem o sonho de encontrar um mercado não identificado para desenvolvê-lo. Isso é o que nós fomos capazes de fazer com o transtorno de ansiedade social”. A luminosidade desta afirmação revela o tumultuado espectro do campo da saúde mental, agora totalmente sob o domínio da indústria ou, melhor dizendo, do capital industrial que lhe pede remuneração imediata.

O principal efeito desta estratégia mercadológica é o menosprezo à clínica médica e psicológica.

Parte do saber, da ciência, da tradição médica, é substituída pelo convencimento através de ampla ação de marketing, destinada não só a profissionais de saúde como, a partir de comunicação direta, a leigos.

A indústria assume a tarefa de instruir médicos e pacientes no desempenho do papel que lhe interessa. Para bem vender os produtos que fabrica, o marketing fomenta a sintomatização do viver. Os pacientes são instruídos a produzir sintomas e os médicos, a prescrever. Somos instruídos sobre determinados códigos comportamentais, e com eles aprendemos a diagnosticar, traduzir e entender certas queixas. Tudo embalado com argumentos científicos.

Estas instruções criam formas de percepção, julgamento e ação sobre determinadas questões, criam-se hábitos de consumo e comportamento.

Dos anúncios de medicamentos dos anos 1950 prometendo “reduzir os primitivos ímpetos de luta e fuga”, ou os sugeridos para amenizar nas crianças seu “ânimo contestador”, vemos nos últimos anos um crescimento exponencial desse marketing, em que as pessoas não ficam mais apenas tristes, desanimadas, fatigadas, angustiadas, aflitas. Agora elas são classificadas com diagnósticos graves de depressão, pânico, TOC. E o número de pessoas atendidas como depressivas não para de crescer. Os psicofármacos alteram os conceitos que fazemos de saúde, doença, sofrimento, bem estar, e a maneira como representamos nossos estados afetivos.

Dificuldades cotidianas viram sintomas patológicos.

A depressão, doença de importância indiscutível, transformouse numa febre que atinge quase 25% da população, quando, em 1960, era diagnosticada para 1% dos doentes. Mais uma vez, essa expansão não é determinada por um apuro no diagnóstico, e sim pela prescrição generalizada de medicamentos.

Os portadores reais dessa doença se misturam aos milhões que são de alguma forma vítimas do marketing farmacêutico.

Um dos argumentos já absorvidos por grande parte de profissionais e leigos afirma que a depressão seria o resultado de um desequilíbrio neuroquímico.

Embora questionável, o dogma é muito usado porque funciona como um modelo conceitual que instrumentaliza a pesquisa e o discurso científico da psiquiatria. Atualmente, tudo se passa como se um deprimido fosse quem padecesse de falta de serotonina. E, consequentemente, carecesse de um medicamento destinado a suprila. Todos os antidepressivos anunciam corrigir o desequilíbrio da balança neuro-hormonal, resultando que a venda destes medicamentos alcançasse cifras bilionárias.

Para ampliar a expansão do uso dos psicofármacos, o século XXI assiste a uma nova metáfora, a categoria “transtornos comportamentais”, genérica o suficiente para não ter limites, porém específica o bastante para indicar um problema a ser resolvido. Ideal para pediatras e clínicos gerais, induzidos a esta prescrição não padronizada (off-label). Idosos e crianças são o segmento da vez. Pesquisas americanas e inglesas alertam, entretanto, que se prescrevem antipsicóticos para crianças sem qualquer receio de efeitos colaterais, mesmo que tardios. Pesquisa documentam, entre 1995 e 2006, o crescimento do número de consultas médicas para clientes entre 2 e 18 anos, em que um psicotrópico da classe dos antipsicóticos fosse indicado, detectando um salto nestas prescrições de 8,6 por 1000 consultas em 1995 para 39,4 por mil em 2002. Com o agravante de 67% das indicações terem sido feitas por médicos não especializados em psiquiatria ou neurologia.


ORLANDO COSER é psiquiatra e psicanalista, doutor pela PUC-SP, e autor de “As metáforas farmacoquímicas com que vivemos” (Garamond)






PROSA&VERSO - 04/09/2010

Altos e baixos  

Numa época de oscilações entre a euforia e a depressão, que sentido ainda pode ser tirado das ideias de tristeza e felicidade?

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Como Surgiu a Oração de São Francisco

Olha que nem sou católica, mas é que amo essa prece, e como tudo que está escrito aqui, faz parte desse quebra-cabeça que faz parte de mim, então aqui vai mais um pedacinho do que sou ...
qd fiz a Faculdade de História, uma das coisas que mais quis estudar durante as cadeiras da Idade Média foi a bio do Francisco, que nasceu em Assis... e vcs sabem de uma coisa super interessante? fiquei bem frustrada, pq fui conhecendo um monte de coisas sobre ele, uma delas é que ele pessoalmente nunca escreveu praticamente nada, que nem Platão, que tinha Sócrates como discípulo (ou vice-versa, eu sempre me confundo,rsrs...) e foi um dos seguidores do Francisco que compilou grande parte de tudo que ele falava ou fazia, inclusive as belas preces que ele proferia... comprei um livro de um dos mais proeminentes historiadores franceses, Le Goff, expert em História Medieval, e em nenhum trecho tem a famosa prece que tanto amamos... e minha frustração foi imensa, só crescia...

e desandei a pesquisar mais.... sem querer parecer carola na faculdade, fui correr atrás de bibliografia cada vez mais, até que me deparei com um livro do Boff, só sobre essa oração, contando que ela nunca, de verdade, foi proferida por ele, mas encarnava de forma tão perfeita os ideais franciscanos que foi atribuída imediatamente a esse grande espírito... para mim, ela é perfeita, precisa e preciosa... mais uma razão pra eu acreditar que há mais coisas entre a terra o céu que possa crer nossa vã filosofia...
o certo é que já está provado por pesquisas, que a prece, qualquer uma, muda nossos padrões mentais, fortalece nossa alma e faz um bem danado...


Não raro, as grandes coisas têm origem humilde. O Amazonas, o maior rio da Terra em volume de água, nasce de uma insignificante fonte entre duas montanhas de mais de cinco mil metros de altura ao sul de Cuzco, no Peru. O São Francisco, o rio da unidade nacional, se origina de uma pequeníssima fonte no alto da Serra da Canastra em Minas Gerais. Lentamente as águas vão se somando a outras águas até formarem rios caudalosos que deságuam no vasto mar.
Algo semelhante ocorreu com a Oração pela Paz. Nasceu anônima, na periferia, sem que ninguém lhe desse importância especial. Aos poucos, seu conteúdo belo e inspirador foi acalorando corações e acendendo mentes. Como um raio de luz que segue seu curso pelos espaços sem fim, a Oração pela paz foi se difundindo até ganhar o mundo inteiro.
Nela tudo é verdadeiro e convincente. É tão simples que pode ser compreendida por todos. É tão recitada por crianças budistas no Japão, por monges taoístas no Tibete, por mulçumanos no Cairo, por babalorixás em Angola, por papas cristãos em Roma, pelos fiéis das comunidades de base na América Latina e até por operários em manifestações e greves. Todos sentem que esta oração traduz, de forma extremamente inspirada, desejos ancestrais da humanidade. Ela vem ao encontro de demandas por paz e tolerância, imprescindíveis para a perigosa travessia que fazemos atualmente do local ao global, do nacional ao planetário, das muitas sociedades a uma única sociedade mundial.
Quando aparecem orações com tal nível de inspiração e de universalidade, é sinal de que têm como autor o próprio Espírito Santo. Ele costuma atuar de forma anônima na suavidade dos corações abertos ao divino. Assim deve ter atuado no autor desconhecido que, cheio de ardor espiritual, deu forma à oração posteriormente atribuída a São Francisco de Assis.
A Oração pela Paz apareceu pela primeira vez em 1913 numa pequena revista local da Normandia, na França. Vinha sem referência de autor, transcrita de uma outra revista tão insignificante, que nem deixou sinal da história, pois não foi encontrada em nenhum arquivo da França.

Da periferia para o centro

A Oração de São Francisco se universalizou a partir de sua publicação no Ossevatore Romano, órgão oficioso do Vaticano, no dia 20 de janeiro de 1916. No dia 28 de janeiro do mesmo ano foi publicada no conhecido diário católico francês La Croix. Era o tempo da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e por todas as partes faziam-se orações pela paz.

Como a Oração pela Paz ou a Oração de São Francisco chegou ao Vaticano para daí começar sua difusão pelo mundo?

Por toda a cristandade, nas dioceses e paróquias, faziam-se fervorosas orações pelo fim da guerra que devastava e envergonhava a Europa, berço da assim chamada civilização ocidental e cristã. O fundador do semanário católico Souvenir Normand, Marquês de la Rochetulon, enviara ao Papa Bento XV várias orações pela paz. Não se sabe se eram de sua autoria ou se as recolhera entre as que circulavam no meio do povo.
É sábio que essas orações chegaram ao Papa porque existe o bilhete do importante Cardeal Gasparri agradecendo ao Marquês de la Rochetulon em nome de Bento XV. Aí se faz interessante revelação: todas as orações, inclusive essa de São Francisco, eram dirigidas ao Sagrado Coração de Jesus, devoção introduzida em toda a Igreja no final do século XIX.
Com essa devoção ao Sagrado Coração de Jesus se pretendia resgatar uma dimensão esquecida no cristianismo tradicional: a riqueza da santa humanidade de Jesus, de seu amor incondicional, de sua misericórdia, de seu enternecimento para com todos, especialmente para com os pobres e os pecadores, as crianças e as mulheres.

De Oração pela Paz a Oração de São Francisco

Por que essa Oração pela Paz passou a ser chamada de “Oração de São Francisco”?
Por uma simples casualidade histórica que, no entanto, encerra um significado revelador. Pois há entre as características do Coração de Jesus e as características de São Francisco uma conaturalidade surpreendente. Não sem razão São Francisco é chamado de “o Primeiro depois do Único” ou o Alter Christus, o outro Cristo.
Pouco tempo depois da publicação da oração pela Paz em Roma, um franciscano, Visitador da Ordem Terceira Secular de Reims, na França, mandou imprimir um cartão tento de um lado a figura de São Francisco com a regra da Ordem Terceira Secular na mão e do outro a Oração pela Paz, com a indicação da fonte: Souvenir Normand. No final uma pequena frase dizia: “essa oração resume os ideais franciscanos e, ao mesmo tempo, representa uma resposta às urgências de nosso tempo”. Essa pequena frase se tornou o elo revelador. Permitiu que a oração deixasse de ser apenas Oração pela Paz para ser também conhecida como “Oração de São Francisco” ou a Oração da Paz de São Francisco de Assis.
Assim, essa oração passou a ser, simultaneamente, um resumo da devoção ao Sagrado Coração de Jesus e da espiritualidade franciscana. Curiosamente a oração de consagração ao Sagrado Coração de Jesus publicada por Leão XIII em 1899 tem uma estrutura semelhante à atual Oração de São Francisco, especialmente as tríades: discórdia/união, erro/verdade, trevas/luz.
As demais contraposições ódio/amor, ofensa/perdão, dúvida/fé, desespero/esperança, tristeza/alegria estão ancoradas na pregação de Jesus e na sua prática libertadora. Sua presença e sua palavra transformam a realidade: onde há ódio surge o amor, onde há ofensa aparece o perdão, onde há dúvida irrompe a fé, onde há desespero nasce a esperança e onde há tristeza sorri a alegria.
A segunda parte – “fazei que eu procure mais consolar, que ser consolado; compreender, que ser compreendido; amar, que ser amado” – constitui uma característica fundamental do cristianismo, a completa abnegação de si mesmo e daquilo que nos é mais caro para poder radicalmente servir o outro.
A terceira e última parte – “pois é dando que se recebe; é perdoando que se é perdoado; e é morrendo que se vive para a vida eterna” – é igualmente fundada nos textos do Evangelho:

- daí e vos será dado (Lc 6, 38)
- perdoai e sereis perdoados (Lc 6, 37)
- quem procurar preservar a vida, há de perde-la, e quem a perder, há de conserva-la (Lc 17,33)
- quem ama sua vida acabará perdendo-a; mas quem odiar sua ida neste mundo vai guardá-la para a vida eterna (Jô 12, 25)

Conclusão: o grande parentesco entre a devoção ao Sagrado Coração de Jesus e a devoção a São Francisco de Assis permitiu que as características de uma fossem atribuídas ao outro. Isso nos faz lembrar a famosa frase do Padre Antônio Vieira em seu sermão sobre as Chagas de São Francisco: “Vesti Cristo e tereis Francisco, desvesti Francisco e tereis Cristo.”

Essa conaturalidade aparece, por exemplo, nos escritos de São Francisco chamados Admoestações, em especial na de número 27. Aí encontramos nítido o espírito da Oração pela Paz:

“Onde há amor e sabedoria não há medo nem ignorância.
Onde há paciência e humildade não há ira nem perturbação.
Onde há pobreza e alegria não há cobiça nem avareza.
Onde há paz e meditação não há desassossegado nem dissipação.
Onde o temor de Deus guarda a casa, o inimigo não encontra portas.
Onde há misericórdia e descrição não há excesso nem dureza de coração.”
Aparece também na oração de um dos discípulos mais místicos e profundos de São Francisco, o beato Egídio de Assis:

“Se amares, serás amado;
Se venerares, serás venerado;
Se servires, serás servido;
Se tratares bem os outros, serás também bem tratado.
Entretanto,
Bem-aventurado aquele que ama sem ser amado,
Bem-aventurado aquele que venera sem ser venerado,
Bem-aventurado aquele que serve ser servido,
Bem-aventurado aquele que trata bem a todos sem ser bem tratado.”

Eis espelhada aqui a força do amor incondicional. Amor pelo valor intrínseco do ato de amar, sem esperar qualquer retribuição. Esse é o amor que Deus tem para com seus filhos e filhas, mesmo ingratos e maus. Esse, o amor do Sagrado Coração de Jesus. Esse, o amor que incandesceu São Francisco. Esse, o amor que consome todos os místicos como São João da Cruz ou o Sufi Rumi. Esse, o amor que salva eternamente qualquer pessoa, funda a paz, redime o mundo e constitui o sentido secreto do universo.

Fonte: Livro A Oração de São Francisco, Leonardo Boff.

http://www.matrizsaofrancisco.com.br/temasview.php?id=5

terça-feira, 21 de setembro de 2010

O Dom de Esquecer....

A gente não sabe como se lembra das coisas, nem como as esquece... Noberto Bobbio tem uma frase que diz que a gente é o que a gente lembra. E quase todas as ciências psis tb (pensando bem, quase toda a área humana do conhecimento é baseada nas memórias, reminiscências, no que é passado de geração pra geração, na Biblioteca Perdida de Alexandria, na sabedoria acumulada ao longo do nosso processo Histórico,  and so on... ).

O mais muderno agora, e que a neurociência está provando, é que nossa memória está programada também para surpreendentemente esquecer.  Que o saudável é não se lembrar de tuuudo, precisamos esquecer coisas,  e de verdade são as coisas  banais, do  cotidiano, senão soçobramos com as informações inúteis que iríamos acumular. Se alguém me perguntar a roupa que o paciente estava vestindo na consulta da semana passada, provavelmente eu vou perguntar se ele até estava vestido, rsrs....  Mas sou capaz de lembrar coisas que a gente conversou há um, dois, três anos atrás.  De um livro que eu li, dez anos depois, até da posição na página que o trecho que eu estava procurando por alto pode estar tal citação... Coisas desde uma infância muito precoce, meu irmão chegando da maternidade, quando eu tinha uns dois anos de idade.

Mas o que faz a gente "escolher" o que quer exatamente guardar?  O principal fator é a carga emocional atrelada a um evento.  Outro é a repetição, quantas vezes aquele fato aconteceu com a gente, ou a gente repetiu um movimento, uma função, uma respiração, um olhar, uma palavra...  Outras vezes somos escolhidos pela vida, pra tentar entender um porquê, uma perda, uma dor, uma lágrima, algo que não paramos de pensar e não entendemos racionalmente, mas o sentimento não sai do nosso peito, até que ele vai desaparecendo de mansinho, deixando pra trás somente uma cicatriz que vai abrandando com o tempo, até nos esquecermos que ela existe, como uma memória, que ocupa algum lugar, em algum momento, fugaz.

Betty Milan escreveu na Veja de 01/09/2010 que "um dos maiores desconsolos é a perda do ser amado. O desconsolo da perda. Só superamos a tristeza quando entendemos que perder não é sinônimo de não ter... fazer o luto é entender que a morte não anula a existência... [podemos] rememorar em vez de lamentar a falta."  Adorei tirar esses pensamentos do artigo dela e alinhar com esses pensamentos sobre a memória.  Dá uma idéia da continuidade da existência, da luta diária que temos, em prol da vida que perdura, e perdurará, mesmo que esse meu EU não mais aqui esteja.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Ai de nós, quem mandou?

MARTHA MEDEIROS

Mulheres ganham salários menores do que os dos homens, e líderes feministas seguem lutando para reverter essa injustiça. Mas já não sei se é boa ideia continuar batalhando por igualdade. Depois de ler o resultado de uma recente pesquisa feita pela Universidade de Harvard, fiquei inclinada a pensar que talvez seja melhor manter as coisas como estão. A pesquisa chama-se Schooling Can’t Buy Me Love (Escolaridade não pode me comprar amor) e confirma que mulheres que estudam mais acabam progredindo e, quanto mais bem-sucedidas, menores as chances de se casar. Os homens ainda não estão preparados para abrir mão da superioridade que o papel de provedor lhes confere. E mesmo os mais antenados, que apoiam que suas mulheres sejam independentes, ficam inseguros se elas tiverem cargos de chefia e muita visibilidade. Ganhar dinheiro, tudo bem, mas aparecer mais do que eles já é desaforo.

Beleza. O que vamos dizer para nossas filhas? Estudem, mas fazer doutorado e mestrado é exagero, antes um bom curso de culinária. Tenham opiniões próprias quando conversarem com as amigas, mas em casa digam só “ahã”, para não se incomodar. Usem seu dinheiro para comprar roupas, pulseiras e esmaltes, esqueçam o investimento em viagens, teatro e livros. E, na hora de se declararem, troquem o “eu te amo” por “eu preciso de você”, “eu não sou ninguém sem você”, “eu não valho meio quilo de alcatra sem você”. Homens querem se sentir necessários. Só amados não serve.
Que encrenca que as feministas nos arranjaram. Estimularam o pensamento livre, a autoestima, a produtividade e a alegria de trilhar um caminho condizente com nosso potencial. De apêndices dos nossos pais e maridos, passamos a ter um nome próprio e uma vida própria, e acreditamos que isso seria excelente para todos os envolvidos, afinal, os sentimentos ficaram mais honestos, e com eles os relacionamentos. O amor deixou de ser o álibi para um lucrativo arranjo social. Passou a ser mais espontâneo, e as carências de homens e mulheres foram unificadas, já que todos precisam uns dos outros para dividir angústias, trocar carinho, pedir apoio, confessar fraquezas, unir forças no momento das dificuldades. Todos se precisam da mesma forma, não de formas distintas. Mas há quem defenda que homem só precisa de paparico e mulher de quem tome conta dela, punto e basta.
Nunca imaginei que em 2010 ainda estaria escrevendo sobre isso. Achei que os homens já tivessem percebido o quanto ganham em ter uma mulher inteira a seu lado, e não um bibelô. Acreditei que a competitividade tivesse dado lugar a um companheirismo mais saudável e excitante, onde todos pudessem se orgulhar dos seus avanços e se apoiar nas quedas, mas que iludida: isso é coisa pra meia dúzia de emancipada, filha. Essas mulheres aí que não cozinham, não passam, não lavam, só evoluem, essas não são exemplo pra ninguém, são umas coitadas de umas infelizes que pagam as contas e ainda se acham divertidas, se fazem de inteligentes, querem bater perna em Nova York, pois vão arder no fogo do inferno, vão amargar na solidão, vão se arrepender de ter lido aquela Simone de Beauvoir, vão morrer abraçadas aos seus laptops, aqui se faz, aqui se paga, escreve aí.

Tamo ferrada.

O Globo - 12/09/2010



mesmo assim não me troco por nada, por pagar esse preço até injusto, pela minha lucidez, por não viver em fugas, nas mil armadilhas que a ilusão de uma pseudoexistência pode criar de felicidade, de jogos de variadas formas e texturas, pois já vivi a loucura até a fronteira do possível e hoje estou aqui, rindo do que posso, chorando as vezes, mas verdadeira comigo mesmo até onde eu der meu último suspiro. Eu sou, verdadeiramente, ESPECIAL!, sou uma sobrevivente de acontecimentos inenaráveis, de angústias impensáveis, de horrores inconfessáveis, de traumas e violências profundas... e tenho uma doçura, sensibilidade, afabilidade, que não permito que ninguém me tire. A luz e o amor que carrego, não deixo que seja conspurcado pelo horror que eu tenha vivido, pq passando pela noite mais escura, é que se pode reconhecer a dádiva do amanhecer.  Ainda busco um amor...

PS: e ainda sei lavar, passar e cozinho direitinho... minha casa é bunitinha, desenhei eu mesma meus móveis, isto é, sou relativamente prendada... pago todas as minhas contas, tenho meu carro, e pelo que converso em relação a todas as minhas amigas, consegui vencer a maioria dos tabus sexuais que tanto atrapalham as relações, se isso não é auto-ironia... vou procurar então melhor outra definição pra essa expressão, rsrs... 

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

MÚSICAS

Não vivo sem música...
mais música, a melodia em si do que as letras... mais as letras de algumas músicas em inglês do que em português... não por pedantismo... mas por ter aprendido o idioma assim mesmo, ter estudado dessa maneira, ter adquirido vocabulário, lendo muito livros, tanto que quase não sei "ouvir", isto é, tirar letra de música, mas decorei muitas letras ao longo da vida...
Li Shakespeare no original, pra passar nas provas finais da Cultura, novamente pra ter fluência e maestria, proficiência no idioma, como eles chamam, e como a prova é chamada - proficiency in english- e da música tiro muito para a vida...
Uma vez ouvi essa definição sobre essa música: o mais belo hino à amizade que já foi escrito...
mas ao mesmo tempo ela descreve o que Santa Teresa D'Avila chama do lado negro da alma, o estado de dor e sofrimento, onde entra o consolo que só o ombro amigo sabe dar. A música é "Like a bridge over troubled water" de Simon e Garfunkel, e diz mais ou menos assim:


BRIDGE OVER TROUBLED WATER
( Ponte sobre águas revoltas )
PAUL SIMON & ART GARFUNKEL - 1970

WHEN YOU'RE WEARY, FEELING SMALL
Quando você estiver exausta, sentindo-se deprimida
WHEN TEARS ARE IN YOUR EYES
Quando as lágrimas estiverem em seus olhos
I WILL DRY THEM ALL
Eu as enxugarei todas
I'M ON YOUR SIDE
Eu estou ao seu lado
OH, WHEN TIMES GET ROUGH
Oh, quando os tempos ficarem difíceis
AND FRIENDS JUST CAN'T BE FOUND
E os amigos não mais puderem ser encontrados
LIKE A BRIDGE OVER TROUBLED WATER
Como uma ponte sobre águas revoltas
I WILL LAY ME DOWN
Eu me deitarei
LIKE A BRIDGE OVER TROUBLED WATER
Como uma ponte sobre águas revoltas
I WILL LAY ME DOWN
Eu me deitarei
WHEN YOU'RE DOWN AND OUT
Quando você estiver chateada e fora
WHEN YOU'RE ON THE STREET
Quando você estiver na rua
WHEN EVENING FALLS SO HARD
Quando a noite descer pesadamente
I WILL CONFORT YOU
Eu a confortarei
I'LL TAKE YOUR PART
Eu a ajudarei
OH, WHEN DARKNESS COMES
Oh, quando a escuridão vier
AND PAIN IS ALL AROUND
E a dor estiver por perto
LIKE A BRIDGE OVER TROUBLED WATER
Como uma ponte sobre águas revoltas
I WILL LAY ME DOWN
Eu me deitarei
LIKE A BRIDGE OVER TROUBLED WATER
Como uma ponte sobre águas revoltas
I WILL LAY ME DOWN
Eu me deitarei
SAIL ON SILVER GIRL
Continue a viver em brilho
SAIL ON BY
Continue vivendo
YOUR TIME HAS COME TO SHINE
Sua hora chegou para brilhar
ALL YOUR DREAMS ARE ON THEIR WAY
Todos os seus sonhos estão a caminho
SEE HOW THEY SHINE
Veja como eles brilham
AND IF YOU NEED A FRIEND
E se você precisar de um amigo
I'M SAILING RIGHT BEHIND
Eu estarei logo atrás
LIKE A BRIDGE OVER TROUBLED WATER
Como uma ponte sobre águas revoltas
I WILL EASY YOUR MIND
Eu acalmarei sua mente
LIKE A BRIDGE OVER TROUBLED WATER
Como uma ponte sobre águas revoltas
I WILL EASY YOUR MIND
Eu acalmarei sua mente

DESJEJUM CABEÇA


Em novo livro, o britânico Robert Rowland propõe analisar cada ato do cotidiano de acordo com teorias filosóficas. Para Rowland, pensar sobre momentos aparentemente banais pode ajudar a entender questões essenciais de nossas vidas
A monotonia daqueles cafés da manhã regados a mamão, leite desnatado e pão integral está com os dias contados. A partir de agora pode-se fazer o desjejum filosofando. É só dar um pulo na livraria mais próxima e comprar “Café da manhã com Sócrates” (Rocco), do filósofo bonitão Robert Rowland Smith, que decidiu botar pelo em ovo.
Inspirado na máxima do filósofo ateniense “Não vale a pena viver uma vida não examinada”, o autor acha um desperdício uma pessoa ficar pensando na morte da bezerra enquanto se alimenta. E sugere que o leitor compreenda o seu cotidiano de A a Z. Nada de caminhar para o trabalho, ir à academia, tomar banho ou ver televisão sem entender porque isso está acontecendo. Para ele, esses momentos aparentemente tão banais são preciosos para que possamos entender questões essenciais em nossas vidas. Assim, ele propõe uma viagem guiada pela história da filosofia.
No livro, publicado em vários países, como Espanha, Itália e Alemanha, o autor imagina o que diriam os maiores pensadores de todos os tempos sobre os momentos-chave do dia a dia. Desde a hora em que acordamos (e passamos a existir, como argumentaria Descartes), até quando adormecemos (com Jung por companhia, a explicar-nos o porquê dos nossos sonhos). “O livro mostra como as maiores ideias da história se relacionam com a forma que você vive sua vida e como você pode pensá-la com mais profundidade” — explica o autor.

O ego adora uma rotina

Dividido em 18 capítulos, como “Acordando”, “Discutindo a relação”, “Matando o trabalho”, “Fazendo sexo” até “Dormindo e Sonhando”, o livro nutre o leitor com questões de sociologia, psicologia e política que estão implícitas em atos do cotidiano, aparentemente sem a menor relevância. No capítulo “Arrumando-se”, ele observa que o ego adora uma rotina e explica que por isso alguns homens sempre abotoam a camisa de cima para baixo, em vez de baixo para cima, ou vestem as cuecas antes das meias. E você, já pensou em entrar no escritório do seu chefe, dizer o que pensa dele e largar o emprego deixando seus companheiros morrendo de inveja? Em “No trabalho”, o leitor vai compreender que essa fantasia revela três coisas: primeira, que ele está no emprego errado; segunda, que, se não transformou esse desejo em realidade, é um covarde; e terceira, ele é uma pessoa que precisa de segurança para poder cumprir seus compromissos financeiros e não possui reserva suficiente para pagá-los. “Você e dois terços da população” — brinca o autor.
Vai aprender, ainda, que para Michel Foucault, sua rotina de exercícios é uma forma de controle estatal; para Lacan provar roupas numa loja pode ser um alerta sobre os perigos do narcisismo. E não trabalhe demais, please, porque a qualquer momento Marx pode surgir na sua frente para alertar que você deve deixar de ser escravo do seu salário. Enfim, nem no mais comezinho cotidiano nada é o que parece. Mesmo quando a noite chegar e você ficar animada para fazer sexo com seu namorado, não pense que é fácil não, também é preciso pôr a cabeça para funcionar. Não é você que faz sexo, filosoficamente o sexo é que nos faz.
Socorro, eu só quero um mísero orgasmo.

Bety Orsini
Jornal: O Globo
Caderno: Ela 
28/08/2010

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

O Império do Meio manda chamar Confúcio

meus profs da Fac. de História se revirariam no túmulo por eu ficar citando o grobo, porque, sacumé, é um dos jornais da situação, das zelites, mas eu adoro as histórias do Império do Meio, e acima de tudo, assim como Platão, Sócrates e Aristóteles fundaram o que conhecemos como humanismo e influenciaram todo o pensamento ocidental, esse artigo é especificamente sobre o ainda tão ignorado pelas bandas de cá pensamento e filosofia oriental, e seu maior professador (and yes, eu escrevi isso certo, sim...), Confúcio.  Não deixa de ser um bom resumo, então, voilá, outra das tantas coisas que eu leio porraí que vem parar aqui.


A China é agora a segunda economia do mundo, superando o Japão. Nesse inacreditável laboratório da modernidade, há muitos perigos à espreita, quer eles venham da ecologia, do sistema político ou do próprio crescimento vertiginoso da economia. Mas a China é hoje um lugar onde acontecem coisas surpreendentes. Como, por exemplo, a ressurreição de Confúcio.
Em artigo publicado no “New Perspectives Quarterly”, Daniel Bell, professor de filosofia política na Universidade Tsinghua, de Beijing, lembra que, há apenas 40 anos, seria suicídio elogiar Confúcio na China maoísta. Ele era o inimigo, a China feudal a ser destruída. Hoje, o Partido Comunista Chinês dá seu aval a um filme sobre Confúcio, em que ele aparece como professor de valores humanos.
Isso não acontece por acaso. Como lembra o professor Bell, essa floração neoconfuciana poderia dar ao governo um novo tipo de legitimidade, partindo-se do princípio de que o comunismo, na China, já não é fonte de inspiração para ninguém. E Confúcio está na raiz da cultura chinesa.
Esse retorno vem-se processando a uma velocidade crescente. Temas confucianos apareceram nas Olimpíadas de 2008, com citações dos “Analectos” no espetáculo de abertura (que, aliás, lembrava a China antiga na sua extraordinária sofisticação). O Instituto Confúcio, patrocinado pelo Governo, manda agora essa mensagem para o exterior, como se fosse uma Alliance Française.
Os velhos quadros do Partido, claro, reagem. Confúcio foi anátema por tantos anos! Mas o tempo está contra eles. Sinal indiscutível de confucionismo: o Partido começa a trabalhar com base na meritocracia. Cada vez mais, os convites recaem sobre pessoas bem educadas (algo de parecido no Brasil?). E não é só o Governo que age assim: é a própria sociedade, acreditando que um treinamento em humanidades melhora o desempenho individual em qualquer plano.
Confúcio, claro, não se pautava por códigos clássicos da democracia ocidental. A sua meritocracia estabelecia a igualdade de oportunidades: dê a todos as mesmas oportunidades. A partir daí, que se imponham os melhores. Assim se fizeram, durante séculos, os concursos que, na China antiga, apontavam os funcionários que ocupariam cargos importantes.
Os neoconfucianos da China de agora estão propondo que se selecionem deputados por mecanismos como concursos bem feitos e abrangentes. Será utópico? Mas Bryan Caplan escreveu um estudo — “O mito do eleitor racional” — que tem como subtítulo “Por que as democracias escolhem maus políticos”. Os nossos critérios são bastante aleatórios, com espaço generoso para a demagogia ou a compra de votos.
Vindo ou não essa reforma política, a China só tem a ganhar com o retorno a Confúcio. Isso daria à febre de conhecimento que ataca os chineses de hoje uma dimensão que é a da própria história do país.
A quase obsessão do conhecimento é uma das marcas registradas do pensamento de Confúcio. Nascido no sexto século a.C., ele foi um professor nato, e tinha a preocupação de estender a todos os benefícios da educação, numa época em que isso era absoluta novidade. Assim, desde cedo, foi reunindo à sua volta grupos de jovens não só fascinados com o mestre, mas desejosos de aproveitar seus conselhos e ensinamentos para subir na vida.
Aos 50 anos, Confúcio foi feito magistrado, e tornou-se ministro da Justiça do seu pequeno principado. Mas, em pouco tempo (como aconteceu com Platão), vê que não consegue mudar a cabeça dos seus príncipes, e resolve viajar para expandir a sua missão pedagógica. Conta-se que voltou para casa aos 68 anos, e teria tido tempo de preparar edições de suas obras — os clássicos confucianos que, durante dois mil anos, moldaram a cultura chinesa.
O humanismo confuciano foi a mais bem-sucedida aventura educativa da História, combinando senso prático com uma abertura para os valores mais altos. Na base do sistema, o conceito de humanidade (jen), a que se somava a piedade filial.
A reverência aos pais (o quarto mandamento da doutrina cristã) corresponde à educação do coração. Ao reconhecer que devemos aos pais o dom da vida, estamos adotando uma saudável e salvadora humildade: você sai de si mesmo, enfraquece o egoísmo, ao enxergar, fora de você, coisas profundas e dignas de respeito. Não estranha que, odiando o próprio pai, Mao Tse-tung odiasse Confúcio.
O ideal do homem confuciano foi assim descrito: afável, mas digno; austero sem ser áspero; polido, mas completamente à vontade. Ficamos lembrando de um Dr Johnson, na Inglaterra do século XVIII. Mas era um ensino que tinha os pés no chão. Perguntaram a Confúcio como fazer para servir os entes espirituais. Resposta: se não somos capazes de servir ao ser humano, como podemos servir aos entes espirituais? (não está muito longe do Evangelho…)
Foi, também, um profundo pensador político. Perguntado sobre o que seria um bom governo, ele respondeu: “Alimentação básica, armamento básico e a confiança do povo.” E se tivéssemos de abandonar uma dessas coisas? Resposta: “Eu abandonaria os armamentos.” Forçado a escolher entre os dois restantes, o que você faria? Resposta: “Eu faria menos questão dos alimentos. Desde tempos imemoriais, nenhum Estado subsiste sem a confiança do povo.” É um caso a pensar.

LUIZ PAULO HORTA é jornalista
O Globo, 22/08/10

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Você sabe o que seus filhos andam fazendo?

a pág que achei esse texto na internet diz que a coluna foi escrita no "O Estado de S.Paulo", mas eu a li originalmente no "O Globo" e é a razão pela qual estou a reproduzindo aqui, por ter ficado impressionada com o discernimento dessa mãe, por compartilhar desse ponto de vista, por ter escrito tantas vezes sobre isso, e por ainda (thanks God) militar pela consciência e pela busca do que é correto, sem ser preconceituosa, ortodoxa, sem perder a ternura, e sem deixar de ser correta e justa. 

agosto de 2010

Meu filho de 15 anos estuda numa escola cara, bem considerada, onde estudam os filhos da nata da sociedade, empresários, artistas, intelectuais da zona sul carioca. Mas acredito que o que vou relatar seja o retrato de algo mais generalizado e que mostra o tipo de (falta de) educação que nossa elite está dando a seus filhos - de impunidade, hedonismo e falta total de valores e limites. E depois ficamos perplexos com brigas mortais, atropelamentos, pegas, acidentes fatais, overdoses, comas alcoólicos e nos perguntamos: como pôde acontecer?
Para poupar o meu filho e não identificar os jovens que são objeto deste artigo, tenho de escrever sob pseudônimo. Tenho a certeza de que alguns pais saberão do que falo por terem experimentado algo similar ao que passei ou por desconfiarem do que fazem seus filhos quando estão em suas festas e "sociais".
Moro numa casa bonita, bem decorada, num lugar aprazível. Apesar da vida profissional exigente, sempre me preocupei em criar meus três filhos mantendo uma presença constante e exigindo deles comportamento exemplar, fundamentado em valores e princípios éticos e morais universais. Não só pelo exemplo, como pela educação que dei e procurei em escolas, eles nunca me decepcionaram. A adolescência, fase em que meu temporão se encontra, não é fácil para ninguém. Além dos hormônios em atividade radical, as obrigações com os estudos e a vida familiar - no caso de meus filhos, diariamente lembradas e exigidas por mim -, entram em conflito com convites e pressões de colegas, levando a alguns comportamentos mais confrontadores, a disputas por liberdade, naturais em quem está crescendo e encaradas por mim com abertura, tolerância, mas sem me esquecer da imposição de claros limites.

Eis o que se passou.

Um ano após experiência traumática em minha casa, quando ofereci uma festa para 150 jovens, algo ainda mais sério aconteceu. O trauma foi pelo fato de que muitos dos convidados chegaram já bêbados, trazendo, escondidas na roupa, garrafas de vodka, causando uma situação que nunca poderia esperar numa festa de 14 anos! Embora os seguranças e garçons tenham confiscado algumas garrafas, outras passaram. E, apesar de terem reprimido, volta e meia o cheiro de maconha subia. Encerrei a festa mais cedo. Saldo: lixo espalhado por todos os cantos, pias e privadas entupidas por vômito, objetos destruídos. Chocante! Foi minha primeira experiência concreta com essa juventude criada sem limites, que tem tornado a vida de profissionais que com ela lidam, como professores e empregados domésticos, um verdadeiro inferno.
Na ocasião, meu filho compreendeu que eu vetasse qualquer nova festa em casa. Um ano depois, no entanto, uma amiga próxima o convenceu (e ele a mim) a oferecer a casa para uma "social" com 15 pessoas. Mesmo convalescente de uma doença séria, aceitei aquele número de colegas para um papo, com som baixo e bom comportamento prometidos. Tive de fazer uma visita emergencial ao médico naquela noite de sexta-feira. Na volta, meu filho estava nervoso: a coisa tinha saído de controle e mais de 40 jovens haviam entrado. Minha irmã e os empregados que me substituíram estavam também assustados. Meu filho explicou-me que a tal "amiga" havia convidado as pessoas sem o seu conhecimento e muitas delas ele nem conhecia. O que eu conversei com ele depois, para que entendesse o tamanho de sua responsabilidade, foi duríssimo, porém muito mais duro foi ele ter de lidar com a imensa decepção de ter sido usado e manipulado pela menina e de ter de romper com várias pessoas que considerava amigas. Mas o que interessa são os fatos: o encontro começou às 21h30 e eu cheguei às 23 horas. Nesse pequeno espaço de tempo, o que esses jovens fizeram em minha casa é inimaginável num jardim zoológico. Após a primeira tentativa fracassada de meu filho, dizendo que a reunião tinha de acabar porque a mãe estava muito doente, resolvi intervir. Disse a mesma coisa em voz alta para todos, pedindo que se fossem. Foi a mesma coisa que nada. Aos poucos fui percebendo o nível de destruição e de lixo. Mesmo recém-saída de uma cirurgia no coração, fui ficando alterada, a bagunça continuava inalterada, até que expulsei todos de casa aos berros. Mas eles não se intimidaram. Continuaram no portão de minha casa, numa atitude de afronta, fazendo uma tremenda algazarra, apesar dos protestos em nome de minha condição extrema de saúde. Isso durou até à 1 hora. Quando tudo parecia mais calmo, e enquanto esperava pela chegada de meu ex-marido e pai de meus filhos, notei que a porta do quarto do meu filho estava trancada. Bati e nada. Chamei-o e começamos a insistir para que quem quer que estivesse lá abrisse a porta. Eu gritei e os jovens se assustaram. A porta do quarto, que ainda estava no escuro, abriu-se. Era a tal "amiga", ainda se ajeitando. O rapaz estava sentado na cama desfeita, calçando os sapatos.
Enquanto meu ex-marido esperava que todos se fossem, do lado de fora da casa eu, meu filho e um amigo, chocados, contabilizávamos o estrago: do salão onde a maior bagunça tinha ocorrido tiramos dois sacos grandes de lixo que estava espalhado por todos os cantos, os móveis e o chão estavam encharcados, pisoteados, imundos. Brinquedos de meu neto foram jogados nos canteiros do jardim. Na sala de estar, um quadro a óleo apresentava duas mossas, além de uma escultura de vidro ter sido quebrada (com um soco proposital, vim a saber).
Apenas dois pais vieram resgatar seus filhos, querendo saber o que havia acontecido para que eles estivessem na rua. Meu ex-marido respondeu: "Pergunte a eles." O que terão eles contado aos pais? E os outros, que saíram sozinhos por aí, pegaram táxis, foram para outros lugares? E você? Sabe o que seu filho anda fazendo por aí? 


Vera Ferreira

domingo, 22 de agosto de 2010

trechos da coluna de hoje do Alberto Godin

É evidente que não apenas o final de uma relação, porque, apesar de sua tristeza enorme, seria suportável.  Ela morre de amor, e só morrem de amor aqueles que vivem uma relação errada.  Os bons amores preparam para a a vida, e não para a morte, assim como os bons prédios, que precisam ser sólidos, independentemente de quem irá habitá-los.  Por esse motivo, acredito que Monica não amava Ronaldo, dependia dele.  Não passou pelo luto de uma mulher que perdeu seu homem, mas pelo desespero de uma criança órfã.  Não deixou de amá-lo, porém com o amor errado.  Por isso a casa caiu, por imaturidade, ciúmes, controle, e impaciência, sentimentos mais adequados para uma criança frustada pelos pais.   Por isso que a relação, da mesma forma que a casa, não tinha futuro.  Não por falta de amor, mas de simetria. As relações são sólidas quando ambos contribuem com cotas semelhantes de trabalho e capital.  A vida não é um bem tranferível, nem negociável, nem delegada a terceiros.  Monica deve entender que a gente só ama realmente quando vive uma existência real que se sustente sobre os próprios pés.  Caso contrário, não é amor, é a viga de um andaime que, quando retirada, precipita um desabamento.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

sintonia de amigas

putz, que transmimento de pensação... eu ia hj mermo te mandar uma msg pedindo noticia... que bacana...
ainda tô em Mamy, o tal do INR finalmente tá subindo, mas ainda não atingiu os parâmetros ideais, mas tô com acompanhamento do angiologista, ele disse que é meio assim, demora a ajustar a dose em algumas pessoas, e "é lógico, rsrs" que comigo ia ser assim....
agora tô fazendo fisio respiratória pra recuperar mais um pouquinho o folêgo que perdi, e assim que tiver legal, volto a trab...
adorei seu chocolate, me fez um bem danado... uma boa endorfina que usei pra fins terapêuticos... ;-))
sua visita deixou um perfume de muita alegria aqui tb, foi sem ser planejada, por isso mesmo mais gostosa...
espero que tb tenha te deixado abastecida pras lutas do dia a dia aí, minha querida...
bjks em todos, acompanhe as fotos que vou postando, é uma das formas que a gente tem de ficar juntinha...

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O LOUCO - arcano 22 no tarot de Marselha ou a carta zero, o princípio e o fim





O Princípio da Coragem. Estado de Destemor. Aquele Que Anda sem Medo.

A capacidade de dar à luz a novas formas a partir de uma posição de coragem, admiração e antecipação. Representa a necessidade de abandono de velhos caminhos e o começo de algo novo e não testado. Qualquer coisa pode acontecer, portanto, prenda a respiração e prepare-se para o pulo na direção o novo! Muitas vezes indica momentos de decisão ou grande mudança e oportunidades ocultas em situações aparentemente difíceis. O fator misterioso e libertador que sai da norma.
Representa a Criança dentro de nós. A expressão mais próxima e mais natural do universo. O começo sem começo, a fonte sem fonte, o fim sem fim, todas as coisas, e nenhuma coisa. Como o louco, dependente e com compreensão limitada de seu propósito, tendo fé de que o universo tomará conta de você.
Com o rosto voltado para frente em direção ao futuro, o louco caminha decidido, mantendo uma expressão tranquila e inocente; revela-se um personagem que rompeu com todas as suas relações anteriores: familiares, sociais e afetivas. Em um aspecto, a imagem de um espírito totalmente livre. Nem homem nem mulher, mas ambos em um. Ter personalidade própria porque você acredita no que está fazendo. Entre as cores, o amarelo se destaca, aparecendo no estranho gorro (chapéu de bobo), no cinturão, indicando que não lhe faltam abstração e espiritualidade. Sobre o ombro direito, ele carrega uma vara curta (símbolo do desejo e da força de vontade), e uma sacola levando o essencial ou o potencial para se tornar o mago ou chegar ao mundo. Andando com a força do amor e das leis do universo. Talvez por não ter número, significa liberdade, ele olha para o infinito e com isso, mostra que a vida é muito mais do que vemos e a felicidade pode estar além das aparências da vida quotidiana. Isso quer dizer que muitas vezes nos preocupamos com coisas superficiais e não percebemos o que realmente é importante.
O louco é a personificação da sorte, como a sorte, é um componente imponderável. Também é chamado de: O Buscador Espiritual. Êxtase e Experiência Máxima, incitando fé em si mesmo e na vida. Completando todo movimento pela Fé. Na cegueira mais profunda está a visão mais perspicaz. A verdadeira solução para o mistério da vida eterna depende da compreensão que o conhecimento de muitos está contido em um, e o conhecimento de um está contido em muitos. Experimentar a fé e a confiança absoluta no universo. Nenhuma sensação de preocupação ou medo e nenhuma consciência que preocupe ou amedronte poderia mesmo existir. Um sentimento de proteção e uma sensação de que tudo funcionará; estar aberto a tudo que o futuro oferece.
Simboliza o desligamento da matéria, uma história a ser vivida, continuar vivendo a vida sabendo que algo surpreendente poderá acontecer e aceitar esse fato despreocupadamente. O acaso irá resolver tudo. Geralmente o conselho é seguir a espontaneidade e estar aberto para tudo aquilo que a vida tem a lhe oferecer. Deve-se aceitar que você é um aprendiz da vida.

O Louco é a soma total de todas as outras cartas. Deus é todas as coisas sobre todas as coisas.



pequeno texto construído sobre vários outros pesquisados pela infindáveis páginas do google...

sábado, 7 de agosto de 2010

A felicidade é uma obrigação de mercado

Arnaldo Jabor


Desculpem a autorreferência, que é vitupério - mas estou terminando meu filme, "A Suprema Felicidade", que me tomou três anos, entre roteiro, preparação e filmagem. Agora, sairá a primeira cópia.
Amigos me perguntam: "Que é essa tal de ‘A Suprema Felicidade’? Onde está a felicidade?".
Eu penso: que felicidade? A de ontem ou a de hoje?
Antigamente, a felicidade era uma missão a ser cumprida, a conquista de algo maior que nos coroasse de louros. A felicidade demandava "sacrifício". Olhando os retratos antigos, vemos que a felicidade masculina estava ligada à ideia de "dignidade", vitória de um projeto de poder. Vemos os barbudos do século XIX de nariz empinado, perfis de medalha, tirânicos sobre a mulher e os filhos, ocupados em realizar a "felicidade" da família. Mas, quando eu era criança, via em meus parentes, em minha casa, que a tal felicidade era cortada por uma certa tristeza, quase desejada. Já tinha começado o desgaste das famílias nucleares pelo ritmo da modernidade.
Hoje, a felicidade é uma obrigação de mercado. Ser deprimido não é mais "comercial". A infelicidade de hoje é dissimulada pela alegria obrigatória. É impossível ser feliz como nos anúncios de margarina, é impossível ser sexy como nos comerciais de cerveja. Essa "felicidade" infantil da mídia se dá num mundo cheio de tragédias sem solução, como uma "Disneylândia" cercada de homens-bomba. A felicidade hoje é "não" ver.
Felicidade é uma lista de negações. Não ter câncer, não ler jornal, não sofrer pelas desgraças, não olhar os menininhos-malabaristas no sinal, não ter coração. O mundo está tão sujo e terrível que a proposta que se esconde sob a ideia de felicidade é ser um clone de si mesmo, um andróide sem sentimentos.
O mercado demanda uma felicidade dinâmica e incessante, cada vez mais confundida com consumo, como uma "fastfood" da alma. O mundo veloz da internet, do celular, do mercado financeiro nos obriga a uma gincana contra a morte ou a velhice, melhor dizendo, contra a obsolescência do produto ou a corrosão dos materiais.
A felicidade é ter bom funcionamento.
Há décadas, o precursor McLuhan falou que os meios de comunicação são extensões de nossos braços, olhos e ouvidos. Hoje, nós é que somos extensões das coisas. Fulano é a extensão de um banco. Sicrano comporta-se como um celular, beltrana rebola feito um liquidificador.
Assim como a mulher deseja ser um objeto de consumo, como um "avião", uma máquina peituda, bunduda, o homem também quer ser uma metralhadora, uma Ferrari, um torpedo inteligente e, mais que tudo, um grande pênis voador.
A ideia de felicidade é ser desejado. Felicidade é ser consumido, é entrar num circuito comercial de sorrisos e festas e virar um objeto de consumo.
Não consigo me enquadrar nos rituais de prazer que vejo nas revistas. Posso ter uma crise de depressão em meio a uma orgia, não tenho o dom da gargalhada infinita, posso brochar no auge de uma bacanal. Fui educado por jesuítas, para quem o sorriso era quase um pecado; a gargalhada, um insulto.
Bem - dirão vocês -, resta-nos o amor... Mas onde anda hoje em dia essa pulsão chamada "amor"?
O amor não tem mais porto, não tem onde ancorar, não tem mais a família nuclear para se abrigar.
O amor ficou pelas ruas, em busca de objeto, esfarrapado, sem rumo. Não temos mais músicas românticas, nem o lento perder-se dentro de "olhos de ressaca", nem o formicida com guaraná.
Mas, mesmo assim, continuamos ansiando por uma felicidade impalpável.
Uma das marcas do século XXI é o fim da crença na plenitude, seja no sexo, no amor e na política.
Se isso é um bem ou um mal, não sei. Mas é inevitável. Temos de parar de sofrer romanticamente porque definhou o antigo amor... No entanto, continuamos - amantes ou filósofos - a sonhar como uma volta ao passado que julgávamos que seria harmônico. Temos a nostalgia lírica por alguma coisa que pode voltar atrás. Não volta. Nada volta atrás.
Sem a promessa de eternidade, tudo vira uma aventura.
Em vez da felicidade, temos o gozo rápido do sexo ou o longo sofrimento gozoso do amor. Só restaram as fortes emoções, a deliciosa dor, as lágrimas, motéis, perdas, retornos, desertos, luzes brilhantes ou mortiças, a chuva, o sol, o nada.
O amor hoje é o cultivo da "intensidade" contra a "eternidade". O amor, para ser eterno hoje em dia, paga o preço de ficar irrealizado. A droga não pode parar de fazer efeito e, para isso, a "prise" não pode passar.
Aí, a dor vem como prazer, a saudade, como excitação, a parte, como o todo, o instante, como eterno. E, atenção, não falo de "masoquismo"; falo do espírito do tempo.
Há que perder esperanças antigas e talvez celebrar um sonho mais efêmero.
É o fim do "happy end", pois, na verdade, tudo acaba mal na vida. Estamos diante do fim da insuportável felicidade obrigatória. Em tudo.
Não adianta lamentar a impossibilidade do amor.
Cada vez mais o parcial, o fortuito é gozoso. Só o parcial nos excita. Temos de parar de sofrer por uma plenitude que nunca alcançamos.
Hoje, há que assumir a incompletude como única possibilidade humana. E achar isso bom. E gozar com isso.
Não há mais "todo"; só partes. O verdadeiro amor total está ficando impossível, como as narrativas romanescas. Não se chega a lugar nenhum porque não há aonde chegar.
A felicidade não é sair do mundo, como privilegiados seres, como estrelas de cinema, mas é entrar em contato com a trágica substância de tudo, com o não-sentido, das galáxias até o orgasmo.
Usamos uma máscara sorridente, um disfarce para nos proteger desse abismo.
Mas, esse abismo é também nossa salvação. A aceitação do incompleto é um chamado à vida.
Temos de ser felizes sem esperança.
E este artigo não é pessimista...


publicado em diversos jornais: O Globo, O Estado de SP, entre outros....

sábado, 31 de julho de 2010

A GENTE SE ACOSTUMA, MAS NÃO DEVERIA ....

Marina Colasanti


Eu sei que a gente se acostuma. Mas não deveria ...
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e não ter outra vista que não as janelas ao redor.
E porque não tem outra vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha pra fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz.
E à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado.
A ler o Jornal no ônibus porque não pode perder o tempo de viagem.
A comer sanduíches porque não dá para almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra.
E aceitando a guerra aceita os mortos e que haja números para os mortos.
E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz.
E não aceitando as negociações de paz aceita ler todo dia, de guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes.
A abrir as revistas e ver anúncios, a ligar a televisão e assistir comerciais.
A ir ao cinema e engolir publicidade.
A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita.
E a lutar por ganhar o dinheiro com que paga.
E a ganhar menos do que precisa.
E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma à poluição.
À luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias da água potável, à contaminação da água do mar, à lenta morte dos rios.
Se acostuma a não ouvir passarinhos, a não ter galos na madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta do pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer.
Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se a praia está contaminada, a gente molha só o pé e sua o resto do corpo...
Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida.
Que aos poucos se gasta, e que de tanto acostumar, se perde de si mesma.