sexta-feira, 15 de maio de 2015

Autoestima, Feminismo e contradições de cada dia


Autoestima, Feminismo e contradições de cada dia

Postado em: 03/10/2013 por: Isabela Casalotti


Texto de Isabela Casalotti.

Sabe os padrões de beleza? Aqueles que já conhecemos e tanto criticamos. Isso, as capas de revistas, a gordofobia, o racismo, o sexismo, a cis-hetero-normatividade, o capacitismo… Esses estão na ponta da língua de nossas críticas. Nós, feministas, olhamos com admiração as mulheres empoderadas com seus corpos. Depois de um acolhimento, sabemos o que dizer para aquela amiga que diz estar descontente com sua aparência física.

Até que você, feminista, louca de vontade de tirar a roupa e ir a praia, olha no espelho e se desespera. Simplesmente se acha feia porque está fora dos padrões. Isso, aqueles lá: falta aqui, sobra ali, celulite, estria, varizes, pelos, cravos, “defeitos”. Cada detalhe ali, que no discurso é “parte de você, da sua história”, a seus olhos é a autoestima descendo ladeira abaixo.

A julgar pelas postagens cotidianas que vejo nas redes sociais, arrisco dizer que não sou feminista solitária nesse barco. E compartilho meu desabafo de como é encontrar-se nessa contradição. Olho para a amiga gorda e acho linda. Por que, então, me encolho quando uma mão carinhosa se aproxima da minha barriga?

A Kindumba da A.N.A, por Chiquinha no Facebook.

Dia desses, no meio de uma crise de baixa autoestima, com muitos ataques e críticas pesadas a mim mesma, uma pessoa querida disse: “se você se acha feia por ter engordado é porque, de alguma forma, considera que ser gorda é feio”. Eis que a contradição se revelou óbvia. Oras, se esperneio porque meu cabelo está crespo, é porque acho, em algum nível, que cabelos crespos não são bonitos. Isso vale para qualquer parte do corpo.

E a contradição dói. Porque racional e conscientemente acho todas as mulheres bonitas. Para olhar além disso, tem que ter um pouco de coragem para entender o que e por que está sendo reproduzido. Reproduzir os padrões é reproduzir as opressões mais estruturais e isso é feito o tempo todo. Por onde andamos encontramos receitas infalíveis para enquadrar.

Você conta que engordou dez quilos nos últimos seis meses. É o pão, é a cerveja, é emocional, é falta de academia. Você tem usado drogas? É o anticoncepcional, melhor parar. Não pare de tomar anticoncepcional, vai ficar cheia de espinha. Não coma batata, não beba suco de laranja, é calórico, sabia? Use quinoa, linhaça, chá, shake, chia. Foi o que eu ouvi. E fico pensando no que as pessoas obesas ouvem por aí.
Essas pressões podem dialogar diretamente com as opressões estruturais e com questões individuais. Existir corpos que são considerados desajustados somado com alguma necessidade de aceitação, aprovação, ou outras tantas questões subjetivas, pode ser o casamento perfeito da baixa autoestima, e vai na contramão do empoderamento.
Voltar a me achar uma mulher linda virou mais do que uma necessidade pessoal: é necessidade política. Amar a mim mesma é amar todos os corpos, todas as pessoas e talvez uma das maiores conquistas feministas. É por mim e por todas as mulheres e corpos não enquadrados. É por liberdade.


Negahamburger por Evelyn no Facebook.

Convido tod@s a fazerem esse exercício, o de olhar para seu corpo como a todos, como uma bandeira feminista. E deixo de sugestão alguns textos e trabalhos altamente empoderadores:


Além disso, você pode ajudar o: Projeto Beleza Real por Negahamburger. Essa campanha pretende materializar o sonho de fazer um livro de ilustrações baseado em relatos de mulheres reais que buscam a liberdade de ser, de viver sua própria beleza, livre de padrões e preconceitos.

LINK: http://blogueirasfeministas.com/2013/10/autoestima-feminismo-e-as-contradicoes-de-cada-dia/

domingo, 10 de maio de 2015

SOBRE EPISTEMOLOGIA

Epistemologia de Maturana


O termo epistemologia se refere ao estudo sobre a produção do conhecimento. Quando se menciona, no entanto, a epistemologia das ciências, se está abordando os pensadores que se preocuparam em investigar como se constrói um conhecimento de natureza científica. Dentre eles, Humberto Maturana merece destaque.



Maturana é biólogo, nascido em 1928 em Santiago, no Chile. Iniciou seus estudos acadêmicos na medicina, mas acabou seguindo carreira na biologia. Obteve Ph.D em biologia na Universidade de Harvard, e trabalhou em neurofisiologia no M.I.T. Atualmente é professor do Departamento de Biologia na Universidade do Chile. Sua obra de maior destaque chama-se Cognição, Ciência e Vida Cotidiana. Seu principal conceito é o da autopoiese.

Buscar-se-á propor um breve resumo sobre os principais conceitos em Maturana, não em sentido de resumo de toda sua obra ou resenha, mas em caráter pessoal de quem escreve, através dos itens abaixo:
Maturana é um epistemólogo diferenciado dos demais, pois é biólogo, ao contrário dos outros, que são físicos.
De acordo com ele, deve-se levar em conta sempre o observador, pois jamais há isenção entre observador e observado.
Assim, o explicar sempre depende do observador.
Sem linguagem o homem não existe. Vivemos todos na linguagem, a qual se fundamenta nas emoções, e estas são a base do fazer científico.
Maturana explica o conhecer a partir do conhecedor.
Não há sentido nem possibilidade de se conhecer sem se levar em conta o conhecedor.
Toda sua abordagem em ciências é de cunho biológico, e não físico.
Seu principal conceito é do da autopoiese, ou seja, um sistema que se auto regula. Esse conceito também ficara conhecido como a biologia do conhecer.
O conhecimento é uma perturbação de nosso sistema cognitivo, pois podemos fazer as nossas mudanças nas estruturas, mas não nas organizações estruturais, ou seja, em suas identidades.
A explicação sempre gera uma interpretação de nossa própria experiência.
Para Maturana, uma explicação torna-se válida apenas pela existência de alguém que a aceite como tal, sem nenhuma necessidade de outro embasamento.
Todo ser vivo tem características de organização, onde a perda da organização é a morte.
Essa organização, entretanto, não é estática, mas sempre existe uma organização cognitiva.
Não é o exterior quem determina a experiência, o sistema sempre funciona a partir de correlações interiores.
Conforme fora mencionado, sua noção de verdade reside apenas na aceitação desta por alguém, sem nenhuma necessidade de qualquer embasamento empírico.
O homem possui existência na linguagem, na comunicação. Assim, o homem não pode ser visto como um ente isolado.
Muitas vezes não é possível distinguir-se entre a observação e a ilusão, de modo que, de acordo com a sua visão, a ciência não pode ser objetiva.
O explicar algo é sempre uma reformulação do que “eu” já tive, até porque utiliza a “minha” própria linguagem. Não há possibilidade de existência de um conhecimento sem influência de quem o descreve.
A tolerância apenas considera uma posição; a aceitação compreende-a sob a ótica do outro.
A linguagem não existe na transmissão de informações entre o transmissor e o receptador, mas em uma modelagem entre eles.
A diferença do conhecimento científico é que o cientista que o produz deve ser cuidadoso para não permitir que as emoções intervenham no critério da validação das informações.
A ciência possui critérios de validação para a explicação, mas essa explicação jamais é única.
A ciência é uma atividade humana, conectada ao conhecimento. Ou seja, uma das formas que temos de produzir conhecimento chama-se coência.
Entretanto, esses critérios de validação não exigem que o observador seja independente daquilo que observa.
Somos nós que decidimos o que mudar em nosso sistema cognitivo no processo do conhecer, modificando a sua estrutura, mas jamais modificando a sua organização interna, que lhe dá suporte e caracteriza o ser vivo.
Nós estamos tentando perturbar os “sujeitos”, mas serão eles que decidirão o que fazer com essas perturbações.

Referências:
MOREIRA, Marco Antônio; MASSONI, Neusa Teresinha; Epistemologias do Século XX, EPU, São Paulo, 2011.

LINK: http://www.infoescola.com/ciencias/epistemologia-de-maturana/

sexta-feira, 1 de maio de 2015

EU SIMPLESMENTE AMO ESSE TEXTO

Da relação direta entre ter de limpar seu banheiro você mesmo e poder abrir sem medo um Mac Book no ônibus




UPDATE: Muita gente tem lido este post como uma idealização da Holanda como um lugar paradisíaco. Nada mais longe da verdade. A Holanda não é nenhum paraíso e tem diversos problemas, muitos dos quais eu sinto na pele diariamente. O que pretendo fazer aqui é dizer duas coisas: a origem da violência no Brasil é a desigualdade social e 2, apesar da violência que gera, muita gente gosta dessa desigualdade e fica infeliz quando ela diminui, porque dela se beneficia e não enxerga a ligação desigualdade-violência. Por fim: esse post não é sobre a Holanda. A Holanda estar aqui é casual. Esse post é sobre o Brasil, minha pátria mãe.


A sociedade holandesa tem dois pilares muito claros: liberdade de expressão e igualdade. Claro, quando a teoria entra em prática, vários problemas acontecem, e há censura, e há desigualdade, em alguma medida, mas esses ideais servem como norte na bússola social holandesa.

Um porteiro aqui na Holanda não se acha inferior a um gerente. Um instalador de cortinas tem tanto valor quanto um professor doutor. Todos trabalham, levam suas vidas, e uma profissão é tão digna quanto outra. Fora do expediente, nada impede de sentarem-se todos no mesmo bar e tomarem suas Heinekens juntos. Ninguém olha pra baixo e ninguém olha por cima. A profissão não define o valor da pessoa – trabalho honesto e duro é trabalho honesto e duro, seja cavando fossas na rua, seja digitando numa planilha em um escritório com ar condicionado. Um precisa do outro e todos dependem de todos. Claro que profissões mais especializadas pagam mais. A questão não é essa. A questão é “você ganhar mais porque tem uma profissão especializada não te torna melhor que ninguém”.

Profissões especializadas pagam mais, mas não muito mais. Igualdade social significa menor distância social: todos se encontram no meio. Não há muito baixo, mas também não há muito alto. Um lixeiro não ganha muito menos do que um analista de sistemas. O salário mínimo é de 1300 euros/mês. Um bom salário de profissão especializada, é uns 3500, 4000 euros/mês. E ganhar mais do que alguém não torna o alguém teu subalterno: o porteiro não toma ordens de você só porque você é gerente de RH. Aliás, ordens são muito mal vistas. Chegar dando ordens abreviará seu comando. Todos ali estão em um time, do qual você faz parte tanto quanto os outros (mesmo que seu trabalho dentro do time seja de tomar decisões).

Esses conceitos são basicamente inversos aos conceitos da sociedade brasileira, fundada na profunda desigualdade. Entre brasileiros que aqui vêm para trabalhar e morar é comum – há exceções – estranharem serem olhados no nível dos olhos por todos – chefe não te olha de cima, o garçom não te olha de baixo. Quando dão ordens ou ignoram socialmente quem tem profissão menos especializadas do que a sua, ficam confusos ao encontrar de volta hostilidade em vez de subserviência. Ficam ainda mais confusos quando o chefe não dá ordens – o que fazer, agora?

Os salários pagos para profissão especializada no Brasil conseguem tranquilamente contratar ao menos uma faxineira diarista, quando não uma empregada full time. Os salários pagos à mesma profissão aqui não são suficientes pra esse luxo, e é preciso limpar o banheiro sem ajuda – e mesmo que pague (bem mais do que pagaria no Brasil) a um ajudante, ele não ficará o dia todo a te seguir limpando cada poerinha sua, servindo cafézinho. Eles vêm, dão uma ajeitada e vão-se a cuidar de suas vidas fora do trabalho, tanto quanto você. De repente, a ficha do que realmente significa igualdade cai: todos se encontram no meio, e pra quem estava no Brasil na parte de cima, encontrar-se no meio quer dizer descer de um pedestal que julgavam direito inquestionável (seja porque “estudaram mais” ou “meu pai trabalhou duro e saiu do nada” ou qualquer outra justificativa pra desigualdade).

Porém, a igualdade social holandesa tem um outro efeito que é muito atraente pra quem vem da sociedade profundamente desigual do Brasil: a relativa segurança. É inquestionável que a sociedade holandesa é menos violenta do que a brasileira. Claro que aqui há violência – pessoas são assassinadas, há roubos. Estou fazendo uma comparação, e menos violenta não quer dizer “não violenta”.

O curioso é que aqueles brasileiros que queixam-se amargamente de limpar o próprio banheiro, elogiam incansavelmente a possibilidade de andar à noite sem medo pelas ruas, sem enxergar a relação entre as duas coisas. Violência social não é fruto de pobreza. Violência social é fruto de desigualdade social. A sociedade holandesa é relativamente pacífica não porque é rica, não porque é “primeiro mundo”, não porque os holandeses tenham alguma superioridade moral, cultural ou genética sobre os brasileiros, mas porque a sociedade deles tem pouca desigualdade. Há uma relação direta entre a classe média holandesa limpar seu próprio banheiro e poder abrir um Mac Book de 1400 euros no ônibus sem medo.

Eu, pessoalmente, acho excelente os dois efeitos. Primeiro porque acredito firmemente que a profissão de alguém não têm qualquer relação com o valor pessoal. O fato de ter “estudado mais”, ter doutorado, ou gerenciar uma equipe não te torna pessoalmente melhor que ninguém, sinto muito. Não enxergo a superioridade moral de um trabalho honesto sobre outro, não importa qual seja. Por trabalho honesto não quero dizer “dentro da lei” – não considero honesto matar, roubar, espalhar veneno, explorar ingenuidade alheia, espalhar ódio e mentira, não me importa se seja legalizado ou não. O quanto você estudou pode te dar direito a um salário maior – mas não te torna superior a quem não tenha estudado (por opção, ou por falta dela). Quem seu pai é ou foi não quer dizer nada sobre quem você é. E nada, meu amigo, nada te dá o direito de ser cuzão. Um doutor que é arrogante e desonesto tem menos valor do que qualquer garçom que trata direito as pessoas e não trapaceia ninguém. Profissão não tem relação com valor pessoal.

Não gosto mais do que qualquer um de limpar banheiro. Ninguém gosta – nem as faxineiras no Brasil, obviamente. Também não gosto de ir ao médico fazer exames. Mas é parte da vida, e um preço que pago pela saúde. Limpar o banheiro é um preço a pagar pela saúde social. E um preço que acho bastante barato, na verdade.

PS. Ultimamente vem surgindo na sociedade holandesa um certo tipo particular de desigualdade, e esse crescimento de desigualdade tem sido acompanhado, previsivelmente, de um aumento respectivo e equivalente de violência social. A questão dos imigrantes islâmicos e seus descendentes é complexa, e ainda estou estudando sobre o assunto.

LINK: http://blog.daniduc.net/2009/09/14/da-relacao-direta-entre-ter-de-limpar-seu-banheiro-voce-mesmo-e-poder-abrir-sem-medo-um-mac-book-no-onibus/

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Para Não Deixar de Amar-te Nunca

Saberás que não te amo e que te amo
pois que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem a sua metade de frio.

Amo-te para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.

Amo-te e não te amo como se tivesse
nas minhas mãos a chave da felicidade
e um incerto destino infeliz.

O meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.

Pablo Neruda, in "Cem Sonetos de Amor"

sábado, 20 de dezembro de 2014

Como Conversar com Meninas

Não, não é um guia de paquera para garotos tímidos. Este texto da Lisa Bloom nos faz pensar sobre as consequências que nossas atitudes podem ter na educação das crianças, e como podemos mudar parâmetros sociais apenas conversando de modo diferente com uma menininha, segurando o impulso de dizer o quanto ela é linda para surpreendê-la ao ressaltar as outras qualidades que ela tem. Vale dizer que a educação dos meninos também precisa ser repensada, e que autora já escreveu sobre os dois.

UPDATE 04/06/13 ATENÇÃO! >>>> Este texto não é meu, apenas traduzi um texto da Lisa Bloom (original aqui). Ela também já escreveu um artigo sobre como conversar com meninos. A tradução do artigo sobre meninos está aqui.


Como conversar com meninas

 

Eu fui a um jantar na casa de uma amiga na semana passada, e encontrei sua filha de 5 anos pela primeira vez. A pequena Maya tinha os cabelos castanhos e cacheados, olhos escuros, e estava adorável em seu vestidinho rosa e brilhante. Eu queria gritar, “Maya você é tão fofa! Veja só! Dê uma voltinha e desfile esse vestidinho rosa, sua coisinha linda!”
Mas eu não fiz isso. Eu me contive. Como sempre me contenho quando conheço garotinhas, negando meu primeiro impulso, que é dizer o quão fofas/lindas/bonitas/bem vestidas/de unhas feitas/cabelo arrumado elas são/estão.
“O que há de errado nisso? É a conversa padrão de nossa cultura para quebrar o gelo com as meninas, não é? E por que não fazer-lhes um elogio sincero para elevar suas auto-estimas? Porque elas são tão lindas que eu simplesmente quero explodir de tanta fofura quando as encontro, sinceramente.”
Guarde este pensamento por um tempo.
Esta semana a ABC News informou que quase metade das meninas de 3 a 6 anos se preocupam por estarem gordas. No meu livro, Think: Straight Talk for Women to Stay Smart in a Dumbed-Down World, eu revelo que 15 a 18% das meninas com menos de 12 anos usam rímel, delineador e batom regularmente; distúrbios alimentares estão em alta e a auto-estima está em baixa; e 25% das jovens mulheres americanas prefeririam vencer o America’s Next Top Model a ganhar o prêmio Nobel da Paz. Até universitárias inteligentes e bem sucedidas dizem que preferem ser ‘gostosas’ a serem inteligentes. Recentemente uma mãe de Miami morreu durante uma cirurgia estética, deixando dois filhos adolescentes. Isso não pára de acontecer, e isso parte o meu coração.
Ensinar as meninas que a aparência delas é a primeira coisa que se nota ensina a elas que o visual é mais importante do que qualquer outra coisa. Isso as leva a fazer dieta aos 5 anos de idade, usar base aos 11, implantar silicone aos 17 e aplicar botox aos 23. Enquanto a exigência cultural de que as garotas sejam lindas 24 horas por dia se torna regra, as mulheres têm se tornado cada vez mais infelizes. O que está faltando? Um sentido para a vida, uma vida de ideias e livros e de sermos valorizadas por nossos pensamentos e realizações.
Eu me esforço para falar com as meninas assim:
“Maya,” eu disse, me ajoelhando até ficar da sua altura, olhando em seus olhos, “prazer em conhecê-la”.
“O prazer é todo meu,” ela disse, com a voz já bem treinada e educada para falar com adultos como uma boa menina.
“Hey, o que você está lendo?” Perguntei, com um brilho nos olhos. Eu amo livros. Sou louca por eles. Eu deixo isso transparecer.
Seus olhos ficaram maiores, e ela demonstrou uma empolgação genuína, mas contida, sobre o assunto. Ela pausou, no entanto, tímida por estar com um adulto desconhecido.
“Eu AMO livros,” eu disse. “E você?”
A maioria das crianças gosta de livros.
“SIM,” ela disse. “E agora eu consigo ler sozinha!”
“Que incrível!” eu disse. E é incrível, para uma menina de 5 anos.
“Qual é o seu livro preferido?” perguntei.
“Vou lá pegar! Posso ler pra você?”
Purplicious foi a escolha de Maya, um livro novo para mim, e Maya se sentou junto a mim no sofá e leu com orgulho cada palavra em voz alta, sobre a nossa heroína que adora rosa mas é perturbada por um grupo de garotas na escola que só usam preto. Infelizmente, o livro era sobre garotas e o que elas vestiam, e como suas escolhas de roupas definiam suas identidades. Mas depois que Maya virou a última página, eu conduzi a conversa para as questões mais profundas do livro: meninas más e pressão dos colegas, e sobre não seguir a maioria. Eu contei pra ela que minha cor preferida é o verde, porque eu amo a natureza, e ela concordou com isso.
Em nenhum momento nós discutimos sobre as roupas, o cabelo, o corpo ou quem era bonita. É surpreendente o quão difícil é se manter longe desses tópicos com meninas pequenas, mas eu sou teimosa!
Eu falei para ela que eu tinha acabado de escrever um livro, e que eu esperava que ela escrevesse um também, algum dia. Ela ficou bastante empolgada com essa ideia. Nós duas ficamos muito tristes quando Maya teve que ir pra cama, mas eu disse a ela para da próxima vez escolher outro livro para lermos e falarmos sobre ele. Ops! Isso a deixou animada demais para dormir, e ela levantou algumas vezes…
Aí está, um pouquinho de oposição a uma cultura que passa todas as mensagens erradas para as nossas meninas. Um empurrãozinho em direção à valorização do cérebro feminino. Um breve momento sendo um modelo a ser seguido, intencionalmente. Meus poucos minutos com a Maya vão mudar a multibilionária indústria da beleza, os reality shows que diminuem as mulheres, a nossa cultura maníaca por celebridades? Não. Mas eu mudei a perspectiva de Maya por pelo menos aquela noite.
Tente isto da próxima vez que você conhecer uma garotinha. Ela pode ficar surpresa e incerta no começo, porque poucos perguntam sobre sua mente, mas seja paciente e insista. Pergunte-a o que ela está lendo. Do que ela gosta ou não gosta, e por quê? Não existem respostas erradas. Você apenas está gerando uma conversa inteligente que respeita o cérebro dela. Para garotas mais velhas, pergunte sobre eventos atuais: poluição, guerras, cortes no orçamento para educação. O que a incomoda no mundo? Como ela consertaria se tivesse uma varinha mágica? Você pode receber algumas respostas intrigantes. Conte a ela sobre suas ideias e conquistas e seus livros preferidos. 
Mostre para ela como uma mulher pensante fala e age.

copiado desta página:  http://lobjettrouve.net/2012/08/15/como-conversar-com-meninas/
do texto
Como conversar com meninas
publicado em 15 de agosto de 2012 por Juliana Moore

domingo, 2 de novembro de 2014

O Amor - Kahlil Gibran


Kahlil Gibran
O Amor 
E alguém disse:
Fala-nos do Amor:

- Quando o amor vos fizer sinal, segui-o;
ainda que os seus caminhos sejam duros e difíceis.
E quando as suas asas vos envolverem, entregai-vos;
ainda que a espada escondida na sua plumagem
vos possa ferir.

E quando vos falar, acreditai nele;
apesar de a sua voz
poder quebrar os vossos sonhos
como o vento norte ao sacudir os jardins.

Porque assim como o vosso amor
vos engrandece, também deve crucificar-vos
E assim como se eleva à vossa altura
e acaricia os ramos mais frágeis
que tremem ao sol,
também penetrará até às raízes
sacudindo o seu apego à terra.

Como braçadas de trigo vos leva.
Malha-vos até ficardes nus.
Passa-vos pelo crivo
para vos livrar do joio.
Mói-vos até à brancura.
Amassa-vos até ficardes maleáveis.

Então entrega-vos ao seu fogo,
para poderdes ser
o pão sagrado no festim de Deus.

Tudo isto vos fará o amor,
para poderdes conhecer os segredos
do vosso coração,
e por este conhecimento vos tornardes
o coração da Vida.

Mas, se no vosso medo,
buscais apenas a paz do amor,
o prazer do amor,
então mais vale cobrir a nudez
e sair do campo do amor,
a caminho do mundo sem estações,
onde podereis rir,
mas nunca todos os vossos risos,
e chorar,
mas nunca todas as vossas lágrimas.

O amor só dá de si mesmo,
e só recebe de si mesmo.

O amor não possui
nem quer ser possuído.

Porque o amor basta ao amor.

E não penseis
que podeis guiar o curso do amor;
porque o amor, se vos escolher,
marcará ele o vosso curso.

O amor não tem outro desejo
senão consumar-se.

Mas se amarem e tiverem desejos,
deverão se estes:
Fundir-se e ser um regato corrente
a cantar a sua melodia à noite.

Conhecer a dor da excessiva ternura.
Ser ferido pela própria inteligência do amor,
e sangrar de bom grado e alegremente.

Acordar de manhã com o coração cheio
e agradecer outro dia de amor.

Descansar ao meio dia
e meditar no êxtase do amor.

Voltar a casa ao crepúsculo
e adormecer tendo no coração
uma prece pelo bem amado,
e na boca, um canto de louvor


Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news03/article.php?storyid=1412#ixzz3HqvLhgdP

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

TUDO PASSA - Chico Xavier



Todas as coisas, na Terra,
passam...
Os dias de dificuldades,
passarão...
Passarão também
os dias de amargura
e solidão...
As dores e as lágrimas
passarão.
As frustrações
que nos fazem chorar...
um dia passarão.
A saudade do ser querido
que está longe, passará.

Dias de tristeza...
Dias de felicidade...
São lições necessárias que,
na Terra, passam,
deixando no espírito imortal
as experiências acumuladas.

Se hoje, para nós,
é um desses dias
repletos de amargura,
paremos um instante.

Elevemos
o pensamento ao Alto,
e busquemos a voz suave
da Mãe amorosa
a nos dizer carinhosamente:
isso também passará...

E guardemos a certeza,
pelas próprias dificuldades
já superadas,
que não há mal
que dure para sempre.

O planeta Terra,
semelhante
a enorme embarcação,
às vezes parece
que vai soçobrar
diante das turbulências
de gigantescas ondas.

Mas isso também passará,
porque Jesus está
no leme dessa Nau,
e segue com o olhar sereno
de quem guarda a certeza
de que a agitação
faz parte do roteiro
evolutivo da humanidade,
e que um dia também passará...

Ele sabe que a Terra
chegará a porto seguro,
porque essa é a sua destinação.

Assim,
façamos a nossa parte
o melhor que pudermos,
sem esmorecimento,
e confiemos em Deus,
aproveitando cada segundo,
cada minuto que, por certo...
também passarão..."

Tudo passa..........exceto DEUS!
Deus é o suficiente!

mensagem ditada pelo Espírito Emmanuel, através da psicografia de Chico Xavier

sábado, 25 de outubro de 2014

ESCREVER NA ROCHA

Dois grandes mercadores árabes, de nomes Amir e Farid, eram muito amigos e sempre que faziam suas viagens para um mercado onde vendiam suas mercadorias, iam juntos, cada qual com sua caravana e seus escravos empregados.

Numa dessas viagens, ao passarem junto a um rio caudaloso, Farid resolveu banhar-se, pois fazia muito calor.
Em dado momento, distraindo-se, foi arrastado pela correnteza.
Amir, vendo que seu grande amigo corria risco de vida, atirou-se às águas e, com inaudito esforço, conseguiu salvá-lo.
Após esse episódio, Farid chamou um de seus escravos e mandou que ele gravasse numa rocha ali existente, uma frase que lembrasse a todos do acontecido.

Ao retornarem, passaram pelo mesmo lugar, onde pararam para rápido repouso.
Enquanto conversavam, tiveram uma pequena discussão e Amir alterando-se esbofeteou Farid.
Este aproximou-se das margens do rio e, com uma varinha, escreveu na areia o fato.
O escravo que fora encarregado de escrever na pedra o agradecimento de Farid, perguntou-lhe:
- Meu senhor, quando fostes salvo, mandaste gravar aquele feito numa pedra e agora escreveis na areia o agravo recebido. Por que assim o fazeis?
Farid respondeu-lhe:
- Os atos de bondade, de amor e abnegação devem ser gravados na rocha para que todos aqueles que tiverem oportunidade de tomar conhecimento deles, procurem imitá-los. Ao contrário, porém, quando recebemos uma ofensa, devemos escrevê-la na areia, próxima as águas para que desapareça, levada pela maré, a fim de que ninguém tome conhecimento dela e, acima de tudo para que qualquer mágoa desapareça prontamente no nosso coração!

desconheço o Autor

terça-feira, 21 de outubro de 2014

sobre José Angêlo Gaiarsa segundo ele mesmo - adorei

"Nasci em Santo André, em 1920, formei-me em Medicina (1946) pela USP, e exerço a profissão de Psicoterapeuta por quarenta anos. Casei quatro vezes e tive quatro filhos homens do primeiro matrimônio e três filhos adotivos do quarto.
Meus interesses dominantes são problemas de família, de amor e de sexo na área social. Na área científica, interesso-me por psicofisiologia da respiração, da postura, do olhar.
Meus espíritos-guias foram principalmente Carl Gustav JUNG e Wilhelm REICH, que estudei, assimilei e ampliei.
Sou extrovertido, entusiasmado, beligerante, radical e fluente de palavras, participei de inúmeras entrevistas em jornais, revistas, programas de rádio e tevê, defendendo invariavelmente o indivíduo contra todas as pressões sociais que analiso em profundidade.
Atualmente [1989] ando fascinado pela pré-história do homem e pelo estudo comparado de comportamentos [antropologia e etologia humana], ambos como fundo da personalidade do homem moderno.
Minha paixão dominante e vitalícia: o corpo humano, sua forma, suas funções, seu significado, sua capacidade expressiva e comunicativa. Vale dizer: especialista em expressão não-verbal."

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

uma prece para fortalecer as nossas energias e apoiar a nossa caminhada


Senhor,
Sejam para o teu coração misericordioso
Todas as nossas alegrias, esperanças e aspirações!
Ensina-nos a executar teus propósitos desconhecidos,
Abre-nos as portas de ouro das oportunidades do serviço
E ajuda-nos a compreender a tua vontade!...
Seja o nosso trabalho a oficina sagrada de bênçãosinfinitas,
Converte-nos as dificuldades em estímulos santos,
Transforma os obstáculos da senda em renovadas lições...
Em teu nome,
Semearemos o bem onde surjam espinhos do mal,
Acenderemos tua luz onde a treva demore,
Verteremos o bálsamo do teu amor onde corra o prantodo sofrimento,
Proclamaremos tua bênção onde haja condenações,
Desfraldaremos tua bandeira de paz junto às guerrasdo ódio!
Senhor,
Dá que possamos servir-teCom a fidelidade com que nos amas,
E perdoa nossas fragilidades e vacilações na execuçãode tua obra.
Fortifica-nos o coração
Para que o passado não nos perturbe e o futuro nãonos inquiete,
A fim de que possamos honrar-te a confiança no diade hoje,
Que nos deste
Para a renovação permanente até à vitória final.
Somos tutelados na Terra,
Confundidos na lembrança
De erros milenares,
Mas queremos, agora,
Com todas as forças d’alma,
Nossa libertação em teu amor para sempre!
Arranca-nos do coração as raízes do mal,
Liberta-nos dos desejos inferiores,
Dissipa as sombras que nos obscurecem a visão de
teu plano divino
E ampara-nos para que sejamos
Servos leais de tua infinita sabedoria!
Dá-nos o equilíbrio de tua lei,
Apaga o incêndio das paixões que, por vezes,
Irrompe, ainda,
No âmago de nossos sentimentos,
Ameaçando-nos a construção da espiritualidade superior
Conserva-nos em tua inspiração redentora,
No ilimitado amor que nos reservaste
E que, integrados no teu trabalho de aperfeiçoamento
incessante,
Possamos atender-te os sublimes desígnios,
Em todos os momentos,
Convertendo-nos em servidores fiéis de tua luz,
para sempre!
Assim seja!

retirada do livro Missionários da Luz, de Chico Xavier pelo Espírito André Luiz
 

domingo, 28 de setembro de 2014

Em Matéria Afetiva

Sempre é forçoso muito cuidado no trato com os problemas afetivos dos outros, porque muitas vezes os outros, nem de leve, pensam naquilo que possamos pensar.

Os Espíritos adultos sabem que, por enquanto, na Terra, ninguém pode, em sã consciência, traçar a fronteira entre normalidade e anormalidade, nas questões afetivas de sentido profundo.

Os pregadores de moral rigorista, em assuntos de amor, raramente não caem nas situações que condenam.

Toda pessoa que lesa outra, nos compromissos do coração, está fatalmente lesando a si própria.

Respeite as ligações e as separações, entre as pessoas de seu mundo particular, sem estranheza ou censura, de vez que você não lhes conhece as razões e processos de origem.

As suas necessidades de alma, na essência, são muito diversas das necessidades alheias.

No que tange a sofrimentos do amor, só Deus sabe onde estão a queda ou a vitória.

Jamais brinque com os sentimentos do próximo.

Não assuma deveres afetivos que você não possa ou não queira sustentar.

Amor, em sua existência, será aquilo que você fizer dele.

Você receberá, de retorno, tudo o que der aos outros, segundo a lei que nos rege os destinos.

Ante os erros do amor, se você nunca errou por emoção, imaginação, intenção ou ação, atire a primeira pedra, conforme recomenda Jesus.


Xavier, Francisco Cândido. Da obra: Sinal Verde. Ditado pelo Espírito André Luiz. 49 edição. Uberaba-MG: CEC. 2001. 

acho que já havio postado essa msg antes, mas ela é tão lúcida e precisa,  que julgo que preciso constantemente relembrar disso, e André Luiz é um "fofo", rsrs... considero um dos grandes professores da minha vida... nossas conversas silenciosas são bálsamos para minha alma.


segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Amores Eternos

Eu acredito em amores eternos, daqueles que acompanham a gente pela vida inteira, como se tempo e amor se fundissem num só elemento, tornando-se imutáveis, indestrutíveis.


Eu acredito em amores eternos, daqueles que vão com você para qualquer lugar, não importando o quão distante você esteja, por que a pessoa amada reside em seu próprio coração.


Acredito em amores eternos e sublimes, capazes de reconsiderar tudo, com suavidade, ternura e perdão.  Acredito, sim, em amores para toda a vida, e além da vida, pois seria um tipo de amor unido à própria alma, e sem alma a vida não tem razão...


Amores eternos existem sim, e superam qualquer coisa, mesmo quando ninguém mais acredita neles, eles continuam sempre à espreita, esperando apenas um olhar, um retorno, uma reconciliação.


Augusto Branco

domingo, 7 de setembro de 2014

pra quem não conhece Augusto Branco

Augusto Branco nasceu no coração da Amazônia, fruto da união de dois ribeirinhos que, um dia, tentaram a sorte na cidade: Dona Rosa e Senhor Raymundo, escreveu as suas primeiras poesias aos 7 ou 8 anos de idade, pouco antes de começar a ajudar na loja de ferragens do pai, frequentou cursos de Administração e Pedagogia, que não completou devido às exigências da sua vida profissional, repleta de mudanças e obstáculos inesperados.

Contudo, ao longo deste percurso complicado, ao qual se juntou uma tragédia familiar,  nunca despiu a pele de escritor, encontrando tempo para criar, quase todos os dias, novos poemas, aforismos e textos motivadores.  Apresenta-se sempre como um homem entre tantos outros, “apenas um cara no caminho”, nas suas palavras. Uma expressão coerente com a sua produção literária: textos que mergulham no coração das pessoas, ao evidenciarem os mais finos paradoxos que acompanham o amor, a felicidade e o bem-estar, sentimentos comuns a todos nós.

"Vida" ter deu a volta ao Globo através do mundo online (sítios, blogues, YouTube, e-mail, redes sociais), como sendo da autoria de Charles Chaplin, mas é desse inspirado escritor, que se faça jus aos créditos, então...

Vida

Já perdoei erros quase imperdoáveis,
tentei substituir pessoas insubstituíveis
e esquecer pessoas inesquecíveis.
Já fiz coisas por impulso,
já me decepcionei com pessoas
que eu nunca pensei que iriam me decepcionar,
mas também já decepcionei alguém.
Já abracei pra proteger,
já dei risada quando não podia,
fiz amigos eternos,
e amigos que eu nunca mais vi.
Amei e fui amado,
mas também já fui rejeitado,
fui amado e não amei.
Já gritei e pulei de tanta felicidade,
já vivi de amor e fiz juras eternas,
e quebrei a cara muitas vezes!
Já chorei ouvindo música e vendo fotos,
já liguei só para escutar uma voz,
me apaixonei por um sorriso,
já pensei que fosse morrer de tanta saudade
e tive medo de perder alguém especial (e acabei perdendo).
Mas vivi!
E ainda vivo!
Não passo pela vida.
E você também não deveria passar!
Viva!!
Bom mesmo é ir à luta com determinação,
abraçar a vida com paixão,
perder com classe
e vencer com ousadia,
porque o mundo pertence a quem se atreve
e a vida é muito para ser insignificante.

(como que alguém pode pensar que essa linguagem coloquial fosse de um cara do início do século passado 'quinem' Chaplin me escapa à compreensão...)

domingo, 17 de agosto de 2014

Não sobrecarregar os filhos na escola



Costumamos dar uma importância totalmente infudada ao rendimento escolar de nossos filhos. E isso se deve apenas ao respeito pela pequena virtude do êxito. Deveria nos bastar que eles não ficassem muito atrás dos outros, que não fossem reprovados nos exames; mas não nos contentamos com isso. Queremos deles o êxito, queremos que satisfaçam ao nosso orgulho.

Se vão mal na escola, ou simplesmente não tão bem como pretendemos, erguemos imediatamente entre eles e nós a barreira do descontentamento constante; adotamos com eles o tom de voz irritado e queixoso de quem lamenta uma ofensa. Então nossos filhos, enfastiados, se distanciam de nós.

Ou talvez os secundemos em seus protestos contra os professores que não os compreenderam, declaramos, em uníssono com eles, que são vítimas de uma injustiça. E todos os dias corrigimos os seus deveres, sentamo-nos a seu lado quando fazem os deveres, estudamos as lições com eles.

Na verdade a escola deveria ser desde o início, para um menino, a primeira batalha que ele tem de enfrentar sozinho, sem nós; desde o início deveria estar claro que esse é seu campo de batalha próprio, onde só poderíamos dar uma ajuda ocasional e irrisória.

E, se lá ele padecer injustiças e for incompreendido, será necessário deixá-lo entender que isso não tem nada de estranho, porque na vida devemos esperar ser constantemente incompreendidos e mal-entendidos: a única coisa que importa é nós mesmos não cometermos injustiças.

Compartilhamos os êxitos e fracassos de nossos filhos porque os amamos muito, mas do mesmo modo e em igual medida que eles compartilharão, à medida que forem crescendo, nossos êxitos e fracassos, nossas satisfações ou preocupações. É errado que eles tenham o dever para conosco de serem aplicados na escola e de dar nela o melhor de seu talento. Seu dever para conosco, já que lhes proporcionamos estudos, é apenas seguir adiante.

Se não querem dedicar o melhor de seu talento à escola, mas aplicá-lo em outra coisa que os apaixone, seja sua coleção de coleópteros ou o estudo da língua turca, isso é assunto deles e não temos nenhum direito de repreendê-los nem de nos mostrar ofendidos em nosso orgulho ou frustrados em nossa satisfação. Se no momento não parecem ter o desejo de dedicar o melhor de seu talento a coisa alguma e passam o dia na carteira mordendo o lápis, nem mesmo assim temos o direito de censurá-los muito: talvez o que nos esteja parecendo ócio sejam na realidade fantasias e reflexões que amanhã darão frutos. Se parecem desperdiçar o melhor de sua energia e de seu talento, afundados numa poltrona lendo romances estúpidos ou no campo jogando futebol freneticamente, também não podemos saber se de fato se trata de um desperdício de energia e de talento ou se também isso, amanhã, de algum modo que ignoramos, dará seus frutos. Porque as possibilidades do espírito são infinitas. Mas nós, pais, não nos podemos deixar tomar pelo pânico do fracasso.
Nossos enfados devem ser como rajadas de vento ou temporal: violentos mas logo esquecidos; nada que possa escurecer a natureza de nossas relações com os filhos, turvando sua limpidez e sua paz. Estamos aqui para consolar nossos filhos quando um fracasso os entristece; estamos aqui para consolá-los quando um fracasso os mortifica. Também estamos aqui para baixar-lhes a fumaça quando um êxito os enche de soberba. Estamos aqui para reduzir a escola a seus limites humildes e estreitos; nada que possa hipotecar o futuro; uma simples oferta de ferramentas, entre as quais é possível escolher uma para desfrutar amanhã.

As pequenas virtudes
Autor: NATALIA GINZBURG

terça-feira, 29 de julho de 2014

Oração Nossa

 
Senhor,

ensina-nos a orar sem esquecer o trabalho,

a dar sem olhar a quem,

a servir sem perguntar até quando,

a sofrer sem magoar seja a quem for,

a progredir sem perder a simplicidade,

a semear o bem sem pensar nos resultados,

a desculpar sem condições ,

a marchar para a frente sem contar os obstáculos,

a ver sem malícia,

a escutar sem corromper os assuntos,

a falar sem ferir,

a compreender o próximo sem exigir entendimento,

a respeitar os semelhantes sem reclamar consideração,

a dar o melhor de nós, além da execução do próprio dever

sem cobrar taxas de reconhecimento.


Senhor,

fortalece em nós a paciência para com as dificuldades dos outros,

assim como precisamos da paciência dos outros

para com as nossas próprias dificuldades.

Ajuda-nos para que a ninguém façamos aquilo

que não desejamos para nós.

Auxilia-nos sobretudo a reconhecer que a nossa

felicidade mais alta será invariavelmente

aquela de cumprir os desígnios,

onde e

como queiras,

hoje,

agora

e sempre.



Emmanuel
mensagem psicografada por Chico Xavier

domingo, 18 de maio de 2014

O Discurso de Gabourey Sidibe - sobre gordofobia e autoestima


"" O nome pode parecer estranho pra você, mas com certeza você a conhece. Gabourey Sidibe é a protagonista de Preciosa (Precious), um dos filmes mais tristes do mundo. Ela também participou lindamente de The Big C, série maravilhosa com a Laura Linney.
Mas, convenhamos, seja honesta, você provavelmente lembra dela como “aquela negra gorda, imensa, baleia”. E foi sobre isso, sobre os estereótipos, sobre a maldade humana, que Gabourey falou em seu discurso na festa da Ms. Foundation, onde também se comemorou o aniversário de 80 anos de Gloria Steinem, feminista histórica.
A minha querida amiga e aniversariante do mês Mariana Laudeauser (@mlaudeauser) traduziu o discurso. Aí vai:
"



"Estou muito feliz de estar aqui. Muito, muito feliz. Bom, vamos lá. Oi. Uma das primeiras coisas que as pessoas geralmente me perguntam é: “Gabourey, como você é tão confiante?”. Odeio isso. Sempre me perguntei se é a primeira coisa que perguntam pra Rihanna quando encontram com ela. “RiRi! Como você é tão confiante?” Não. Não, não. Mas comigo? Todas as vezes me perguntam com aquela mesma incredulidade. “Você parece tão confiante! Como é isso?”

Quando eu tinha 10 anos, na quinta série, minha professora, Srta. Lowe, anunciou que minha turma teria uma festinha de fim de ano, pouco antes do feriado de Natal. Ela pediu que todos trouxessem lanches ou bebidas para a festa da turma. Ela também disse que poderíamos cozinhar algo, se quiséssemos. Eu fiquei tão feliz.

Imediatamente decidi que faria biscoitos de gengibre e todos iriam adorar. Contei para minha mãe e pedi dinheiro para comprar os ingredientes. Ela achava que eu deveria comprar biscoitos prontos na loja, mas eu disse a ela “Esses biscoitos não tem amor suficiente neles!”. Eu tinha que fazer esses biscoitos.

Então comprei a massa e forminhas em forma de árvores de Natal e sinos, e fiz uma fornada para treinar, e deu muito errado. Ainda bem que era pra praticar. Estavam horríveis. E na noite antes da festa, fiz outra fornada de biscoitos. E estavam horríveis também, mas tinham aparência bem melhor. Guardei cuidadosamente em saquinhos plásticos para levar para a escola no dia seguinte.

Quando cheguei na escola naquela manhã, mal podia esperar pela festa. Estava tão orgulhosa daqueles biscoitos e todo o esforço que fiz para prepará-los; comecei a pensar que talvez não fosse ser a primeira mulher negra presidente – talvez também fosse uma chef celebridade! Quer dizer, por que me limitar?

A festa estava marcada para acontecer uma hora antes das aulas terminarem e eu esperei ansiosamente durante o dia todo. Finalmente, era hora da festa. A professora perguntou o que todos trouxeram e eu orgulhosamente anunciei que tinha feito os biscoitos para a turma. Acho que senti mais orgulho ainda sabendo que todos os outros só compraram as coisas. Eu fui a única que fez algo, porque obviamente, eu era um pouco mais esperta do que os outros.

Então, quando a festa começou, andei pela sala, oferecendo biscoitos para todo mundo. Ninguém aceitou. Ninguém. Ninguém exceto Nicholas, que foi o primeiro pra quem eu ofereci. Mas depois que outros colegas endireitaram ele, ele veio atrás de mim e me devolveu o biscoito. Andei por toda a sala oferecendo os biscoitos para os colegas até que voltei para a minha carteira com a mesma quantidade de biscoitos. Sentei sozinha, comendo aqueles biscoitos nojentos que levei horas pra fazer, sem ajuda de ninguém. Coloquei pedacinhos de chocolate neles, por isso estavam nojentos. Não estava surpresa.

Só esqueci por um momento que a turma toda me odiava. Eu tive zero amigos da quarta até a sexta série. Pra quem diabos eu estava fazendo aqueles biscoitos? Eu fiquei tão empolgada para cozinhar que esqueci que todos me odiavam. Por que não gostavam de mim? Eu era gorda, sim. Eu tinha pele escura e cabelo esquisito, sim. Mas a verdade é que, isso não é uma história sobre bullying, ou cor, ou peso. Eles me odiavam porque… Eu era uma babaca.

Sim. Eu era mandona, uma babaca mandona. Veja, lembra quando eu falei que pensava que era mais esperta que todo mundo? Bom, eu pensava mesmo! E falava para eles, todo santo dia! Aquelas crianças não podiam pensar em falar algo sem que eu cortasse lembrando que era mais esperta, engraçada e inteligente do que eles. Sempre fui sarcástica – chamava de defeito de nascença. E vamos ser sinceros, crianças não entendem sarcasmo. Elas não gostam. Elas nunca sabiam do que eu estava falando. E quando eles diziam “Espera… hã?”, eu respondia “Meu Deus, Alicia, vai ler um livro!”. Eu sei.

Meus colegas sempre me perguntavam se eu era adotada por gente branca. Eu dizia. “Não, meus pais fizeram faculdade”. Eu sei que era rude, mas eu ainda tenho muito orgulho disso. Para ser sincera, na minha vizinhança, nem todos os pais tiveram oportunidade de fazer faculdade. A maioria dos pais dos meus colegas os tiveram quando eram adolescentes. Meus pais me tiveram aos 30 anos. Meu pai nasceu no Senegal. O pai dele foi prefeito da capital, Dakar, e meu pai frequentemente levava eu e meu irmão com ele para visitar a África, enquanto a maioria dos meus colegas nunca foi além do Lower East Side.

Minha mãe era professora de ensino médio, por isso estudava lá, mas minha mãe também tinha uma voz linda, então quando eu tinha nove anos ela pediu demissão e foi cantar no metrô. Ela ganhou mais dinheiro cantando por gorjetas do que como professora! E rapidamente ela se tornava a versão underground de Whitney Houston. Ela era a pessoa mais forte, inteligente e talentosa que eu já tinha conhecido. Até hoje, eu quero ser igual a ela mais do que qualquer outra pessoa.

A questão é, eu era esnobe. Eu achava que era melhor que os outros na minha turma e deixava isso bem claro. Por isso eles não gostavam de mim. Eu acho que o motivo pra eu pensar tão bem de mim mesma o tempo todo era por ninguém mais achar. Eu percebi que era inteligente porque minha mãe gritava com meu irmão mais velho, “sua irmã vai te passar na escola. Você vai ficar para trás e ela se vai formar primeiro que você”. Mas ela nunca me disse “você é inteligente”. O que ela me dizia era, “você é muito gorda”.

Eu recebia a mensagem que não era bonita e, provavelmente, não era normal, mas eu era inteligente! Por que não diziam logo isso? “Você é inteligente”. Não é tão difícil assim. Meu pai gritava com meu irmão “Gabourey faz o dever de casa sozinha! Por que você não consegue?”, mas ele nunca me disse “Parabéns”. O que ele dizia era: “Você precisa perder peso para eu sentir orgulho de você”. Eu sei.

Então faziam piada de mim na escola, e em casa também, meu irmão mais velho me odiava, meu pai não me entendia, e minha mãe, que também foi gorda na minha idade, me entendia perfeitamente… mas ela me traía porque ela tinha muito medo do que ela sabia que estava por vir. Então eu nunca me senti segura quando estava em casa. E minha resposta a isso era sempre comer mais, porque nada diz “você me magoou. Foda-se” como comer um biscoito delicioso. Biscoitos nunca me magoaram.

“Gabourey, como você é tão confiante?” Não é fácil. É difícil se arrumar para premiações e tapetes vermelhos quando eu sei que vão fazer piada comigo por causa do meu peso. Há sempre uma grande chance se eu usar roxo, de ser comparada ao Barney. Se usar branco, um peru congelado. E se usar vermelho, pareço uma jarra de suco de morango. O Twitter vai explodir com comentários maldosos sobre como o último terremoto foi causado por mim correndo atrás de um carrinho de cachorro quente ou algo assim. E “Dieta ou Morte?” (ela mostra o dedo do meio). É com isso que eu lido toda vez que coloco um vestido. É com isso que eu lido toda vez que alguém tira uma foto minha. Às vezes, quando sou entrevistada por uma repórter de moda, eu consigo ver nos olhos dela “Como ela consegue ser assim? Por que ela é tão confiante? Como ela lida com aquele corpo? Ai meu deus, vou pegar gordura!”.

O que eu diria é, minha mãe mudou comigo e meu irmão para a casa da minha tia. O nome dela é Dorothy Pitman Hughes, ela é feminista, ativista, e amiga de longa data da Gloria Steinem. Todo dia, eu tinha que levantar e ir para a escola onde todos faziam piada de mim, e tinha que ir pra casa onde todos faziam piada de mim.

Todos os dias era difícil continuar, não importa em que direção eu fosse. E na saída de casa, eu achava força. De manhã, saindo para o mundo, eu passava por um retrato da minha tia e Gloria juntas. Estavam lado a lado, uma com lindo cabelo comprido e a outra com o cabelo afro mais lindo e redondo que já tinha visto, ambas com os punhos para o alto. Poderosas. Confiantes.

E todos os dias eu saía de casa e levantava o punho para a foto também. E marchava para a batalha (ela começa a chorar). Na época, eu não sabia que estava sendo inspirada. Na volta para casa, subindo as escadas, eu levantava o punho de novo e continuava a marchar para mais batalhas. (ela tira um lenço do decote e limpa os olhos). É para isso que peitos servem! Não sabia que estava sendo inspirada, mas estava. Se elas se sentiam daquele jeito, talvez eu pudesse também! Eu só queria ser legal daquele jeito. Isso me deu forças.

Então, tudo bem, estamos de volta na quinta série, e eu tinha acabado de ser rejeitada por 28 crianças de uma vez só. E estava sentada sozinha na minha carteira, com um saquinho vazio, migalhas no meu colo, e estava nessa festa ótima que tinha esperado a semana inteira. Esperei a semana toda por uma festa que nem tinha sido convidada. E por algum motivo eu levantei, sentei na carteira e festejei até não poder mais. Eu ria alto quando algo engraçado acontecia. E quando a srta. Lowe colocava música, eu era a primeira a levantar e dançar. Eu dancei, comi salgadinhos, bebi refrigerante e me diverti, embora ninguém me quisesse lá.

E sabe por quê? Eu te disse – eu era uma babaca! Eu queria aquela festa! E o que eu quero ganha do que 28 pessoas querem que eu faça, especialmente quando eles querem que vá embora. Eu me diverti muito. De verdade. E se de alguma forma estraguei a festa dos meus colegas, isso é problema deles.

“Como você é tão confiante?” “Eu sou uma babaca!” Certo? É minha diversão, minha vida, apesar do que pensem de mim. Eu vivo minha vida porque eu me atrevo. Eu me atrevo a aparecer quando todos os outros podem esconder a cara e os corpos com vergonha. Eu apareço porque sou babaca e quero me divertir. E minha mãe e meu pai me amam. Eles querem a melhor vida para mim, mas não sabiam com verbalizar. E eu entendo, de verdade. Eles foram melhores pais pra mim do que eles mesmos tiveram.

Sou grata a eles e a minha turma da quinta série, pois se eles não tivessem me feito chorar, eu não estaria chorando agora. (enxuga lágrimas) Se não tivessem me dito que eu era lixo, eu não aprenderia a mostrar para as pessoas que eu sou talentosa. E se todos tivessem sempre rido das minhas piadas, eu não teria aprendido a ser tão engraçada. Se não tivessem me dito que eu era feia, eu nunca teria procurado minha beleza. E se não tivessem tentado me quebrar, eu não saberia que sou inquebrável. Então quando me pergunta como eu sou tão confiante, eu sei o que realmente está me perguntando: como alguém como eu poderia ser confiante? Vai perguntar pra Rihanna, babaca!""

 
 
originalmente publicado em 7 de maio de 2014
copiado do site: http://www.cemhomens.com/2014/05/o-maravilhoso-discurso-de-gabourey-sidibe-sobre-gordofobia-e-autoestima/