sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Ter afinidade é muito raro.


“Não importa o tempo, a ausência, os adiamentos, as distâncias, as impossibilidades. Quando há afinidade, qualquer reencontro retoma a relação, o diálogo, a conversa, o afeto no exato ponto em que foi interrompido. 
Ter afinidade é muito raro. 
Mas quando existe não precisa de códigos verbais para se manifestar. 
O que você tem dificuldade de expressar a um não afim, sai simples e claro diante de alguém com quem você tem afinidade. 
Afinidade é ficar longe pensando parecido a respeito dos mesmos fatos que impressionam, comovem ou mobilizam.  É ficar conversando sem trocar palavras.  É receber o que vem do outro com aceitação anterior ao entendimento.  É não ter necessidade de explicar o que está sentindo.  É olhar e perceber.  É mais calar do que falar.  Afinidade é retomar a relação no ponto em que parou sem lamentar o tempo de separação. 

Porque tempo e separação nunca existiram. 
Foram apenas oportunidades dadas (tiradas) pela vida, para que a maturação comum pudesse se dar.  
E para que cada pessoa pudesse e possa ser, cada vez mais, a expressão do outro sob a forma ampliada do eu individual aprimorado.” 

Arthur da Távola

quarta-feira, 14 de agosto de 2013


"Todas as dificuldades que você encara na sua vida, todas as provas e tribulações, todos os pesadelos, e todas as perdas, a maioria das pessoas ainda vê como maldições, como punições de Deus, como algo negativo. Se ao menos você soubesse que nada que vem a você é negativo... 
 
E eu quero mesmo dizer nada. 
 
Todas as provas e tribulações, e as maiores perdas que você experimentará algum dia, coisas que fazem você dizer 'Se eu soubesse disso, nunca teria sido capaz de seguir adiante' são presentes para você, oportunidades que você recebe para crescer. 
 
Esta é a única finalidade da existência neste planeta Terra. 
 
Você não vai crescer caso fique sentado num lindo jardim cheio de flores e alguém traga uma refeição maravilhosa numa baixela de prata. 
 
Mas você vai crescer caso fique doente, caso sinta dor, caso experimente perdas, e se não enfiar a sua cabeça num buraco na areia, mas, em vez disso, pegar o sofrimento e aprender a aceitá-lo, não como uma maldição ou sofrimento, mas como um presente que possui uma finalidade muito, muito específica." 
 
Elisabeth Kübler-Ross

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

THE BODY IMAGE(S) PROJECT

Beleza não é exclusiva.

Mulheres renascentistas eram suaves, voluptuosas, e invejáveis nas suas figuras idealizadas. Quando alimento significava poder, permitiu-se avantajar quando à outras não seria possível e a isso tornou-se a idéia do derradeiro luxo. Hoje, nos mudaram as mesmas prioridades para o dinheiro. E assim, na década de 50, quando a economia afundou para os utensílios domésticos, os anunciantes olharam para um mercado que não desapareceria. Eles queriam uma promessa de riquezas que não desapareciam com o tempo... e assim eles escolheram duas coisas que seriam sempre: idade e beleza. Criaram então um "ideal" que não existe fisicamente, de modo que as mulheres sempre tentariam perseguir: a perfeição.

Aqui estamos, 60 anos depois, ainda odiar a nós mesmas e nossos corpos por não ser algo que foi criado em um escritório por marqueteiros profissionais décadas atrás. Devido a este salto na história, todas nós nos encontramos no mesmo barco de auto-questionamento, não importa o nosso tamanho, forma ou cor. Isso nos deixa com uma escolha. Será que vamos ouvir os outros e sua "opinião" do nosso valor? Ou será que vamos decidir nossa própria definição de belo e avaliação do quanto que isso significa para todas e cada uma de nós? Eu, pessoalmente, irei escolher o último.



(texto original)
Beauty is not exclusive.
Renaissance women were soft, voluptuous, and enviable for their ideal figure. When food equaled power, it allowed you to thrive when others could not and this became the ultimate luxury. Today, we have shifted the same priorities to money. And so, in the 50's when the housewares economy sunk, advertisers looked to a market that wouldn't disappear. They wanted a promise of riches that wouldn't fade with the times... and so they chose two things that would always be: age and beauty. They then created an "ideal" that doesn't physically exist, so that women would forever attempt to purchase perfection.
Here we are, 60 years later still hating ourselves and our bodies for not being something that was created in an office by professional marketers decades ago. Because of this blip in history, we all find ourselves in the same boat of self doubt no matter our size, shape, or shade. This leaves us with a choice. Will we listen to others and their "opinion" of our worth? Or will we decide our own definition of beautiful and know that it means each and every single one of us? I, personally, will choose the latter.

retirado desta página da internet
http://www.thebodyimages.com/#!bodyimages/c199t

terça-feira, 30 de julho de 2013

Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho.

Cada momento mudei.

Continuamente me estranho.

Nunca me vi nem acabei.

De tanto ser, só tenho alma.

Quem tem alma não tem calma.

Quem vê é só o que vê,

Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,

Torno-me eles e não eu.

Cada meu sonho ou desejo

É do que nasce e não meu.

Sou minha própria paisagem;

Assisto à minha passagem,

Diverso, móbil e só,

Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo

Como páginas, meu ser.

O que segue não prevendo,

O que passou a esquecer.

Noto à margem do que li

O que julguei que senti.

Releio e digo : "Fui eu ?"

Deus sabe, porque o escreveu.


Fernando Pessoa

sexta-feira, 26 de julho de 2013

copiado do "cara/livro"

De Feminismo na Rede - Original
Mulher tem que se dar o respeito

Mulher tem que se dar o respeito? O que é se dar o respeito para uma mulher? Ser casta? Não beber? Não fumar? Cobrir o corpo? Casar? Ter filhos? Eu já cansei desse discurso, há muito tempo!
Se dar o respeito é, antes de tudo, respeitar a si mesma! É fazer o que tem vontade, realizar seus desejos, ser feliz. Se dar o respeito é entender que sua vida particular diz respeito somente a você, que ninguém tem direito de te julgar a partir dela e que seu valor não é definido pela quantidade de pessoas com quem você teve relações sexuais, seu valor não é definido pela sua genitália. Se dar o respeito é saber que você não nasceu para agradar o sexo oposto, é saber que você tem o direito de agir como achar correto, é saber que você é linda e não precisa se sacrificar pra agradar gente imbecil, ficando neurótica com seu corpo, seu cabelo, suas roupas. Se dar o respeito é não ficar se preocupando com aquele babaca que você gostaria de namorar mas que acha você uma vadia, uma gorda, uma vulgar, uma puta. Por que você se preocuparia com um idiota?! Se dar o respeito é não casar se você não quiser casar, é não ter filhos se você não quiser ter filhos e é também casar se você quiser, e cozinhar pro seu marido se você quiser, e limpar a casa se você quiser, porque o seu marido te respeita e sabe que essas coisas também são deveres dele e ele também participa dessas tarefas, pois você tem um companheiro, não um dono. Se dar o respeito é usar a roupa que você gosta, com a cabeça erguida, tendo claramente a noção de que ninguém tem direito de te desrespeitar por causa disso. Se dar o respeito é não permitir que abusem de você por você ser mulher, é assumir o que você é sem medo, é não assumir esse “perfil feminino” pré-definido: frágil, rosa, maquiado, delicado, embonecado, recatado, meigo, sexy, perfumado, depilado, produzido, operado, siliconado, malhado, magro, prendado, maternal... Enfim! Se dar o respeito é não ter medo de fazer o que tem vontade, é agir como achar melhor, e é respeitar o seu próximo, pois respeito é algo que deve ser recíproco e merecido, não imposto.
Aí você pergunta: e homem? Não precisa se dar o respeito?
E você ouve: precisa, mas...
"Mas" o quê? Eu sou tão ser humano quanto um homem. Eu pago meus impostos assim como os homens. Eu tenho sentimentos assim como os homens. Ou sou tão capaz quanto os homens. Todos temos que nos dar o respeito! Sabe, o machismo não é exclusividade dos homens e o feminismo não é exclusividade das mulheres. Porque o que eu vejo de mulheres ofendendo, desprezando e apontando umas as outras de um ponto de vista completamente machista, não é pouco. E também o que eu vejo de homens bacanas, que acreditam que as mulheres têm os mesmos direitos que os homens, também não é tão pouco assim.
Eu sei que a sociedade nunca será perfeita e que para algumas pessoas é difícil mudar de opinião, mas eu só queria um mundo em que todas as pessoas fizessem ao menos o possível para que houvesse mais igualdade, um mundo em que todas as pessoas se dessem o respeito e respeitassem o próximo.

Obrigada @Natália Pohlmann, a autora do texto que pediu pra gente publicar

 https://www.facebook.com/feminismonarede?hc_location=timeline

terça-feira, 23 de julho de 2013

um texto da Tati


Ontem depois que você foi embora confesso que fiquei triste como sempre. Mas, pela primeira vez, triste por você. Fico me perguntando que outra mulher ouviria os maiores absurdos como você, um homem de 32 anos, planejar ir a uma matinê brega com gente sem assunto no próximo domingo e, ainda assim, não deixar de olhar pra você e ver um homem maravilhoso. Que outra mulher te veria além da sua casca? Você não entende que eu baixei a música do “Midnight Cowboy” e umas boas do Talking Heads, Vinícius de Morais e do Smiths porque achei divertido te fazer uma massa ouvindo algumas músicas que dão vontade de viver. Uma massa que você não vai comer porque está perdendo o paladar para o que a vida tem de verdadeiro e bom. É tanta comida estragada, plastificada e sem sal, que você está perdendo o paladar para mulheres como eu. E você não sabe como vale a pena gostar de alguém e acordar na casa dessa pessoa e tomar suco de manga lendo notícias malucas no jornal como o cara que acha que é vampiro. Tudo sem vírgula mesmo e, nem por isso, desequilibrado ou antes da hora. Você não sabe como isso é infinitamente melhor do que acordar com essa ressaca de coisas erradas e vazias. Ou sozinho e desesperado pra que algum amigo reafirme que o seu dia valerá a pena. Ou com alguma garotinha boba que vai namorar sua casca. A casca que você também odeia e usa justamente para testar as pessoas “quem gostar de mim não serve pra mim”.
E eu tenho vontade de segurar seu rosto e ordenar que você seja esperto e jamais me perca e seja feliz. E entenda que temos tudo o que duas pessoas precisam para ser feliz. A gente dá muitas risadas juntos. A gente admira o outro desde o dedinho do pé até onde cada um chegou sozinho. A gente acha que o mundo está maluco e sonha com a praia do Espelho e com sonos jamais despertados antes do meio-dia. A gente tem certeza de que nenhum perfume do mundo é melhor do que a nuca do outro no final do dia. A gente se reconheceu de longa data quando se viu pela primeira vez na vida. E você me olha com essa carinha banal de “me espera só mais um pouquinho”. Querendo me congelar enquanto você confere pela centésima vez se não tem mesmo nenhuma mulher melhor do que eu. E sempre volta. Volta porque pode até ter uma coxa mais dura. Pode até ter uma conta bancária mais recheada. Pode até ter alguma descolada que te deixe instigado. Mas não tem nenhuma melhor do que eu. Não tem. Porque, quando você está com medo da vida, é na minha mania de rir de tudo que você encontra forças. E, quando você está rindo de tudo, é na minha neurose que encontra um pouco de chão. E, quando precisa se sentir especial e amado, é pra mim que você liga. E, quando está longe de casa gosta de ouvir minha voz pra se sentir perto de você. E, quando pensa em alguém em algum momento de solidão, seja para chorar ou para ter algum pensamento mais safado, é em mim que você pensa. Eu sei de tudo. E eu passei os últimos anos escrevendo sobre como você era especial e como eu te amava e isso e aquilo. Mas chega disso.
Caiu finalmente a minha ficha do quanto você é, tão e somente, um cara burro. E do quanto você jamais vai encontrar uma mulher que nem eu nesses lugares deprê em que procura. E do quanto a sua felicidade sem mim deve ser pouca pra você viver reafirmando o quanto é feliz sem mim e principalmente viver reafirmando isso pra mim. Sabe o quê? Eu vou para a cama todo dia com 5 livros e uma saudade imensa de você. Ao invés de estar por aí caçando qualquer mala na rua pra te esquecer ou para me esquecer. Porque eu me banco sozinha e eu me banco com um coração. E não me sinto fraca ou boba ou perdendo meu tempo por causa disso. E eu malho todo dia igual a essas suas amiguinhas de quem você tanto gosta, mas tenho algo que certamente você não encontra nelas: assunto. Bastante assunto. Eu não faço desfile de moda todos os segundos do meu dia porque me acho bonita sem precisar de chapinha, salto alto e peito de pomba. Eu tenho pena das mulheres que correm o tempo todo atrás de se tornarem a melhor fruta de uma feira. Pra depois serem apalpadas e terem seus bagaços cuspidos. Também sou convidada para essas festinhas com gente “wanna be” que você adora. Mas eu já sou alguém e não preciso mais querer ser. E eu, finalmente, deixei de ter pena de mim por estar sem você e passei a ter pena de você por estar sem mim. Coitado.

Tati Bernardi

sábado, 20 de julho de 2013

Grandes e pequenas mulheres - amo demais essa autora, depois de ler esse texto dela, a gente vê que não é pra menos...



Há mulheres de todos os gêneros. Histéricas, batalhadoras, frescas, profissionais, chatas, inteligentes, gostosas, parasitas, sensacionais. Mulheres de origens diversas, de idades várias, mulheres de posses ou de grana curta. Mulheres de tudo quanto é jeito. Mas se eu fosse homem prestaria atenção apenas num quesito: se a mulher é do tipo que puxa pra cima ou se é do tipo que empurra pra baixo.

Dizem que por trás de todo grande homem existe uma grande mulher. Meia-verdade. Ele pode ser grande estando sozinho também. Mas com uma mulher xarope ele não vai chegar a lugar algum.

Mulher que puxa pra cima é mulher que aposta nas decisões do cara, que não fica telefonando pro escritório toda hora, que tem a profissão dela, que o apóia quando ele diz que vai pedir demissão por questões éticas e que confia que vai dar tudo certo.

Mulher que empurra pra baixo é a que põe minhoca na cabeça dele sobre os seus colegas, a que tem acessos de carência bem na hora que ele tem que entrar numa reunião, a que não avaliza nenhuma mudança que ele propõe, a que quer manter tudo como está.

Mulher que puxa pra cima é a que dá uns toques na hora de ele se vestir, a que não perturba com questões menores, a que incentiva o marido a procurar os amigos, a que separa matérias de revista que possam interessá-lo, a que indica livros, a que faz amor com vontade.

Mulher que empurra pra baixo é a que reclama do salário dele, a que não acredita que ele tenha taco pra assumir uma promoção, a que acha que viajar é despesa e não investimento, a que tem ciúmes da secretária.

Mulher que puxa pra cima é a que dá conselhos e não palpite, a que acompanha nas festas e nas roubadas, a que tem bom humor.

Mulher que empurra pra baixo é a que debocha dos defeitos dele em rodinhas de amigos e que não acredita que ele vá mais longe do que já foi.

Se por trás de todo grande homem existe uma grande mulher, então vale o inverso também: por trás de um pequeno homem talvez exista uma mulher pequena.

Martha Medeiros

quarta-feira, 17 de julho de 2013

hj estou muito "amor"...
maaaassssss.... vai tentar explicar pra qq um "o gozo" do ponto de vista aristotélico ou socrático????,
ou o gozo da pulsão da morte freudiana, ou a doutrina do gozo lacaniana...
ou a diferença entre saber e gozo, ou o saber do gozo, ou o gozo do saber...
ou até mesmo o sabor do gozo, rsrs... (aqui eu fui puro evil, eu sei, eu sei...)
ou a diferença entre amor, desejo e gozo...
ou a promoção do gozo, que é diferente do desejo,  que é diferente do gozo objetal...
ou na formação da subjetividade do indivíduo, e mais ainda, na especificidade do gozo místico feminino, aqui novamente voltando pra Lacan...
pinçando, somente pinçando, uma das belas frases dele (Lacan):
"só o amor consente ao gozo condescender ao desejo"
-já dá pra mais de um semestre na faculdade só pra começar a entender tudo que essas simples palavras tem pra dizer, isso se ficar só por aqui, nessa singela frase...

entendendo que pessoas que não "gozam" na vida, não estão plenas em si!!!! e aí residindo toda a diferença entre viver e existir, como diria Oscar Wilde...
lembrando que de maneira nenhuma se pode pensar a sexualidade meramente ligada a genitalidade, isso sendo extremamente empobrecedor para nós humanos, para  a fruição de uma vida saborosa em todos os aspectos possíveis!

e que isso tudo veio de um trocadilho na embalagem de um preservativo qu e vi num stand de vendas na drogaria que entrei pra comprar remédio pra dor de cabeça, vixê!!!!
realmente, esses bandos de psis não podem ser pessoas que batem bem da bola!
oooopppps, que sacrilégio, pensar sobre coisas mais importantes qd o circo está armado pra entorpecer o povo!
mas não é que isso tem a ver/está relacionado com a cidadania?
pq qt mais um povo quiser ter seu "gozo" defendido, mais vai lutar pelos seus direitos!!!
de novo, esse povo psi, que mania esquisita eles têm de pensar sobre a vida...
sobre quase tudo ou quase o nada...


Existem muitas maneiras de acabar com a auto-estima de alguém: oprimindo, desconsiderando, desrespeitando, impedindo de falar, excluindo, mentindo, não olhando, não cuidando... etc, etc. Mas uma só maneira de construir uma auto-estima: respeitando a si mesmo, em primeiro lugar. Aqueles que se respeitam são aqueles que possuem auto-estima. São também os únicos capazes de construir a auto-estima de outro. O narcisismo do homem passa sempre pelo narcisismo do outro.

sábado, 13 de julho de 2013

GENTE LIGHT


Vou ao supermercado e observo o crescimento do setor de dietéticos. Abro revistas e me deparo com as exigências de ter um corpo esbelto. As clínicas de cirurgia plástica estão com a agenda lotada de homens e mulheres esperando sua vez para lipoaspirar, contar, reduzir. A sociedade toda conspira a favor da magreza, e de certo modo isso é positivo, sem magro faz bem para a auto-estima e para a saúde. Mas não tenho visto ninguém estimular outro tipo de dieta igualmente necessária para o bem estar da população. Encontro suco light, chocolate light, iogurte light, mas pessoas light é raridade.
Muita gente se preocupa em ser magro, mas não se preocupa em ser leve. Tem criaturas aí pesando 48 quilos e é um chumbo. São aqueles que vivem se queixando. Possuem complexo de perseguição, acham que o planeta inteiro está contra eles. Não se dão conta de sua arrogância, possuem a certeza de que são a razão da existência do universo. Estão sempre dispostos a fazer uma piadinha maldosa, uma fofoquinha desabonadora sobre alguém. Ressentidos, puxam o tapete dos outros para se manter em pé. Não conseguem ver graça em nada, não relevam as chatices comuns do dia-a-dia, levam tudo demasiadamente a sério. são patrulhadores, censores, carregam as dores do mundo nas costas. Magrinhos, é verdade. Mas que gente pesada.
Ser minimalista todo mundo acha moderno, mas ser leve - cruzes! - parece pecado mortal. Os leves, segundo os pesados, não têm substância, não têm profundidade, não têm consciência intelectual: não são leves, e sim levianos. Os pesados não conseguem fechar o zíper das suas roupas de tanto preconceito saltando pra fora.
Não bastasse a carga tributária, a violência, a burocracia e a corrupção, ainda temos que enfrentar pessoas rudes, sem a menor vocação para se divertir. Diversão - segundo os pesados, mais uma vez - é algo alienante e sem serventia. Eles não entendem como alguém pode extrair prazer de coisas sérias como trabalho e família. Não entendem como é que tem gente que consegue viver sem armar barracos e criar problemas.
Eu proponho uma campanha de saúde pública: vamos ser mais bem-humorados, mais desarmados. Podemos ser cidadãos sérios e responsáveis e, ao mesmo tempo, leves. Basta agir com delicadeza, soltura, autenticidade, sem obediência cega às convenções, aos padrões, ao patrões. Um pouco mais de jogo de cintura, de criatividade, de respeito às escolhas alheias. Vamos deixar para sofrer pelo que é realmente trágico, e não por aquilo que é apenas um incômodo, senão fica impraticável atravessar os dias.
Dores de amor, falta de grana e angústias existenciais são contingências da vida, mas você não precisa soterrar os outros com seus lamentos e más vibrações. Sustente seu próprio fardo e esforce-se para aliviá-lo. Emagreça onde tem que emagrecer: no espírito, no humor. E coma de tudo, se isso ajudar.

Martha Medeiros

domingo, 30 de junho de 2013

Vai que o mundo acaba hoje


"Vai que o mundo acaba hoje"

A usamos de forma a nosso favor
Vale uma barra de chocolate
Um chopp na hora do almoço ainda em serviço
Uma goiabada com queijo e assim vai..
uma comprinha por puro deleite
Um desejo realizado de ir ao cinema
mesmo com pilha de trabalho na volta

"Vai que o mundo acaba hoje"
de uns tempos para cá ..a uso por dentro
em silêncio de não dizê-la ...ando mudando sentido...
E diante de algo que possa interferir para o bem, repito
"Vai que o mundo acaba hoje"
uso para gestos de afeto
uso para palavras ditas com o coração
uso para emprestar o ouvido e simplesmente escutar
por vezes os olhos falam mais do que as palavras
"Vai que o mundo acaba hoje"
repito para não esquecer
que mais do que estar aqui temos que fazer alguma diferença...
 
peguei emprestado na página de uma amiga, com licença poética...
ando lendo muita poesia junto com filosofia, tentando demais entender tanta confusão no meu mundo, achar um fio condutor no caos dos meus pensamentos e sentimentos...
mas uma coisa tem feito muito sentido, acima de tudo, o mundo mostra todas as respostas, junto com o tempo, tudo o que eu supunha que poderia ser somente desejos de um coração magoado que ficou marcado no passado, ou de observações parciais, e por isso mesmo tendenciosas da minha parte...
tudo, mas tudo mesmo, tem se mostrado certinho, se encaixando como um complicado, intrincado, delicado, precioso, quebra-cabeças...
o sábio Stan Lee já disse, com grandes poderes vem grandes responsabilidades... 
peço sempre o discernimento cada vez maior, sabedoria e luz pra saber caminhar por tantos caminhos complicados, ajudando tantos quanto puder, porque a única coisa certa nessa existência é aprendizagem e evolução... se a gente não conseguir se tornar o melhor que puder com as lições de cada fase, não vejo muito sentido na vida, sabe?

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Ser feliz é só uma das opções. É a sua?

por Leo Jaime



problemas existem para serem solucionados

 

Uma amiga vem me contar que não sabe mais que conselho dar às amigas. Ela é uma mulher jovem, independente, que paga as próprias contas e é feliz com a vida e os amores que conquistou. Por isso lhe pedem conselhos. E também porque aceita as amigas e seus problemas, sem julgamentos. É compreensível sua angústia por não saber como ajudar.

Algumas amigas casadas, diz ela, ficam lendo revista no banheiro tarde da noite ou fazendo qualquer outra coisa até que o marido pegue no sono ou desista do sexo. Estas que fogem do próprio marido, como quem foge de um credor, são também as que ficam vigiando, claro, muito inseguras, qualquer olho comprido do marido para outro rabo de saia. Elas não querem sexo, mas também não querem que ele pule a cerca. E também não querem que os maridos deixem de as procurar! Em suma: querem dar toco. Querem ser desejadas e não corresponder. Não é uma opção feliz.

Outras solteiras acham dificílimo encontrar um homem interessante. Segundo a mesma amiga, a razão é simples: elas não aceitam um defeito sequer. Ou o cara é carinhoso ou é frio, ou quer sexo demais ou de menos, ou é o sapato que ela não curte, ou é careca, ou barrigudo, ou então o cara é maravilhoso, mas a ex-mulher, ou a mãe, ou a profissão é um saco. Enfim, estão sempre procurando defeito e, com isso, perpetuando a solidão. Indago se a razão seria o fato de não acharem que ninguém é suficientemente bom para elas por terem uma autoestima exagerada. Minha amiga diz que não. Que o motivo deste critério ultra exigente é o medo de sofrer. O medo de apostar em alguma coisa que não seja a ideal, que não dê certo adiante. Ou seja: querem a perfeição e com garantia de 50 anos sem conflitos. E trocam o possível problema no futuro por uma solidão angustiante no presente. Sim, porque poderiam simplesmente gostar da vida solitária. Mas, não, estão sempre em busca e reclamando que nada dá certo. Estas são as que acham que a vida lhes deve um tapete vermelho.

E há uma outra categoria. As que vivem em relacionamentos que fazem mal. As que escolhem as piores possibilidades e, óbvio, expulsam de suas vidas alguém que lhes faça bem. Querem drama e não sossego. Querem prazer e não felicidade. Sofrem porque querem e fazem sofrer os que não percebem com quem se meteram. Viciadas em adrenalina. Querem ser personagens de um dramalhão ou de uma tragédias e não se importam muito se serão vítimas ou vilãs. Por outro lado existe esta minha amiga que percebe todas estas possibilidades, vividas por gente de quem ela gosta. Uma amiga de verdade. Existem estas escolhas, e cada um faz a sua.

O importante é ter o diagnóstico correto das atitudes e escolhas que determinam a vida que se vai levar. E compreender que a felicidade não é tão popular assim. Você deseja ser feliz? Luta por isto? Escolhe, a cada momento e em cada questão que a vida lhe apresenta, a opção mais tranquila e saudável? Difícil dizer, não é?

Tristeza não é depressão. Felicidade não é prazer. Problemas existem para serem solucionados e em alguns casos pode não haver solução. E isto é uma solução. Escolhas. Do que você gosta? O que lhe faz bem? Ah, parece que estou falando de mulheres, mas tudo o que foi dito aqui pode muito bem, com algumas adaptações, servir para homens também.




amor e sexo »intimidades retirada da pág: http://gnt.globo.com/amor-e-sexo/leo-jaime/Ser-feliz-e-so-uma-das-opcoes--E-a-sua-.shtml

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Saúde Mental – por Rubem Alves


“Faço uma lista das pessoas que, do meu ponto de vista, tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoas cujos livros e obras foram alimento para a minha alma.

Nietzsche,
Fernando Pessoa,
Van Gogh,
Wittgenstein,
Cecília Meireles,
Maiakovski.

E assusto-me.
Nietzsche ficou louco.
Fernando Pessoa era dado à bebida.
Van Gogh matou-se.
Wittgenstein alegrou-se ao saber que iria morrer em breve: não suportava mais viver com tanta angústia.
Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica.
Maiakoviski suicidou-se.
Essas eram pessoas lúcidas e profundas que continuarão a ser pão para os vivos muito depois de nós termos sido completamente esquecidos. Mas será que tinham saúde mental?
Saúde mental, essa condição em que as idéias comportam-se bem, sempre iguais, sem surpresas, obedientes ao comando do dever, todas as coisas nos seus lugares, como soldados em ordem unida, jamais permitindo que o corpo falte ao trabalho, ou que faça algo inesperado; nem é preciso dar uma volta ao mundo num barco a vela, bastar fazer o que fez a Shirley Valentine (se ainda não viu, veja o filme) ou ter um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, a coragem de pensar o que nunca pensou.
Pensar é uma coisa muito perigosa… Não, saúde mental elas não tinham… Eram lúcidas demais para isso.
Elas sabiam que o mundo é controlado pelos loucos e idosos de gravata. Sendo donos do poder, os loucos passam a ser os protótipos da saúde mental.
Claro que nenhum dos nomes que citei sobreviveria aos testes psicológicos a que teria de se submeter se fosse pedir emprego numa empresa. Por outro lado, nunca ouvi falar de político que tivesse depressão. Andam sempre fortes em passarelas pelas ruas da cidade, distribuindo sorrisos e certezas.
Sinto que meus pensamentos podem parecer pensamentos de loucos e por isso apresso-me aos devidos esclarecimentos.
Nós somos muito parecidos com computadores. O funcionamento dos computadores, como todo mundo sabe, requer a interação de duas partes. Uma delas chama-se hardware, literalmente “equipamento duro”, e a outra se denomina software,
“equipamento macio”.
O hardware é constituído por todas as coisas sólidas com que o aparelho é feito.
O software é constituído por entidades “espirituais” – símbolos que formam os programas e são gravados.
Nós também temos um hardware e um software. O hardware são os nervos do cérebro, os neurônios, tudo aquilo que compõe o sistema nervoso.
O software é constituído por uma série de programas que ficam gravados na memória. Do mesmo jeito como
nos computadores, o que fica na memória são símbolos, entidades levíssimas, dir-se-ia mesmo “espirituais”, sendo que o programa mais importante é a linguagem. Um computador pode enlouquecer por defeitos no hardware ou por defeitos no software. Nós também.
Quando o nosso hardware fica louco há de se chamar psiquiatras e neurologistas, que virão com suas poções químicas e bisturis consertar o que se estragou. Quando o problema está no software, entretanto, poções e bisturis não funcionam. Não se conserta um programa com chave de fenda. Porque o software é feito de símbolos; somente símbolos podem entrar dentro dele. Assim, para se lidar com o software há que se fazer uso dos símbolos. Eles podem vir de poetas, humoristas, palhaços, escritores, gurus,
amigos e até mesmo psicanalistas…
Acontece, entretanto, que esse computador que é o corpo humano tem uma peculiaridade que o diferencia dos outros: o seu hardware, o corpo, é sensível às coisas que o seu software produz. Pois não é isso que acontece conosco?
Ouvimos uma música e choramos. Lemos os poemas eróticos de Drummond e o corpo fica excitado. Imagine um aparelho de som; imagine que o CD e os acessórios, o hardware, tenham a capacidade de ouvir a música que ele toca e se comover.
Imagine mais; imagine que a beleza é tão grande que o hardware não a comporta e se arrebenta de emoção! Pois foi isso que aconteceu com aquelas pessoas que citei no princípio: A música que saia de seu software era tão bonita que seu hardware não suportou…
Dados esses pressupostos teóricos, estamos agora em condições de oferecer uma receita que garantirá, àqueles que a seguirem à risca, a “saúde mental” até o fim dos seus dias: Opte por um software modesto. Evite as coisas belas e comoventes. A beleza é perigosa para o hardware.
Cuidado com a música… Brahms, Mahler, Wagner, Bach são especialmente contra-indicados.
Quanto às leituras, evite aquelas que fazem pensar. Tranquilize-se; há uma vasta literatura especializada em impedir o pensamento.
Se há livros do doutor Lair Ribeiro, por que se arriscar a ler Saramago? Os jornais têm o mesmo efeito.
Devem ser lidos diariamente. Como eles publicam diariamente sempre a mesma coisa com nomes e caras diferentes, fica garantido que o nosso software pensará sempre coisas iguais. E, aos Domingos, não se esqueça do Silvio Santos e do Gugu Liberato.
Seguindo essa receita você terá uma vida tranquila, embora banal. Mas como você cultivou a insensibilidade, não perceberá o quão banal ela é. E, em vez de ter o fim que tiveram as pessoas que mencionei, você se aposentará para, então, realizar os seus sonhos.
Infelizmente, entretanto, quando chegar tal momento, você já terá se esquecido de como eles eram…”

Rubem Alves.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

REVENDO CONCEITOS E PARADIGMAS - IMPORTANTE

isso vai ser um post gordo e raivoso.

A gente entra no twitter e vê essa merda:

OI? Eu já tinha visto muita gente odiando gente gorda sem motivo no twitter. A fat-shaming, ou gordofobia, chega a níveis ridículos, desde gente odiando gordos porque comem demais (como se toda comida que eles deixasse de comer fosse automaticamente desviada pro prato de crianças desnutridas no Sri Lanka) porque ocupam muito espaço, porque deviam ter vergonha ou sei lá, porque existem.
Pra avisar os navegantes: Eu, como todas as pessoas magras, achava antes que gordura só tinha a ver com comida. Aí resolvi calar a boca e aprender com o livro Lessons from the Fat-O-Sphere. Mais de 70% daquela joça é genética. Conhece magra de ruim? Poisé, tem gente que é gorda de ruim também. O BIOTIPO da pessoa é esse e não tem comida que se deixe de comer e exercício que se faça que permita a essa pessoa ter 20kg a menos sem entrar em um colapso de desnutrição.
CLARO que ninguém te disse isso, gente magrela. A indústria da dieta movimenta BILHÕES, as revistas insistem com você todo dia que se você fizer isso assim assado vai ter barriga tanquinho e você acredita porque não conhece outra coisa.
A verdade é que 95% das dietas NÃO FUNCIONAM. Somente 5% das pessoas realmente conseguem mudar seu peso a longo prazo (5 anos) e mesmo assim muito provavelmente vão ter de ficar sentindo fome pelo resto da vida.
MESMO SE GORDURA FOSSE CAUSADA SÓ POR COMIDA: Não é da sua conta. Não é. Não é igual um fumante do seu lado que vai te dar câncer de fumante passivo. A macarronada na mesa do vizinho não vai te engordar. E se vocês justificarem com “ah eu me preocupo com a saúde destas pessoas” pode baixar o facho e assumir que é mentira, você não é Madre Teresa de Calcutá pra ficar caçando gente doente na rua e tenho certeza que ao praticar a gordofobia você está fazendo é mal pra saúde mental daquela pessoa.
Anyway, voltando ao tweet absurdo.
 ”pessoas gordas se acham os melhores de todos”
OI?? Isso não faz sentido, criatura. Nenhum. A sociedade inteira está firmemente dedicada a fazer as pessoas gordas se sentirem horríveis em relação a elas mesmas. Acho que você tirou essa conclusão ao conhecer assim, umas duas pessoas gordinhas QUE OUSARAM, OLHA QUE IDÉIA, TER AUTO-ESTIMA.
Aí eu saio pro google pra pesquisar mais a fundo sobre uma coisa que eu sei: A associação da obesidade com a depressão e o suicídio, por causa do estigma de ser uma pessoa fora dos padrões de beleza, a pressão social e o preconceito que gordinhos sofrem. E tá comecei a achar algumas coisas.
Aí eu vou lá e acho essa pérola

sadafjkfdlçkgdik jsiçnf~jaso~
MEO FILHO você pega estudos sobre como as pessoas tratam crianças gordas TÃO MAL que o índice de depressão e suicídio dentre elas é maior, e transforma num ‘CUIDADO: GORDURA CAUSA SUICÍDIO”????? Se eu revirasse mais o olho eu tinha um aneurisma. Não é a célula adiposa que tem toxinas suicidas, seu mané, é GENTE IGUAL VOCÊ que escreve essas merdas que estão levando as pessoas a se odiarem a ponto de cometer suicídio.

O SITE INTEIRO ASSOCIA situações em que pessoas foram prejudicadas pela GORDOFOBIA (e não a gordura) pra vender gastroplastia. Como se a solução de todos os problemas com preconceito contra pessoas gordas fosse ficar magro. A primeira notícia  engana, faz aquela coisa pífia: Associa somente a perda de peso com uma “cura milagrosa”, ah, claro porque a moça perdeu 80kg em dois dias. MILHÕES de pessoas magras roncam, têm apnéia do sono, diabetes e  hipertensão.
Pais de uma criança obesa perderam a guarda dela. Obesidade prejudica relações entre pais e filhos. blablabla.. como resolver?? NÃO SEJA GORDO.
É como se falassem que pra resolver homofobia basta virar hetéro
Pra resolver racismo, basta ser branco
Pra resolver o sexismo, basta ser homem.
nÃO FAZ SENTIDO.
Páre de usar o sofrimento das pessoas para vender seu peixe. Isso é anti-ético. São idiotas como você que são contribuintes de uma sociedade que faz as pessoas se matarem. 
Diga não à GORDOFOBIA.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

CRIANÇA

A Pequena Vítima de Salve Jorge


Criança só custa caro quando é educada por duas criaturas mais infantis do que ela


Quando Salve Jorge começou, disse a mim mesma que não veria um único capítulo. Ainda estava meio surda por causa da gritaria de Avenida Brasil e queria minha paz de volta. E assim foi: não assisti aos primeiros capítulos. Mas aí, um dia, gostei de adiante lembrei que o ótimo Alexandre Nero estava no elenco, além do colírio do Domingos Montagner, e passei a simpatizar com a maquiavélica Wanda de Totia Meireles, e quando dei por mim, havia sido capturada para o dramalhão mais inverossímil da televisão brasileira – ou alguém consegue aguentar a moscona da Morena que, com a finada Jéssica, passava as tardes na casa da delegada sem conseguir denunciar que havia sido traficada?


Me irrita a trouxice das personagens femininas da maioria das novelas. Acho louvável que a autora Gloria Perez procure usar o maior petardo da programação da Globo para trazer à tona assuntos pouco discutidos pela sociedade, como é o caso do tráfico de pessoas, mas a forma canastrona com que esses dramas costumam ser apresentados faz com que eles pareçam pouco reais.


O que tem me deixado chocada nessa novela não é a seringa que o personagem de Claudia Raia leva na bolsa para algum imprevisto ou os tapas que o parrudo Russo distribui no cativeiro das beldades. O que me cala e me constrange é uma criança que está sendo manipulada pelo pai em meio a um divórcio litigioso. Aquilo ali, sim, é real, muitíssimo comum e igualmente criminoso.


Não consigo imaginar nada mais brutal do que dizer para um filho: “Tua mãe não te ama”. O mesmo vale para mães que dizem isso aos filhos a respeito dos pais. Quem faz essa covardia com uma criança é quem verdadeiramente não a quer bem. Usar o sentimento de inocentes a fim de atingir um cônjuge que passamos a odiar é de uma agressividade tão letal quanto uma injeção no pescoço, tão dolorido quanto um soco de um brutamontes.


Nem todos que agem assim o fazem por maldade. Muitos o fazem por ignorância. Mas até ignorantes deveriam possuir alguma sensibilidade para entender que uma criança necessita de segurança emocional e não de ser envolvida nas brigas de um casal que um dia resolveu se unir, e que mais adiante resolveu se separar. Casamento não precisa ser para sempre, mas a responsabilidade parental, sim.


Crianças não conseguem processar direito o que vivenciam. Assumem culpas que não possuem, fantasiam abandonos, se responsabilizam pela infelicidade dos pais, e pior do que tudo, se sentem desprotegidas em um lar briguento. Crescem e se tornam homens e mulheres paranoicos, inseguros, acovardados diante da vida.


É uma tecla insistentemente batida, mas pouco escutada: criança precisa ser amada. Não precisa de um iPhone aos nove anos, não precisa ir a Disney antes de ser alfabetizada, não precisa de um guarda-roupa de estrela de cinema. Precisa ser amada. Sai de graça.Só custa caro quando é educada por duas criaturas mais infantis do que ela.




domingo, 3 de fevereiro de 2013
Martha Medeiros - Jornal Zero Hora