domingo, 5 de dezembro de 2010

coisas que eu sei que vc não vai ler... saudações tricolores...

coisas que fazem eu lembrar de vc....
o jogão do Flu... minha família é dividida em FlaxFlu, no último níver do meu irmão, até dar um bolo com vela e escudo do Fluzão eu dei pra ele, rsrs... eu tinha saído do hospital mal tinha uma semana, mas tinha dado um jeito de encomendar e numa das vezes que fui fazer um exame de sangue passei por uma loja de festa de aniversário que tinha essa velinha de bolo, e como era  pro meu irmão, sabe como é... sempre se dá um jeito, né?
e nem gosto de futebol, por puro trauma de infância... mas nada disso deve ser coisa que te interessa... coisas a meu respeito não te interessam, né? mas eu ainda penso muito em vc, puramente por te querer bem...
por mais que eu saiba que vc fez sua escolha, não me convence que vc seja feliz, no fundo da sua alma...
sei que nos acomodamos com as escolhas feitas, por uma série de razões...
mas o que vi em vc qd me procurou foi uma pessoa sofrida, pela vida e pelas desilusões...
isso me impactou profundamente, pq nada do que eu pudesse fazer, todo o amor que eu tinha pra te dar, não pude, nem teria como tirar isso de dentro de vc
qd vc tava deitado ao meu lado, ao tocar seu peito, senti tanta angústia vindo de vc, mas muito, muito sofrimento e dor...
poucas vezes na minha vida profissional vi tanta assim, e já vi muita gente sofrer...
na última vez que vc esteve no meu consultório, vc me contou no seu olhar a angústia de querer ser amado por uma pessoa e ficar impotente por ela não dar aquilo que vc espera dela...
e vc em plena ereção, me pedindo um carinho, que me custou horrores pra não te dar...
mas vc estava me magoando muito, e naquele exato momento eu tb não tinha como te dar um prazer efêmero... pq eu queria muito mais de vc...


outra coisa que me deu vontade de enviar pra vc foi uma das crônicas da Lya Lufft, que escreve na Veja, entre outros lugares, e que fala entre coisas, de tantas coisas que eu te disse, pra vc ver que não é birra ou uma opinião pessoal minha, mas a visão de uma pensadora madura, que vê a sociedade com olhos sábios e que rompeu várias convenções pra chegar onde chegou...

VEJA

Edição 1999

14 de março de 2007
• ver capa
Ponto de vista: Lya Luft
Mulheres & Mulheres
"Existem as mulheres maltratadas, aviltadas,
submetidas. Mas a maioria de nós pode lutar
com determinação por uma vida mais plena"

O assunto já está enjoando, embora a medicina tenha encontrado recentemente novos motivos para as diferenças entre masculino e feminino, ou, como dizem minhas netas gêmeas de 4 anos e seu primo da mesma idade, entre meninos e meninas (para eles o pai, os tios e o avô emprestado são "meninos", enquanto a mãe, as avós e as tias estão na categoria "meninas").
Muito de verdadeiro ou de fantasioso se tem dito e escrito sobre a questão da mulher. Fora das culturas em que mulher vale menos do que um animal de tração, uma das lorotas é que ela foi sempre esmagada pelo troglodita brutal, traída pelo sem-vergonha, desprezada pela sociedade cruel. Nem todas. Nem sempre. Basta ler um pouco de história – não a dos livros escolares, mas alguma coisa mais bem documentada – para ver que em todas as épocas houve mulheres realizadas, influentes política e culturalmente. Talvez não tenham sido maioria, mas homens interessantes também não são a maioria.

É verdade que mulheres sempre causaram desconforto, ou por sua postura vitimal ou por suspeitas que despertam quando não são bobas. A Igreja queimou milhares como bruxas, porque conheciam ervas medicinais, por serem parteiras, portanto chegadas ao mistério da vida e da morte, outras simplesmente porque de alguma forma não se enquadravam. Acabo de ler uma boa biografia de Joana d'Arc, recheada de documentos comprovando a ignorância, a farsa, a brutalidade com que foi processada e queimada viva pela chamada Mãe Igreja. Tinha menos de 20 anos, a pobre moça que em sua aldeia chamavam de Joaninha. Pouco depois resolveram mudar tudo, e recentemente até a declararam santa. Histórias da Inquisição são de vomitar: homens, crianças, velhos e velhinhas, por qualquer motivo, eram vítimas de tortura, sangue e fogueira. Mas as mulheres, ah, essas criaturas que sangram todo mês e não morrem, com orifícios que prometem prazeres inomináveis, certamente têm parte com o Demo, e foram as vítimas preferidas. Antigamente, da Inquisição; agora ainda, em muitos casos, da fogueira do preconceito (também das próprias mulheres, diga-se de passagem).
Mas é folclore que fomos sempre submissas e sacrificadas: muitas de nossas doces avozinhas dirigiam a família com olho rápido, língua afiada e pulso firme. Mesmo em séculos passados, a mãe eventualmente detinha um poder invejável. O marido não raro a consultava no secreto do quarto sobre decisões importantes, nas propriedades rurais ela administrava a casa da cidade, fiscalizava o estudo dos filhos, negociava casamentos, cuidava do dinheiro, enquanto o marido e senhor corria com seus peões pelas vastidões do campo atrás do gado.
Houve e ainda há as maltratadas, traídas e inferiorizadas. As que não tiveram escolha, submetidas e humilhadas já pela cultura perversa em que nasceram; existem as que se acomodam por interesse, as que se acovardam por serem infantis, e acabam cobrando alto preço aos que com elas convivem. Quanto à traição masculina, muitas mulheres sabem, fingem ignorar, para assim dominarem o trapalhão através da culpa, e ao mesmo tempo serem dispensadas do chatíssimo (para elas...) dever conjugal. "Perdoam" infidelidades maritais, para ter sossego na cama, para não perder o provedor, para manter o status de casada, "para não desmanchar a família" (filhos manipulados como desculpa para coisas atrozes entre os pais).
Não, a mulher não foi sempre ou somente a coitadinha. Muitos homens sofrem com a silenciosa ou eloqüente chantagem emocional da mulher, de quem não conseguem se separar por culpa, sentimento de responsabilidade ou mesmo simples fraqueza.
Mulher vitimal, se generalizado, é um conceito altamente hipócrita. Existem as maltratadas sem saída, as aviltadas sem socorro, as submetidas sem opção. Mas a maioria de nós nem é santa nem é boazinha e, em lugar de acusar e se queixar, pode lutar com determinação por uma vida mais plena. Isso dependerá de cada uma, de sua personalidade, suas marcas de vida, sua condição familiar, sua informação, sua neurose e sua frustração. Nas proximidades do Dia da Mulher, quero dizer que ela dispensa elogios falsos e louvações consoladoras, porque ela não é vítima por essência, porque na nossa cultura pode construir sua vida e seu destino e escrever sua história, embora com limitações, como todos as têm. Talvez pudéssemos começar não nos pensando em primeiro lugar como "mulheres", mas como pessoas, e como pessoas buscar respeito, espaço, trabalho, tranqüilidade, alegria e amor. Masculino e feminino são secundários à essência "ser humano": vêm depois disso, nessa velhíssima e nem sempre bem contada história da guerra dos sexos.
Lya Luft é escritora
http://veja.abril.com.br/140307/ponto_de_vista.shtml

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Que Deus Não Permita


Que Deus não permita que eu perca o ROMANTISMO, 
mesmo sabendo que as rosas não falam... 
Que eu não perca o OTIMISMO, 
mesmo sabendo que o futuro que nos espera pode não ser tão alegre... 
Que eu não perca a VONTADE DE VIVER, 
mesmo sabendo que a vida é, em muitos momentos, dolorosa... 
Que eu não perca a vontade de TER GRANDES AMIGOS, 
mesmo sabendo que, com as voltas do mundo, eles acabam indo embora de nossas vidas... 
Que eu não perca a vontade de AJUDAR AS PESSOAS, 
mesmo sabendo que muitas delas são incapazes de ver, reconhecer e retribuir, esta ajuda... 
Que eu não perca o EQUILÍBRIO, 
mesmo sabendo que inúmeras forças querem que eu caia... 
Que eu não perca A VONTADE DE AMAR, 
mesmo sabendo que a pessoa que eu mais amo pode não sentir o mesmo sentimento por mim... 
Que eu não perca o sentimento de JUSTIÇA, 
mesmo sabendo que o prejudicado possa ser eu... 
Que eu não perca o meu FORTE ABRAÇO, 
mesmo sabendo que um dia os meus braços estarão fracos... 
Que eu não perca a BELEZA e a ALEGRIA DE VIVER, 
mesmo sabendo que muitas lágrimas brotarão dos meus olhos e escorrerão por minha alma... 
Que eu não perca o AMOR POR MINHA FAMÍLIA, 
mesmo sabendo que ela muitas vezes me exigiria esforços incríveis para manter a sua harmonia... 
Que eu não perca a vontade de DOAR ESTE ENORME AMOR que existe em meu coração, 
mesmo sabendo que muitas vezes ele será submetido e até rejeitado... 

E acima de tudo... 

Que eu jamais me esqueça que Deus me ama infinitamente! 

Que um pequeno grão de alegria e esperança dentro de cada um é capaz de mudar e transformar qualquer coisa, pois... 


A VIDA É CONSTRUÍDA NOS SONHOS E CONCRETIZADA NO AMOR! 
Chico Xavier

domingo, 21 de novembro de 2010

Mulheres inteligentes e caras pra lá de babacas


Toda mulher que se preza já se apaixonou por um babaca. A história é quase sempre a mesma, o final também. A gente conhece um cara, ele se mostra doce, maravilhoso e bem-resolvido. A gente – encantada – guarda a intuição no fundo da gaveta, veste o melhor decote (e o melhor sorriso) e sai linda, leve e solta para mais um capítulo cheio de frases mal-contadas, celular desligado e eventuais sumiços.
Verdade seja dita: a gente sente que tem alguma coisa errada, mas acaba fazendo vista grossa. E acha que está sensível demais, exigente demais, desconfiada demais. E deixa rolar. O resultado? O cara te enrola, te pede desculpas. Depois vacila de novo e te enche de presentes.
Estou escrevendo esse texto para eu mesma decorar. Imprimir. E nunca mais esquecer.
A gente não pode sair por aí perdendo nosso tempo com esses babacas. Chega de desculpar tanto, de tampar o sol com a peneira. Quando um cara REALMENTE está afim de você, ele vai até o inferno por você. Essa verdade ninguém me tira.
Não tem trabalho, família, futebol, amigos, crise existencial, nem celular sem bateria que façam com que ele – caso tenha educação e a mínima consideração – não tenha tempo de dizer um simples “oi”.
Isso não é pedir muito, concorda? O cara não precisa dar satisfação a toda hora, te ligar várias vezes por dia, isso é chato e acaba com qualquer romance.
O que eu quero dizer é que mulher precisa de carinho. Atenção. E uma sacanagem bem-dosada.
Se o sujeito vive brincando de esconde-esconde, não responde lindamente suas mensagens, não te chama pra sair com os amigos dele e nem tenta te agarrar quando você diz que está com uma lingerie de matar por debaixo da roupa – minha amiga – o negócio está feio. Muito feio.
Confesso que não é tarefa fácil colocar um ponto final de uma hora pra outra nessas histórias. Somos seres românticos, abduzidos pelos finais felizes dos filmes e livros. A gente sempre acha que alguma coisa vai mudar, que ele vai perceber TUDO o que está perdendo e vai aparecer com flores na porta da nossa casa. Mas a realidade é diferente.
Não somos a Julia Roberts, não estamos numa comédia romântica e, na vida real, homens são simples e previsíveis. Quando eles querem uma coisa, não há nada – nem ninguém – que os impeça. Portanto, anotem aí: quando um cara está afim de você, ele vai te ligar, ele vai te procurar, ele vai te beijar, ele vai querer estar sempre com as mãos em cima de você.
Não sou radical, apenas cansei de dar desculpas pra erros que não são meus. Ou são. Afinal um cara babaca sempre dá pistas de que é babaca. Só não enxerga, quem não quer.

Fernanda Mello


quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A complicada arte de ver

Ela entrou, deitou-se no divã e disse: "Acho que estou ficando louca". Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. "Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões - é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões... Agora, tudo o que vejo me causa espanto."
Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as "Odes Elementales", de Pablo Neruda. Procurei a "Ode à Cebola" e lhe disse: "Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: 'Rosa de água com escamas de cristal'. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta... Os poetas ensinam a ver".
Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.
William Blake sabia disso e afirmou: "A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê". Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.
Adélia Prado disse: "Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra". Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.
Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. "Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios", escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada "satori", a abertura do "terceiro olho". Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: "Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram".
Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, "seus olhos se abriram". Vinicius de Moraes adota o mesmo mote em "Operário em Construção": "De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa - garrafa, prato, facão - era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção".
A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas - e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam... Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.
Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: "A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas".
Por isso - porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver - eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar "olhos vagabundos"... 

Rubem Alves 
 
 
o texto acima foi extraído da seção "Sinapse",  jornal "Folha de São Paulo", versão on line, publicado em 26/10/2004.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Contigo e "Sentigo"


Sabemos como foi uma paixão pelo modo como ela termina. Essa frase está no livro O Passado, do argentino Alan Pauls, mas não precisaria estar em livro nenhum para que a avalizássemos. A maneira como se coloca o ponto final nas relações deixa evidente o verdadeiro espírito que norteou o que foi vivido.
Que tipo de final desejamos? De preferência, nenhum. Todo mundo quer um amor para sempre, desde que ele se mantenha estimulante, surpreendente, alegre, à prova de tédio. Ou seja, um amor miraculoso. Como milagre é do departamento das coisas impossíveis, é natural que as relações durem alguns anos ou muitos anos, e depois acabem.
Lei da vida. Sofre-se o diabo, mas raros são aqueles homens e mulheres que nunca passaram por isso. O que fazer para amenizar a dor? Talvez ajude se analisarmos o final para entender como foi o durante.
Há os finais chamados civilizados. Ambos os envolvidos percebem o desgaste do relacionamento, conversam sobre isso, tentam mais um pouco, conversam novamente, arrastam a história mais uns meses, veem que nada está melhorando, aguardam passar o Natal e o Ano-Novo, fazem uma última tentativa e então decidem: fim.
Lógico que é dilacerante. Não é nada fácil fazer uma mala, dividir os pertences e estipular visitas aos filhos, quando há filhos. A solidão espreita e assusta, e um restinho de dúvida sempre surge na hora do abraço de despedida. Mas foi um “the end” sem derramamento de sangue. Como conseguiram a façanha?
Provavelmente porque sempre escutaram um ao outro, porque não fizeram da relação um campo minado, porque as brigas eram exceções e não regra. É possível também que a relação fosse mais racional do que animal: ternura é bem diferente de paixão. Mas, enfim, mesmo sofrendo com a ruptura, deram a ela um fim digno, condizente com o que de bacana viveram juntos.

Agora vamos ao outro tipo de separação. Tire as crianças da sala.

A relação acaba geralmente depois de um ataque de ofensas, de uns “não aguento mais”, de muita choradeira, de cortes na alma, de desconstrução total, de confissões gritadas: “Quer saber? Eu fiquei com ela sim!”. Garanto que se amam mais do que aquele casal que se separou assepticamente, mas perderam toda a paciência um com o outro, e também todo o respeito, e atingiram um limite difícil de transpor. Por que, depois desse quebra-quebra, não tentam um papo conciliador? Ora, porque não fazem a mínima ideia do que seja isso.
Sempre foram atormentados pelo ciúme, pelas implicâncias diárias, pelas oscilações de humor, pela alternância de “te amo” e “te odeio”. Terminam falando mal um do outro para quem quiser ouvir, e não raro aprontam umas vingançazinhas. Tudo muito, muito longe do sublime.
Tive um vizinho de porta que gritava com a namorada ao telefone, sem se importar que o prédio inteiro ouvisse: “Não sei o que fazer! Fico mal contigo e fico mal sentigo!”. Sempre achei essa situação desoladora, e nem estou falando do português do sujeito. É duro ter apenas duas alternativas (ficar ou ir embora), e ambas serem terríveis.
Quando acaba docemente, é sinal de que você foi feliz e nada há para se lamentar. Se acaba de forma azeda, é porque a relação era mesmo uma neura e tampouco se deve lamentar. Nos dois casos, a performance final ao menos ajuda a compreender o que foi vivido e a se preparar para um novo amor que não acabe nunca. Em tese.

Martha Medeiros

O Globo em 14/11/2010

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Rifa-se um coração

Rifa-se um coração quase novo.
Um coração idealista.
Um coração como poucos.
Um coração à moda antiga.
Um coração moleque que insiste em pregar peças no seu usuário.
Rifa-se um coração que na realidade está um pouco usado, meio calejado, muito machucado
e que teima em alimentar sonhos e, cultivar ilusões.
Um pouco inconseqüente que nunca desiste de acreditar nas pessoas.
Um leviano e precipitado coração que acha que Tim Maia estava certo quando escreveu...
"...não quero dinheiro, eu quero amor sincero, é isso que eu espero...".
Um idealista...Um verdadeiro sonhador...
Rifa-se um coração que nunca aprende.
Que não endurece, e mantém sempre viva a esperança de ser feliz, sendo simples e natural.
Um coração insensato que comanda o racional sendo louco o suficiente para se apaixonar.
Um furioso suicida que vive procurando relações e emoções verdadeiras.
Rifa-se um coração que insiste em cometer sempre os mesmos erros.
Esse coração que erra, briga, se expõe.
Perde o juízo por completo em nome de causas e paixões.
Sai do sério e, às vezes revê suas posições arrependido de palavras e gestos.
Este coração tantas vezes incompreendido.
Tantas vezes provocado.
Tantas vezes impulsivo.
Rifa-se este desequilibrado emocional que abre sorrisos tão largos que quase dá pra engolir as orelhas, mas que também arranca lágrimas e faz murchar o rosto.
Um coração para ser alugado, ou mesmo utilizado por quem gosta de emoções fortes.
Um órgão abestado indicado apenas para quem quer viver intensamente contra indicado para os que apenas pretendem passar pela vida matando o tempo, defendendo-se das emoções.
Rifa-se um coração tão inocente que se mostra sem armaduras e deixa louco o seu usuário.
Um coração que quando parar de bater ouvirá o seu usuário dizer para São Pedro na hora da prestação de contas:
"O Senhor pode conferir. Eu fiz tudo certo, só errei quando coloquei sentimento.
Só fiz bobagens e me dei mal quando ouvi este louco coração de criança que insiste em não endurecer e, se recusa a envelhecer"
Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se por outro que tenha um pouco mais de juízo.
Um órgão mais fiel ao seu usuário. Um amigo do peito que não maltrate tanto o ser que o abriga. Um coração que não seja tão inconseqüente.
Rifa-se um coração cego, surdo e mudo, mas que incomoda um bocado.
Um verdadeiro caçador de aventuras que ainda não foi adotado, provavelmente, por se recusar a cultivar ares selvagens ou racionais, por não querer perder o estilo.
Oferece-se um coração vadio, sem raça, sem pedigree.
Um simples coração humano.
Um impulsivo membro de comportamento até meio ultrapassado.
Um modelo cheio de defeitos que, mesmo estando fora do mercado,
faz questão de não se modernizar, mas vez por outra, constrange o corpo que o domina.
Um velho coração que convence seu usuário a publicar seus segredos
e a ter a petulância de se aventurar como poeta.


Clarice

terça-feira, 2 de novembro de 2010

ENTRE AMIGOS


ENTRE AMIGOS  (Martha Medeiros)
12 de abril de 1999

Para que serve um amigo? Para rachar a gasolina, emprestar a prancha, recomendar um disco, dar carona pra festa, passar cola, caminhar no shopping, segurar a barra. Todas as alternativas estão corretas, porém isso não basta para guardar um amigo do lado esquerdo do peito.

Milan Kundera, escritor tcheco, escreveu em seu último livro, "A Identidade", que a amizade é indispensável para o bom funcionamento da memória e para a integridade do próprio eu. Chama os amigos de testemunhas do passado e diz que eles são nosso espelho, que através deles podemos nos olhar. Vai além: diz que toda amizade é uma aliança contra a adversidade, aliança sem a qual o ser humano ficaria desarmado contra seus inimigos.

Verdade verdadeira. Amigos recentes custam a perceber essa aliança, não valorizam ainda o que está sendo construído. São amizades não testadas pelo tempo, não se sabe se enfrentarão com solidez as tempestades ou se serão varridos numa chuva de verão. Veremos.
Um amigo não racha apenas a gasolina: racha lembranças, crises de choro, experiências. Racha a culpa, racha segredos.
Um amigo não empresta apenas a prancha. Empresta o verbo, empresta o ombro, empresta o tempo, empresta o calor e a jaqueta.
Um amigo não recomenda apenas um disco. Recomenda cautela, recomenda um emprego, recomenda um país.
Um amigo não dá carona apenas pra festa. Te leva pro mundo dele, e topa conhecer o teu.
Um amigo não passa apenas cola. Passa contigo um aperto, passa junto o reveillon.
Um amigo não caminha apenas no shopping. Anda em silêncio na dor, entra contigo em campo, sai do fracasso ao teu lado.
Um amigo não segura a barra, apenas. Segura a mão, a ausência, segura uma confissão, segura o tranco, o palavrão, segura o elevador.
Duas dúzias de amigos assim ninguém tem. Se tiver uma, amém.

e-mail de um amigo meu... me tocou demais...

Lendo o texto abaixo, acho que cada um de vocês poderá refletir e avaliar o quanto vale a pena mantermos e ampliarmos tudo que já conseguimos nos últimos meses. O texto não é meu, mas não conseguiria me expressar de maneira melhor do que o poeta. Ainda que letra morta, com ceretza elas irão ganhar colorido e emoção em nossos corações.

Um abraço, do amigo,
M. D.

REVERÊNCIA AO DESTINO
Falar é completamente fácil, quando se tem palavras em mente que expressem
sua opinião. Difícil é expressar por gestos e atitudes o que realmente
queremos dizer, o quanto queremos dizer, antes que a pessoa se vá.

Fácil é julgar pessoas que estão sendo expostas pelas circunstâncias.
Difícil é encontrar e refletir sobre os seus erros, ou tentar fazer
diferente algo que já fez muito errado.

Fácil é ser colega, fazer companhia a alguém, dizer o que ele deseja ouvir.
Difícil é ser amigo para todas as horas e dizer sempre a verdade quando for
preciso. E com confiança no que diz.

Fácil é analisar a situação alheia e poder aconselhar sobre esta situação.
Difícil é vivenciar esta situação e saber o que fazer. Ou ter coragem pra
fazer.

Fácil é demonstrar raiva e impaciência quando algo o deixa irritado. Difícil
é expressar o seu amor a alguém que realmente te conhece, te respeita e te
entende. E é assim que perdemos pessoas especiais.

Fácil é mentir aos quatro ventos o que tentamos camuflar. Difícil é mentir
para o nosso coração.

Fácil é ver o que queremos enxergar. Difícil é saber que nos iludimos com o
que achávamos ter visto. Admitir que nos deixamos levar, mais uma vez, isso
é difícil.

Fácil é dizer "oi" ou "como vai?" . Difícil é dizer "adeus". Principalmente
quando somos culpados pela partida de alguém de nossas vidas...

Fácil é abraçar, apertar as mãos, beijar de olhos fechados. Difícil é sentir
a energia que é transmitida. Aquela que toma conta do corpo como uma
corrente elétrica quando tocamos a pessoa certa.

Fácil é querer ser amado. Difícil é amar completamente só. Amar de verdade,
sem ter medo de viver, sem ter medo do depois. Amar e se entregar. E
aprender a dar valor somente a quem te ama.

Fácil é ouvir a música que toca. Difícil é ouvir a sua consciência. Acenando
o tempo todo, mostrando nossas escolhas erradas.

Fácil é ditar regras. Difícil é seguí-las. Ter a noção exata de nossas
próprias vidas, ao invés de ter noção das vidas dos outros.

Fácil é perguntar o que deseja saber. Difícil é estar preparado para
escutar esta resposta. Ou querer entender a resposta.

Fácil é chorar ou sorrir quando der vontade. Difícil é sorrir com vontade de
chorar ou chorar de rir, de alegria.

Fácil é dar um beijo. Difícil é entregar a alma. Sinceramente, por inteiro.

Fácil é sair com várias pessoas ao longo da vida. Difícil é entender que
pouquíssimas delas vão te aceitar como você é e te fazer feliz por inteiro.

Fácil é ocupar um lugar na caderneta telefônica. Difícil é ocupar o coração
de alguém. Saber que se é realmente amado.

Fácil é sonhar todas as noites. Difícil é lutar por um sonho. Eterno, é tudo
aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade, que se
petrifica, e nenhuma força jamais o resgata.

Carlos Drummond de Andrade


P.S.: Acho que o texto acima diz tudo! Eu completo dizendo apenas que cada um de vocês é muito especial para mim! Fazem parte da época mais doce e feliz da minha vida! Alguns se fizeram mais presentes, mais todos foram igualmente importantes.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

OLHA O CÉU...


OLHA O CÉU CRIATURA,
NA NOITE CLARA E PURA,
FITA A LUA, OS SÓIS, ESTRELAS E PENSA,
NOS PLANETAS E COMETAS, TANTOS MUNDOS,
GIRANDO FIRMEMENTE,
NOS ESPAÇOS PROFUNDOS,
A EMOÇÃO TE INVADE A MENTE,
CRIATURA...

MUNDOS,
QUE PARECEM FIXOS, BELOS E ILUMINADOS
NA CELESTE AMPLIDÃO,
BEM DESTACADOS
MAS QUAL A FORÇA PRODIGIOSA,
FECUNDA E GENEROSA
QUE OS MANTÊM ASSIM NESTE MOVER SEM FIM
REFLETE CRIATURA
COM TERNURA
MENTALIZA DEUS
DEUS QUE TODO AMOR
AMOR QUE VENCE A DOR
QUE UNE FIRMEMENTE OS FILHOS SEUS

DEUS EXISTE!

CRIATURA GUARDA ESTA CERTEZA
NO INTIMO COM FIRMEZA
E REPETE COMOVIDAMENTE

DEUS... DEUS EXISTE,
DEUS....
 (letra de  Alexandre pela psicografia de D. Maria Isabel)

terça-feira, 26 de outubro de 2010

das coisas da vida


           Tenho consciência das benesses que recebo da vida, mas também sempre trabalhei muito por tudo que me cerca, desde os 10/11 anos aprendendo as responsabilidades de uma casa, meu pai trabalhava, minha mãe passou por muitos anos com um sério problema de saúde, por fases que fui aprendendo a cuidar de mim, da casa, do meu irmão menor, até dela...
sei que a vida não é nada justa, porque muitas outras pessoas ralam pacas e não chegam aonde eu cheguei, dos confortos que hoje  posso usufruir, e que nunca sonhei que seria possível, sei também que pessoas que nada fizeram tem muito mais do que isso que  considero até luxuoso e/ou supérfluo.  
          No nosso país colonizado, alguns códigos sociais, diria até burgueses, estão muito distante dos ideias da verdadeira igualdade social que eu acredito.  O serviço doméstico ainda é um atributo eminentemente feminino, e vejo amigas e outras pessoas das minhas relações tendo ajudantes do serviços domésticos sempre empregando o trabalho feminino, gerando essa submissão e sobrecarga da má-remuneração em cascata... 
        Nas praças de alimentação dos shoppings os consumidores não se acostumam a retirar suas bandejas, um reflexo provável do que vivem em sua vida privada, sempre vai ter alguém pra recolher seus restos, a toalha molhada no banheiro, a cama desfeita... alguém que se responsabilize por suas tarefas de auto-gestão.  Se queremos ser realmente um país de igualitários, até nesses micro aspectos da vida privada, teremos que mudar essa mentalidade... 
         E acima de tudo, aquilo que torna qualquer relação especial, é o que mais falta sinto, um carinho, um alento ao coração... sou guerreira, aprendi a não depender de nada nem de ninguém... por isso eu as vezes penso ou ouso sonhar.. será que a vida não tinha que dar um pouquinho, mas só um pouquinho, do fácil, do que não envolvesse tanto esforço e desgaste? algo que viesse assim... simplesmente... pra mim, e que eu pudesse descansar por alguns momentos, sabendo que seria cuidada, pra variar? isso, para mim, é um sonho
bom, ou quem sabe?, um delírio...

sábado, 16 de outubro de 2010

Morre em São Paulo o psiquiatra José Angelo Gaiarsa

Morreu neste sábado, em SP, o psiquiatra José Angelo Gaiarsa

tive a honra e a grande felicidade de ter sido sua aluna... foi uma das experiências que marcaram para sempre meu aprendizado para além do aspecto profissional, mas para toda uma nova perspectiva da minha vida!


16/10/2010 - 14h17
JAMES CIMINO
DE SÃO PAULO
Morreu neste sábado aos 90 anos o médico psiquiatra José Angelo Gaiarsa. Segundo sua neta Laura, Gaiarsa morreu em São Paulo por volta das 5h enquanto dormia. A família ainda não sabe a causa da morte.  O corpo será enterrado no cemitério da Assunção, em Santo André, onde o psiquiatra nasceu. José Gaiarsa era divorciado e deixa três filhos e oito netos.
Nascido em 19 de agosto de 1920, Gaiarsa sempre será lembrado como um iconoclasta, conforme disse seu filho Flávio à Folha.
Zeca, como era conhecido pelos amigos, falava muito contra a estrutura familiar clássica, segundo ele a maior geradora de neuroses nos indivíduos, e apoiava abertamente, em redes de rádio e TV, a liberdade feminina já na década de 1960.
Clinicou por mais de 50 anos, publicou 30 livros e por dez anos teve um quadro de televisão em que esclarecia dúvidas dos telespectadores.
Vindo de Santo André, de uma família de seis irmãos e irmãs, entrou na Faculdade de Medicina da USP em primeiro lugar, posição que manteve por toda a graduação.
Casou-se com Maria Luiza Martins Gaiarsa, cirurgiã e colega de turma, com quem teve quatro filhos homens: Flávio, Marcos (já morto), Paulo e Dácio. Separou-se em uma época em que o rompimento das relações matrimoniais era controverso.
Foi introdutor de Carl Gustave Jung e William Reich no Brasil, psicanalistas ideólogos da revolução sexual.
Seu primeiro livro, "A Juventude Diante do Sexo", veio a partir de um artigo de capa para a revista "Realidade" sobre o comportamento sexual da juventude que passava por profundas modificações.
Seu último livro publicado foi o "Meio século de Psicoterapia". Atualmente, estava revisando para reedição a obra "Respiração, Angústia e Renascimento".
Seu último prêmio foi do International Academy of Child Brain Development,do Institute for the Achievent of Human Potential, decorrente de um trabalho recém concluído sobre o desenvolvimento físico, cerebral e emocional das crianças. 

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/815615-morre-em-sao-paulo-o-psiquiatra-jose-angelo-gaiarsa.shtml

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

o e-mail da minha amiga


 

o fato de postar aqui, não quer dizer que estou concordando em tudo com minha amiga, mas adoro e admiro essa paixão de entender o mundo.
É uma das leituras possíveis, interessante é termos várias perspectivas e aprendermos a tomar nossas próprias decisões e posturas.
citando S. :  "Também procuro fazer sinceramente a minha parte na vida. Serra não me convence e Dilma ainda não... Minha escolha não foi de agora, vem de algum tempo e acho que a "onda verde" pode ser reacionária sim de um determinada ponto de vista, que pode estar certa:  eu não compartilho. E como todo movimento político essa onda serve aos dois lados..."

Para mim, isso é democracia.

from B.:
Meninas (também mando esta msg em outro mail para outras pessoas)

Estou extremamente preocupada com uma coisa. Faz parte de mim, não adianta... Passado o domingo das eleições, após tanta sacanagem da mídia, pensei, chega! Não quero saber de mais nada até 31 de outubro, ficarei esperando alienadamente (como se isso fosse possível pra mim), e torcendo para ver minha candidata (Dilma) como vencedora. Aquela coisa de ter que aguentar a enxurrada de manipulações e etc. É insuportável. No entanto, não dá pra dormir sossegada, impossível, pois há muito mais coisa entre o céu e a terra (literalmente) do que possamos imaginar. E é esta a razão que me faz escrever agora.
Acabada a "onda verde" e após a ressaca eleitoral, começam a aparecer de onde vieram os tantos votos da candidata Marina. A questão que levanto aqui não tem nada a ver com os votantes, digamos assim, não consigo pensar numa palavra, "originais", assumidos, da Marina. Cada um tem direito ao seu voto e vcs que me conhecem sabem que eu nem precisaria estar aqui explicando isso.
Marina Silva é uma mulher inteligente e política, sabe muito bem que o PSDB se apropriou de sua imagem e a mídia fez a festa criando uma suposta onda verde. Eles sabiam de antemão que Serra tem uma rejeição enorme (todo mundo que tem memória sabe o que foi o governo FHC e o que representou o psdb no poder. Eu particularmente fico arrepiada só de lembrar). A jogada era trazer votos pra Marina e tirar da Dilma, levando Serra ao segundo turno.
Atrás da "onda verde" criada para atrair votos, incluindo uns votos de "protesto"( que eu ainda me pergunto de que??) também estava uma onda muito maior, reacionária e conservadora, também induzida pelos tucanos, infiltrada nas igrejas, principalmente as evangélicas pentecostais.
Antes que me julguem em surto paranóide :-) digo que muita gente séria saiu a cata de saber de onde vieram os tantos votos da candidata Marina. Não que ela não os pudesse ter, mas em tão pouco tempo, o que teria acontecido? São fenômenos que precisam ser explicados, até para entender o perfil dos eleitores. E o que se vê hoje em massa na Internet? Nos blogs, no twitter, no you tube, etc... Pastores pedindo voto contra Dilma, em favor de Marina, dizendo ser a Dilma contra a vida, a favor do aborto. Satanizada. Que interessante ouvir esse termo hoje, século 21. Qualquer semelhança com a inquisição não é mera coincidência. Ainda podemos ser sim, muito conservadores e reacionários. E isso também veio da ala conservadora dos católicos. Poderia colocar aqui dezenas de links, desde blog de pastores à posições até de algumas regionais da cnbb em favor da "vida".
Tudo isso começou após um debate na Folha onde se discutiu a questão do aborto. A partir daí, Serra já estava cantando hino no púlpito de uma igreja evangélica, mostrando ele em família e sendo distribuídos panfletos que afirmavam uma plataforma "satanizada" sobre Dilma.
Paranóia??? The truth is out there!!!! Não é à toa que eu adorava The X FIles!!!
Agora, além da minha preocupação da possibilidade em ver o país retroceder com o psdb, ainda tenho uma preocupação ainda maior: para onde esse pêndulo vai apontar??? Já imaginaram a força do conservadorismo? Os católicos são mais independentes. Os que são conservadores são e pronto. O restante não acata se não quiser fazê-lo. Mas os pentecostais, nossa! São cordeiros mesmo! Tenho ouvido esses dias histórias de mudança de voto por pedido do pastor, etc. Porque o pastor falou que Dilma é satanizada, terrorista, mata criancinha. Isso é assustador!!!
É, os votos da Marina que levaram ao segundo turno não foram fruto de uma onda verde, mas de uma onda requintada de conservadorismo, misturada com manipulação política, troca de favores, etc para tentar eleger o candidato tucano.
E agora Marina? Perguntava um artigo muito bom que li. Com seu histórico e seu passado, não era para ela estar em cima do muro agora. Ao contrário. Marina teria praticamente obrigação de apoiar Dilma. Desfazer o uso que fazem de sua figura e respeitar sua trajetória de postura política social nascida no PT. É pensar qual direção melhor se aproxima de seu passado e dos seus interesses sociais.
E agora, nós também! De que maneira vamos segurar esse pêndulo? Para onde vamos soprá-lo? Com o que vamos compactuar? Onde temos mais chances de sermos progressistas e mantermos nossos ideais abertos a construção de uma nação livre?
Não foi à toa que estudei psicologia, não foi à toa que me dediquei a análise institucional, não foi à toa que me sensibilizei com tantos professores torturados, que me sensibilizo com o sofrimento fabricado pela produção social de subjetividades hegemônicas no meu trabalho.
Não vou permitir que isso se propague (pelo menos vou tentar). Não vou permitir que minha luta tenha sido em vão.
O meu pêndulo vai se dirigir para a liberdade, para a vida. Sim. Vida! Hoje, ainda mais do que ontem, voto na Dilma!
bjs B.


DOIS PESOS…

Maria Rita Kehl
no jornal O Estado de S.Paulo

Este jornal teve uma atitude que considero digna: explicitou aos leitores que apoia o candidato Serra na presente eleição. Fica assim mais honesta a discussão que se faz em suas páginas. O debate eleitoral que nos conduzirá às urnas amanhã está acirrado. Eleitores se declaram exaustos e desiludidos com o vale-tudo que marcou a disputa pela Presidência da República. As campanhas, transformadas em espetáculo televisivo, não convencem mais ninguém. Apesar disso, alguma coisa importante está em jogo este ano. Parece até que temos luta de classes no Brasil: esta que muitos acreditam ter sido soterrada pelos últimos tijolos do Muro de Berlim. Na TV a briga é maquiada, mas na internet o jogo é duro.


Se o povão das chamadas classes D e E – os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil – tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola.

Uma dessas correntes chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por “uma prima” do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família. Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente. Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo. R$ 200 é o valor máximo a que chega a soma de todos os benefícios do governo para quem tem mais de três filhos, com a condição de mantê-los na escola.

Outra denúncia indignada que corre pela internet é a de que na cidade do interior do Piauí onde vivem os parentes da empregada de algum paulistano, todos os moradores vivem do dinheiro dos programas do governo. Se for verdade, é estarrecedor imaginar do que viviam antes disso. Passava-se fome, na certa, como no assustador Garapa, filme de José Padilha. Passava-se fome todos os dias. Continuam pobres as famílias abaixo da classe C que hoje recebem a bolsa, somada ao dinheirinho de alguma aposentadoria. Só que agora comem. Alguns já conseguem até produzir e vender para outros que também começaram a comprar o que comer. O economista Paul Singer informa que, nas cidades pequenas, essa pouca entrada de dinheiro tem um efeito surpreendente sobre a economia local. A Bolsa-Família, acreditem se quiserem, proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos. O voto da turma da “esmolinha” é político e revela consciência de classe recém-adquirida.

O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contrário do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um salário mínimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consciência de seus direitos, hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições. Vale mais tentar a vida a partir da Bolsa-Família, que apesar de modesta, reduziu de 12% para 4,8% a faixa de população em estado de pobreza extrema. Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200? Quando o Estado começa a garantir alguns direitos mínimos à população, esta se politiza e passa a exigir que eles sejam cumpridos. Um amigo chamou esse efeito de “acumulação primitiva de democracia”.

Mas parece que o voto dessa gente ainda desperta o argumento de que os brasileiros, como na inesquecível observação de Pelé, não estão preparados para votar. Nem todos, é claro. Depois do segundo turno de 2006, o sociólogo Hélio Jaguaribe escreveu que os 60% de brasileiros que votaram em Lula teriam levado em conta apenas seus próprios interesses, enquanto os outros 40% de supostos eleitores instruídos pensavam nos interesses do País. Jaguaribe só não explicou como foi possível que o Brasil, dirigido pela elite instruída que se preocupava com os interesses de todos, tenha chegado ao terceiro milênio contando com 60% de sua população tão inculta a ponto de seu voto ser desqualificado como pouco republicano.

Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos.
 
 
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20101002/not_imp618576,0.php

QUESTIONAMENTOS

(...parte de uma conversa por e-mail com várias amigas/irmãs)
mas ainda tenho umas questões mal resolvidas com o PT atual, mesmo execrando com todo meu ser qualquer coisa relacionada as propostas políticas que venham do PFL (piadinha histórica)
o PT que eu amava tinha Frei Beto, Florestan Fernades, o próprio Plínio....
e não tinha Erenice, José Dirceu, Genoíno, coisas que a gente foi vendo acontecer ao longo desses oito anos...
espero poder ter outras interlocuções como essa que vc nos proporcionou, com amigos fraternos que confio e respeito a opinião, para pesar meu voto no dia das Bruxas, rsrs...
Fiquei feliz, pq votei no Chico Alencar e no Freixo, que deram uma lição pros políticos que usam a máquina perversa e ainda tem na militância consciente seu trabalho nas ruas... e tiveram tb votações históricas. 
Ao optar trabalhar na clínica, sempre tentei nortear minha prática para que tal não fosse um processo elitista, atendendo na medida do possível qualquer pessoa que batesse na minha porta, não associando preço de consulta com o ato terapêutico, por exemplo.
Minha luta foi numa outra instância, fortalecendo sempre a individuação, a cidadania, buscando tb um espaço onde a escuta de alguém que tivesse "oprimido" conseguisse desabrochar...
Sempre trabalhando tb em instituições sem fins lucrativos, trabalhos voluntários... não me fechar numa redoma...
como disse X, não é a toa que somos sisters...
como é bacana estarmos trocando isso aqui... mesmo sem termos todas as respostas...
bjs no seu lindo coração, força pra seu bom combate,
que a Força esteja com vc
servindo de inspiração e de certa forma guia pra gente,
Muss

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

A ética da alegria e o fim da tirania

Regina Schöpke

Quando o filósofo Clément Rosset afirma, a respeito de Nietzsche, que “a alegria é a força maior”, ele deseja mostrar que a alegria não é um sentimento dentre outros, mas a força motriz que nos impele à vida, uma espécie de grande “sim” à existência em todas as suas facetas. Afinal, este sentimento envolve todos os nossos sentidos e nos fortalece de tal maneira que, uma vez alegres, nada mais parece pesar em nós.

É que a alegria, quando vivida em profundidade, não deixa espaço para mais nada — razão pela qual Leibniz a definia como um sentimento totalizante que, estando presente, domina todos os demais. Totalizante ou apenas dominante, a alegria, para Nietzsche, é a força que nos coloca em movimento, é aquilo que nos faz agir, é o que nos faz querer viver.

É claro que nem todos entendem a alegria deste modo. Para muitos, ela é apenas um ímpeto passageiro, uma sensação fugaz de contentamento e júbilo, algo que apenas contrasta com a dor, geralmente considerada mais permanente e profunda.

Porém, para filósofos como Nietzsche e, sobretudo, Espinosa, ela é um sentimento vital, afirmativo, que se confunde com a própria potência de existir.

Neste caso, ela pode ser definida como uma disposição favorável com relação à vida. Eis porque o homem alegre é sempre alegre, mesmo quando está triste (ao contrário do homem angustiado, que sempre é angustiado mesmo quando tem motivos para estar alegre).

Em poucas palavras, é preciso que se entenda que sem alegrias o corpo vai adoecendo e a paralisia das ações torna-se inexorável.

É a ocasião certa para a angústia se instalar e afunilar nossa percepção da vida. Porque é isto exatamente a angústia: uma sensação ou sentimento de vazio, de incompletude, de insignificância, uma espécie de afunilamento, de perda de perspectiva, de indisposição com a vida. É quando o niilismo se instala no âmago do ser e a própria vida é vista como nada.

Espinosa usa o conceito de “conatus” para definir esta força de existir inerente a cada ser (que aumenta e diminui ao longo da existência em função dos encontros alegres ou tristes que fazemos). É por isso que Nietzsche afirma que os pessimistas e niilistas, ao julgarem a vida má e pesada, nada mais fazem do que revelar sua própria impotência e fraqueza diante dela.

Sem dúvida, é de grande valor para estas reflexões o conhecimento genealógico do conceito de alegria (que ora foi pensado como um movimento da alma, ora como paixão, afecção, pulsão, emoção fundamental ou simples prazer da mente). E, neste caso, o livro “A história da alegria — Da Bíblia ao Romantismo tardio”, de Adam Potkay (Editora Globo), é uma boa fonte de informação. Potkay, que deixa claro que sua intenção não é buscar uma definição para a alegria em si mesma, mas, sim, mostrar o aspecto cultural de um sentimento que é também um conceito e uma palavra, parte do pressuposto de que os cristãos protestantes, ao contrário dos católicos, teriam posto a alegria no centro de suas preocupações (provavelmente por se negarem a levar uma existência terrena só de privações e sofrimentos).

Potkay, no entanto, não se priva de dar sua própria interpretação da alegria e se alia àqueles que a vêem como um sentimento fugaz, que emerge como uma pausa na dor da existência.

Trata-se, para ele, de uma sensação passageira que inebria os sentidos e a mente.

Definição um tanto schopenhaueriana, sem dúvida: afinal, a alegria é vista mais como exceção do que regra numa vida pensada como dor e sofrimento.

Mas isto não é tudo. Potkay define a alegria como um “deleite da mente”, o que significa dizer que ele tende a racionalizá-la e, assim, sentir-se alegre é, sobretudo, saber-se alegre. De fato a leitura do livro nos mostra como o conceito vai assumindo variadas formas e nuances (na poesia, na literatura, na filosofia ou na religião).

É aqui que saímos do universo histórico de Potkay e mergulhamos de novo nas reflexões filosóficas de Espinosa e Nietzsche.

Afinal, é preciso compreender a alegria do ponto de vista de sua ontologia, de sua realidade, é preciso entendê-la como uma forma de resistência, de enfrentamento do mundo e de suas falsas promessas de felicidade.

É aí que a leitura da “Ética” de Espinosa torna-se essencial para nos fazer entender como a busca dos bons encontros é fundamental para nos tornar mais fortes e livres. Na verdade, a lógica da vida (ou da potência) é simples: a alegria aumenta nosso poder de existir, aumenta o nosso “conatus”, enquanto a tristeza diminui nossas forças, nosso poder de ação.

Não existe uma regra para o que nos fortalece: pode ser uma bela música, um grande amor, uma amizade profunda, a filosofia, um afeto animal e até mesmo os prazeres mais simples do corpo, que foi sempre tão violentamente esmagado por uma moral hipócrita que condena as alegrias físicas em nome das alegrias “metafísicas”. Seja como for, é preciso buscar o que nos potencializa, porque é a fraqueza que alimenta os tiranos, diz Espinosa.

Eis que estamos diante de uma questão política e existencial das mais profundas: a tirania domina pela força, e também pelas ideias, os que estão fracos e impossibilitados de lutar.

As religiões, por exemplo, dominam os homens infundindolhes o medo da morte e dos castigos eternos.

Em suma, falar em uma ética da alegria é falar em uma ética da potência, uma ética que busca produzir homens mais fortes e plenos para a vida, ou seja, homens verdadeiramente livres.


REGINA SCHÖPKE é filósofa, historiadora e autora dos livros “Por uma filosofia da diferença” e “Matéria em movimento”. Atualmente, dedicase ao estudo da alegria, definida, antes de tudo, como potência de vida e de enfrentamento do mundo
 
 

PROSA&VERSO - 04/09/2010

Altos e baixos  

Numa época de oscilações entre a euforia e a depressão, que sentido ainda pode ser tirado das ideias de tristeza e felicidade?

sábado, 25 de setembro de 2010

A melancolia epidêmica


Orlando Coser


O século XX assistiu à emergência de uma nova cultura no enfrentamento dos males da alma. Em parte ela se deve à criação dos medicamentos psicotrópicos, cujo primeiro representante entrou no mercado em 1952. Estava aberta a temporada dos psicofármacos, que modificariam completamente o tratamento dos distúrbios da alma. Aparecia uma nova classificação química, a dos antipsicóticos, usados inicialmente no tratamento da esquizofrenia ou estados de intensa agitação psicomotora.
Este primeiro medicamento e seus sucessores teriam, desde então, revolucionado a psiquiatria.

Esta, entretanto, é apenas a narrativa sancionada pela indústria e pelo discurso acadêmico dominante, e não a verdade última deste campo. Nesse novo universo da psicofarmacologia, a indústria se esmerou na produção de metáforas — os discursos científicos e mercadológicos criados especificamente para falar dos efeitos dos novos medicamentos e suas indicações.

Uma vez que os efeitos obtidos com os novos medicamentos inauguravam novidades para as quais não existiam nomes, era preciso inventar formas de designá-los. Da junção entre substância e metáfora, nascem os numerosos estabilizadores, tranquilizantes, antidepressivos, neuromoduladores, antagonistas da serotonina… A l é m d e sintetizar novas substâncias, testá-las, e p r o d u z i r medicament o s , t ê m s e que produzir metáforas conceituais, argumentos e hipóteses científicas para dar aval às novas drogas.

Assim, o primeiro antipsicótico foi chamado de “estabilizador neurovegetativo”; o primeiro “antidepressivo”, de “energizante psíquico”. Os aparentes exageros ficam quase camuflados no discurso intensivo dos departamentos de marketing da indústria. Um bom exemplo é a “descoberta”, recente, de uma doença que se convencionou chamar de fobia social.

“Imagine ser alérgico a gente”, provoca a campanha de divulgação desta inovação diagnóstica, feita sob medida para um medicamento.

Suas vendas saltaram de 2,1 para 3,31 bilhões de dólares, em um ano. O departamento de marketing do laboratório não se preocupou em camuflar intenções, na apresentação do novo produto: “Todo comerciante tem o sonho de encontrar um mercado não identificado para desenvolvê-lo. Isso é o que nós fomos capazes de fazer com o transtorno de ansiedade social”. A luminosidade desta afirmação revela o tumultuado espectro do campo da saúde mental, agora totalmente sob o domínio da indústria ou, melhor dizendo, do capital industrial que lhe pede remuneração imediata.

O principal efeito desta estratégia mercadológica é o menosprezo à clínica médica e psicológica.

Parte do saber, da ciência, da tradição médica, é substituída pelo convencimento através de ampla ação de marketing, destinada não só a profissionais de saúde como, a partir de comunicação direta, a leigos.

A indústria assume a tarefa de instruir médicos e pacientes no desempenho do papel que lhe interessa. Para bem vender os produtos que fabrica, o marketing fomenta a sintomatização do viver. Os pacientes são instruídos a produzir sintomas e os médicos, a prescrever. Somos instruídos sobre determinados códigos comportamentais, e com eles aprendemos a diagnosticar, traduzir e entender certas queixas. Tudo embalado com argumentos científicos.

Estas instruções criam formas de percepção, julgamento e ação sobre determinadas questões, criam-se hábitos de consumo e comportamento.

Dos anúncios de medicamentos dos anos 1950 prometendo “reduzir os primitivos ímpetos de luta e fuga”, ou os sugeridos para amenizar nas crianças seu “ânimo contestador”, vemos nos últimos anos um crescimento exponencial desse marketing, em que as pessoas não ficam mais apenas tristes, desanimadas, fatigadas, angustiadas, aflitas. Agora elas são classificadas com diagnósticos graves de depressão, pânico, TOC. E o número de pessoas atendidas como depressivas não para de crescer. Os psicofármacos alteram os conceitos que fazemos de saúde, doença, sofrimento, bem estar, e a maneira como representamos nossos estados afetivos.

Dificuldades cotidianas viram sintomas patológicos.

A depressão, doença de importância indiscutível, transformouse numa febre que atinge quase 25% da população, quando, em 1960, era diagnosticada para 1% dos doentes. Mais uma vez, essa expansão não é determinada por um apuro no diagnóstico, e sim pela prescrição generalizada de medicamentos.

Os portadores reais dessa doença se misturam aos milhões que são de alguma forma vítimas do marketing farmacêutico.

Um dos argumentos já absorvidos por grande parte de profissionais e leigos afirma que a depressão seria o resultado de um desequilíbrio neuroquímico.

Embora questionável, o dogma é muito usado porque funciona como um modelo conceitual que instrumentaliza a pesquisa e o discurso científico da psiquiatria. Atualmente, tudo se passa como se um deprimido fosse quem padecesse de falta de serotonina. E, consequentemente, carecesse de um medicamento destinado a suprila. Todos os antidepressivos anunciam corrigir o desequilíbrio da balança neuro-hormonal, resultando que a venda destes medicamentos alcançasse cifras bilionárias.

Para ampliar a expansão do uso dos psicofármacos, o século XXI assiste a uma nova metáfora, a categoria “transtornos comportamentais”, genérica o suficiente para não ter limites, porém específica o bastante para indicar um problema a ser resolvido. Ideal para pediatras e clínicos gerais, induzidos a esta prescrição não padronizada (off-label). Idosos e crianças são o segmento da vez. Pesquisas americanas e inglesas alertam, entretanto, que se prescrevem antipsicóticos para crianças sem qualquer receio de efeitos colaterais, mesmo que tardios. Pesquisa documentam, entre 1995 e 2006, o crescimento do número de consultas médicas para clientes entre 2 e 18 anos, em que um psicotrópico da classe dos antipsicóticos fosse indicado, detectando um salto nestas prescrições de 8,6 por 1000 consultas em 1995 para 39,4 por mil em 2002. Com o agravante de 67% das indicações terem sido feitas por médicos não especializados em psiquiatria ou neurologia.


ORLANDO COSER é psiquiatra e psicanalista, doutor pela PUC-SP, e autor de “As metáforas farmacoquímicas com que vivemos” (Garamond)






PROSA&VERSO - 04/09/2010

Altos e baixos  

Numa época de oscilações entre a euforia e a depressão, que sentido ainda pode ser tirado das ideias de tristeza e felicidade?

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Como Surgiu a Oração de São Francisco

Olha que nem sou católica, mas é que amo essa prece, e como tudo que está escrito aqui, faz parte desse quebra-cabeça que faz parte de mim, então aqui vai mais um pedacinho do que sou ...
qd fiz a Faculdade de História, uma das coisas que mais quis estudar durante as cadeiras da Idade Média foi a bio do Francisco, que nasceu em Assis... e vcs sabem de uma coisa super interessante? fiquei bem frustrada, pq fui conhecendo um monte de coisas sobre ele, uma delas é que ele pessoalmente nunca escreveu praticamente nada, que nem Platão, que tinha Sócrates como discípulo (ou vice-versa, eu sempre me confundo,rsrs...) e foi um dos seguidores do Francisco que compilou grande parte de tudo que ele falava ou fazia, inclusive as belas preces que ele proferia... comprei um livro de um dos mais proeminentes historiadores franceses, Le Goff, expert em História Medieval, e em nenhum trecho tem a famosa prece que tanto amamos... e minha frustração foi imensa, só crescia...

e desandei a pesquisar mais.... sem querer parecer carola na faculdade, fui correr atrás de bibliografia cada vez mais, até que me deparei com um livro do Boff, só sobre essa oração, contando que ela nunca, de verdade, foi proferida por ele, mas encarnava de forma tão perfeita os ideais franciscanos que foi atribuída imediatamente a esse grande espírito... para mim, ela é perfeita, precisa e preciosa... mais uma razão pra eu acreditar que há mais coisas entre a terra o céu que possa crer nossa vã filosofia...
o certo é que já está provado por pesquisas, que a prece, qualquer uma, muda nossos padrões mentais, fortalece nossa alma e faz um bem danado...


Não raro, as grandes coisas têm origem humilde. O Amazonas, o maior rio da Terra em volume de água, nasce de uma insignificante fonte entre duas montanhas de mais de cinco mil metros de altura ao sul de Cuzco, no Peru. O São Francisco, o rio da unidade nacional, se origina de uma pequeníssima fonte no alto da Serra da Canastra em Minas Gerais. Lentamente as águas vão se somando a outras águas até formarem rios caudalosos que deságuam no vasto mar.
Algo semelhante ocorreu com a Oração pela Paz. Nasceu anônima, na periferia, sem que ninguém lhe desse importância especial. Aos poucos, seu conteúdo belo e inspirador foi acalorando corações e acendendo mentes. Como um raio de luz que segue seu curso pelos espaços sem fim, a Oração pela paz foi se difundindo até ganhar o mundo inteiro.
Nela tudo é verdadeiro e convincente. É tão simples que pode ser compreendida por todos. É tão recitada por crianças budistas no Japão, por monges taoístas no Tibete, por mulçumanos no Cairo, por babalorixás em Angola, por papas cristãos em Roma, pelos fiéis das comunidades de base na América Latina e até por operários em manifestações e greves. Todos sentem que esta oração traduz, de forma extremamente inspirada, desejos ancestrais da humanidade. Ela vem ao encontro de demandas por paz e tolerância, imprescindíveis para a perigosa travessia que fazemos atualmente do local ao global, do nacional ao planetário, das muitas sociedades a uma única sociedade mundial.
Quando aparecem orações com tal nível de inspiração e de universalidade, é sinal de que têm como autor o próprio Espírito Santo. Ele costuma atuar de forma anônima na suavidade dos corações abertos ao divino. Assim deve ter atuado no autor desconhecido que, cheio de ardor espiritual, deu forma à oração posteriormente atribuída a São Francisco de Assis.
A Oração pela Paz apareceu pela primeira vez em 1913 numa pequena revista local da Normandia, na França. Vinha sem referência de autor, transcrita de uma outra revista tão insignificante, que nem deixou sinal da história, pois não foi encontrada em nenhum arquivo da França.

Da periferia para o centro

A Oração de São Francisco se universalizou a partir de sua publicação no Ossevatore Romano, órgão oficioso do Vaticano, no dia 20 de janeiro de 1916. No dia 28 de janeiro do mesmo ano foi publicada no conhecido diário católico francês La Croix. Era o tempo da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e por todas as partes faziam-se orações pela paz.

Como a Oração pela Paz ou a Oração de São Francisco chegou ao Vaticano para daí começar sua difusão pelo mundo?

Por toda a cristandade, nas dioceses e paróquias, faziam-se fervorosas orações pelo fim da guerra que devastava e envergonhava a Europa, berço da assim chamada civilização ocidental e cristã. O fundador do semanário católico Souvenir Normand, Marquês de la Rochetulon, enviara ao Papa Bento XV várias orações pela paz. Não se sabe se eram de sua autoria ou se as recolhera entre as que circulavam no meio do povo.
É sábio que essas orações chegaram ao Papa porque existe o bilhete do importante Cardeal Gasparri agradecendo ao Marquês de la Rochetulon em nome de Bento XV. Aí se faz interessante revelação: todas as orações, inclusive essa de São Francisco, eram dirigidas ao Sagrado Coração de Jesus, devoção introduzida em toda a Igreja no final do século XIX.
Com essa devoção ao Sagrado Coração de Jesus se pretendia resgatar uma dimensão esquecida no cristianismo tradicional: a riqueza da santa humanidade de Jesus, de seu amor incondicional, de sua misericórdia, de seu enternecimento para com todos, especialmente para com os pobres e os pecadores, as crianças e as mulheres.

De Oração pela Paz a Oração de São Francisco

Por que essa Oração pela Paz passou a ser chamada de “Oração de São Francisco”?
Por uma simples casualidade histórica que, no entanto, encerra um significado revelador. Pois há entre as características do Coração de Jesus e as características de São Francisco uma conaturalidade surpreendente. Não sem razão São Francisco é chamado de “o Primeiro depois do Único” ou o Alter Christus, o outro Cristo.
Pouco tempo depois da publicação da oração pela Paz em Roma, um franciscano, Visitador da Ordem Terceira Secular de Reims, na França, mandou imprimir um cartão tento de um lado a figura de São Francisco com a regra da Ordem Terceira Secular na mão e do outro a Oração pela Paz, com a indicação da fonte: Souvenir Normand. No final uma pequena frase dizia: “essa oração resume os ideais franciscanos e, ao mesmo tempo, representa uma resposta às urgências de nosso tempo”. Essa pequena frase se tornou o elo revelador. Permitiu que a oração deixasse de ser apenas Oração pela Paz para ser também conhecida como “Oração de São Francisco” ou a Oração da Paz de São Francisco de Assis.
Assim, essa oração passou a ser, simultaneamente, um resumo da devoção ao Sagrado Coração de Jesus e da espiritualidade franciscana. Curiosamente a oração de consagração ao Sagrado Coração de Jesus publicada por Leão XIII em 1899 tem uma estrutura semelhante à atual Oração de São Francisco, especialmente as tríades: discórdia/união, erro/verdade, trevas/luz.
As demais contraposições ódio/amor, ofensa/perdão, dúvida/fé, desespero/esperança, tristeza/alegria estão ancoradas na pregação de Jesus e na sua prática libertadora. Sua presença e sua palavra transformam a realidade: onde há ódio surge o amor, onde há ofensa aparece o perdão, onde há dúvida irrompe a fé, onde há desespero nasce a esperança e onde há tristeza sorri a alegria.
A segunda parte – “fazei que eu procure mais consolar, que ser consolado; compreender, que ser compreendido; amar, que ser amado” – constitui uma característica fundamental do cristianismo, a completa abnegação de si mesmo e daquilo que nos é mais caro para poder radicalmente servir o outro.
A terceira e última parte – “pois é dando que se recebe; é perdoando que se é perdoado; e é morrendo que se vive para a vida eterna” – é igualmente fundada nos textos do Evangelho:

- daí e vos será dado (Lc 6, 38)
- perdoai e sereis perdoados (Lc 6, 37)
- quem procurar preservar a vida, há de perde-la, e quem a perder, há de conserva-la (Lc 17,33)
- quem ama sua vida acabará perdendo-a; mas quem odiar sua ida neste mundo vai guardá-la para a vida eterna (Jô 12, 25)

Conclusão: o grande parentesco entre a devoção ao Sagrado Coração de Jesus e a devoção a São Francisco de Assis permitiu que as características de uma fossem atribuídas ao outro. Isso nos faz lembrar a famosa frase do Padre Antônio Vieira em seu sermão sobre as Chagas de São Francisco: “Vesti Cristo e tereis Francisco, desvesti Francisco e tereis Cristo.”

Essa conaturalidade aparece, por exemplo, nos escritos de São Francisco chamados Admoestações, em especial na de número 27. Aí encontramos nítido o espírito da Oração pela Paz:

“Onde há amor e sabedoria não há medo nem ignorância.
Onde há paciência e humildade não há ira nem perturbação.
Onde há pobreza e alegria não há cobiça nem avareza.
Onde há paz e meditação não há desassossegado nem dissipação.
Onde o temor de Deus guarda a casa, o inimigo não encontra portas.
Onde há misericórdia e descrição não há excesso nem dureza de coração.”
Aparece também na oração de um dos discípulos mais místicos e profundos de São Francisco, o beato Egídio de Assis:

“Se amares, serás amado;
Se venerares, serás venerado;
Se servires, serás servido;
Se tratares bem os outros, serás também bem tratado.
Entretanto,
Bem-aventurado aquele que ama sem ser amado,
Bem-aventurado aquele que venera sem ser venerado,
Bem-aventurado aquele que serve ser servido,
Bem-aventurado aquele que trata bem a todos sem ser bem tratado.”

Eis espelhada aqui a força do amor incondicional. Amor pelo valor intrínseco do ato de amar, sem esperar qualquer retribuição. Esse é o amor que Deus tem para com seus filhos e filhas, mesmo ingratos e maus. Esse, o amor do Sagrado Coração de Jesus. Esse, o amor que incandesceu São Francisco. Esse, o amor que consome todos os místicos como São João da Cruz ou o Sufi Rumi. Esse, o amor que salva eternamente qualquer pessoa, funda a paz, redime o mundo e constitui o sentido secreto do universo.

Fonte: Livro A Oração de São Francisco, Leonardo Boff.

http://www.matrizsaofrancisco.com.br/temasview.php?id=5

terça-feira, 21 de setembro de 2010

O Dom de Esquecer....

A gente não sabe como se lembra das coisas, nem como as esquece... Noberto Bobbio tem uma frase que diz que a gente é o que a gente lembra. E quase todas as ciências psis tb (pensando bem, quase toda a área humana do conhecimento é baseada nas memórias, reminiscências, no que é passado de geração pra geração, na Biblioteca Perdida de Alexandria, na sabedoria acumulada ao longo do nosso processo Histórico,  and so on... ).

O mais muderno agora, e que a neurociência está provando, é que nossa memória está programada também para surpreendentemente esquecer.  Que o saudável é não se lembrar de tuuudo, precisamos esquecer coisas,  e de verdade são as coisas  banais, do  cotidiano, senão soçobramos com as informações inúteis que iríamos acumular. Se alguém me perguntar a roupa que o paciente estava vestindo na consulta da semana passada, provavelmente eu vou perguntar se ele até estava vestido, rsrs....  Mas sou capaz de lembrar coisas que a gente conversou há um, dois, três anos atrás.  De um livro que eu li, dez anos depois, até da posição na página que o trecho que eu estava procurando por alto pode estar tal citação... Coisas desde uma infância muito precoce, meu irmão chegando da maternidade, quando eu tinha uns dois anos de idade.

Mas o que faz a gente "escolher" o que quer exatamente guardar?  O principal fator é a carga emocional atrelada a um evento.  Outro é a repetição, quantas vezes aquele fato aconteceu com a gente, ou a gente repetiu um movimento, uma função, uma respiração, um olhar, uma palavra...  Outras vezes somos escolhidos pela vida, pra tentar entender um porquê, uma perda, uma dor, uma lágrima, algo que não paramos de pensar e não entendemos racionalmente, mas o sentimento não sai do nosso peito, até que ele vai desaparecendo de mansinho, deixando pra trás somente uma cicatriz que vai abrandando com o tempo, até nos esquecermos que ela existe, como uma memória, que ocupa algum lugar, em algum momento, fugaz.

Betty Milan escreveu na Veja de 01/09/2010 que "um dos maiores desconsolos é a perda do ser amado. O desconsolo da perda. Só superamos a tristeza quando entendemos que perder não é sinônimo de não ter... fazer o luto é entender que a morte não anula a existência... [podemos] rememorar em vez de lamentar a falta."  Adorei tirar esses pensamentos do artigo dela e alinhar com esses pensamentos sobre a memória.  Dá uma idéia da continuidade da existência, da luta diária que temos, em prol da vida que perdura, e perdurará, mesmo que esse meu EU não mais aqui esteja.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Ai de nós, quem mandou?

MARTHA MEDEIROS

Mulheres ganham salários menores do que os dos homens, e líderes feministas seguem lutando para reverter essa injustiça. Mas já não sei se é boa ideia continuar batalhando por igualdade. Depois de ler o resultado de uma recente pesquisa feita pela Universidade de Harvard, fiquei inclinada a pensar que talvez seja melhor manter as coisas como estão. A pesquisa chama-se Schooling Can’t Buy Me Love (Escolaridade não pode me comprar amor) e confirma que mulheres que estudam mais acabam progredindo e, quanto mais bem-sucedidas, menores as chances de se casar. Os homens ainda não estão preparados para abrir mão da superioridade que o papel de provedor lhes confere. E mesmo os mais antenados, que apoiam que suas mulheres sejam independentes, ficam inseguros se elas tiverem cargos de chefia e muita visibilidade. Ganhar dinheiro, tudo bem, mas aparecer mais do que eles já é desaforo.

Beleza. O que vamos dizer para nossas filhas? Estudem, mas fazer doutorado e mestrado é exagero, antes um bom curso de culinária. Tenham opiniões próprias quando conversarem com as amigas, mas em casa digam só “ahã”, para não se incomodar. Usem seu dinheiro para comprar roupas, pulseiras e esmaltes, esqueçam o investimento em viagens, teatro e livros. E, na hora de se declararem, troquem o “eu te amo” por “eu preciso de você”, “eu não sou ninguém sem você”, “eu não valho meio quilo de alcatra sem você”. Homens querem se sentir necessários. Só amados não serve.
Que encrenca que as feministas nos arranjaram. Estimularam o pensamento livre, a autoestima, a produtividade e a alegria de trilhar um caminho condizente com nosso potencial. De apêndices dos nossos pais e maridos, passamos a ter um nome próprio e uma vida própria, e acreditamos que isso seria excelente para todos os envolvidos, afinal, os sentimentos ficaram mais honestos, e com eles os relacionamentos. O amor deixou de ser o álibi para um lucrativo arranjo social. Passou a ser mais espontâneo, e as carências de homens e mulheres foram unificadas, já que todos precisam uns dos outros para dividir angústias, trocar carinho, pedir apoio, confessar fraquezas, unir forças no momento das dificuldades. Todos se precisam da mesma forma, não de formas distintas. Mas há quem defenda que homem só precisa de paparico e mulher de quem tome conta dela, punto e basta.
Nunca imaginei que em 2010 ainda estaria escrevendo sobre isso. Achei que os homens já tivessem percebido o quanto ganham em ter uma mulher inteira a seu lado, e não um bibelô. Acreditei que a competitividade tivesse dado lugar a um companheirismo mais saudável e excitante, onde todos pudessem se orgulhar dos seus avanços e se apoiar nas quedas, mas que iludida: isso é coisa pra meia dúzia de emancipada, filha. Essas mulheres aí que não cozinham, não passam, não lavam, só evoluem, essas não são exemplo pra ninguém, são umas coitadas de umas infelizes que pagam as contas e ainda se acham divertidas, se fazem de inteligentes, querem bater perna em Nova York, pois vão arder no fogo do inferno, vão amargar na solidão, vão se arrepender de ter lido aquela Simone de Beauvoir, vão morrer abraçadas aos seus laptops, aqui se faz, aqui se paga, escreve aí.

Tamo ferrada.

O Globo - 12/09/2010



mesmo assim não me troco por nada, por pagar esse preço até injusto, pela minha lucidez, por não viver em fugas, nas mil armadilhas que a ilusão de uma pseudoexistência pode criar de felicidade, de jogos de variadas formas e texturas, pois já vivi a loucura até a fronteira do possível e hoje estou aqui, rindo do que posso, chorando as vezes, mas verdadeira comigo mesmo até onde eu der meu último suspiro. Eu sou, verdadeiramente, ESPECIAL!, sou uma sobrevivente de acontecimentos inenaráveis, de angústias impensáveis, de horrores inconfessáveis, de traumas e violências profundas... e tenho uma doçura, sensibilidade, afabilidade, que não permito que ninguém me tire. A luz e o amor que carrego, não deixo que seja conspurcado pelo horror que eu tenha vivido, pq passando pela noite mais escura, é que se pode reconhecer a dádiva do amanhecer.  Ainda busco um amor...

PS: e ainda sei lavar, passar e cozinho direitinho... minha casa é bunitinha, desenhei eu mesma meus móveis, isto é, sou relativamente prendada... pago todas as minhas contas, tenho meu carro, e pelo que converso em relação a todas as minhas amigas, consegui vencer a maioria dos tabus sexuais que tanto atrapalham as relações, se isso não é auto-ironia... vou procurar então melhor outra definição pra essa expressão, rsrs... 

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

MÚSICAS

Não vivo sem música...
mais música, a melodia em si do que as letras... mais as letras de algumas músicas em inglês do que em português... não por pedantismo... mas por ter aprendido o idioma assim mesmo, ter estudado dessa maneira, ter adquirido vocabulário, lendo muito livros, tanto que quase não sei "ouvir", isto é, tirar letra de música, mas decorei muitas letras ao longo da vida...
Li Shakespeare no original, pra passar nas provas finais da Cultura, novamente pra ter fluência e maestria, proficiência no idioma, como eles chamam, e como a prova é chamada - proficiency in english- e da música tiro muito para a vida...
Uma vez ouvi essa definição sobre essa música: o mais belo hino à amizade que já foi escrito...
mas ao mesmo tempo ela descreve o que Santa Teresa D'Avila chama do lado negro da alma, o estado de dor e sofrimento, onde entra o consolo que só o ombro amigo sabe dar. A música é "Like a bridge over troubled water" de Simon e Garfunkel, e diz mais ou menos assim:


BRIDGE OVER TROUBLED WATER
( Ponte sobre águas revoltas )
PAUL SIMON & ART GARFUNKEL - 1970

WHEN YOU'RE WEARY, FEELING SMALL
Quando você estiver exausta, sentindo-se deprimida
WHEN TEARS ARE IN YOUR EYES
Quando as lágrimas estiverem em seus olhos
I WILL DRY THEM ALL
Eu as enxugarei todas
I'M ON YOUR SIDE
Eu estou ao seu lado
OH, WHEN TIMES GET ROUGH
Oh, quando os tempos ficarem difíceis
AND FRIENDS JUST CAN'T BE FOUND
E os amigos não mais puderem ser encontrados
LIKE A BRIDGE OVER TROUBLED WATER
Como uma ponte sobre águas revoltas
I WILL LAY ME DOWN
Eu me deitarei
LIKE A BRIDGE OVER TROUBLED WATER
Como uma ponte sobre águas revoltas
I WILL LAY ME DOWN
Eu me deitarei
WHEN YOU'RE DOWN AND OUT
Quando você estiver chateada e fora
WHEN YOU'RE ON THE STREET
Quando você estiver na rua
WHEN EVENING FALLS SO HARD
Quando a noite descer pesadamente
I WILL CONFORT YOU
Eu a confortarei
I'LL TAKE YOUR PART
Eu a ajudarei
OH, WHEN DARKNESS COMES
Oh, quando a escuridão vier
AND PAIN IS ALL AROUND
E a dor estiver por perto
LIKE A BRIDGE OVER TROUBLED WATER
Como uma ponte sobre águas revoltas
I WILL LAY ME DOWN
Eu me deitarei
LIKE A BRIDGE OVER TROUBLED WATER
Como uma ponte sobre águas revoltas
I WILL LAY ME DOWN
Eu me deitarei
SAIL ON SILVER GIRL
Continue a viver em brilho
SAIL ON BY
Continue vivendo
YOUR TIME HAS COME TO SHINE
Sua hora chegou para brilhar
ALL YOUR DREAMS ARE ON THEIR WAY
Todos os seus sonhos estão a caminho
SEE HOW THEY SHINE
Veja como eles brilham
AND IF YOU NEED A FRIEND
E se você precisar de um amigo
I'M SAILING RIGHT BEHIND
Eu estarei logo atrás
LIKE A BRIDGE OVER TROUBLED WATER
Como uma ponte sobre águas revoltas
I WILL EASY YOUR MIND
Eu acalmarei sua mente
LIKE A BRIDGE OVER TROUBLED WATER
Como uma ponte sobre águas revoltas
I WILL EASY YOUR MIND
Eu acalmarei sua mente